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Nódoas no estendal dos erros

Os amigos que lidam comigo mais de perto, e sabem a quantidade de atividades a que me entrego e as iniciativas em que participo, tendo, para isso, de fazer deslocações de centenas de quilómetros, algumas vezes ida e volta no mesmo dia, perguntam-me amiúde como é que ainda consigo escrever semanalmente uma crónica para este jornal. A minha resposta é sempre a mesma – tudo depende da forma como gerimos o nosso tempo.

Nódoas no estendal  dos erros-portugal-mileniostadium
Créditos: DR

Na verdade, a gestão do tempo é fundamental, pois o dia tem exatamente as mesmas horas para toda a gente, mas há quem pouca utilidade lhes dê, porque se perde por entre as rotinas diariamente cumpridas. Ao fim do dia, sentem-se desapontadas e queixam-se de como o tempo não lhes deu para nada! Não é o tempo que nos dá seja para o que for, nós é que temos de dar ocupação ao tempo.

Além da gestão do tempo, há um outro fator igualmente importante, e ao qual não sou alheia – a paixão que empresto ao que faço. Ouve-se muitas vezes dizer: “Já não tenho idade para fazer fretes”, e eu já só faço o que me dá prazer. A escrita,  por exemplo, que não se esgota nesta crónica semanal, porque, dependendo das solicitações, sou obrigada a criar outro tipo de textos.

Outra razão, não de somenos importância, é a disciplina exigida, tornada depois imagem de marca, que nos faz planear o dia, a semana e até o mês em que estamos. Daí que, além da agenda digital, não prescinda daquela que me habituei a usar em formato de papel. Temo, como já aconteceu com outros, que, se perder o telemóvel, com ele desapareça parte de um futuro planeado, e prefiro jogar pelo seguro.  Outra pergunta, que também me é feita com alguma regularidade, é: “Como é que tens sempre um tema e como é  que te ocorrem certas ideias?

Tirando aquelas datas festivas, que se torna num hábito assinalar – Natal, Carnaval, Páscoa, Dia da Mulher, Dia do Pai, Dia da Mãe, 25 de abril  e outras efemérides – nunca me faltou assunto, nem sofri da síndrome da folha em branco. Basta estar atento ao que nos rodeia, que facilmente descobrimos um manancial de instantâneos, que tanto podem ser tratados de forma séria ou mais leve, conforme o ângulo com que os queremos retratar.

Há também o nosso mundo interior, rico de vivências, experiências e pequenos “nadas” que podem ser partilhados com terceiros, desde que não colidam com a nossa reserva de intimidade, porque um jornal não é um confessionário sujeito ao dever de confidencialidade.

Por fim, e não menos importante, o exercício de escrita obriga a um desafio constante, à luta com a organização da frase, à escolha da palavra certa (nem sempre encontrada) e à angústia com que se entrega o produto final, que poderá ou não merecer a atenção do leitor.

Satisfaz-nos o retorno, seja ele feito de comentários elogiosos ou de críticas. Se os primeiros afagam o ego, as críticas ajudam a perceber onde falhamos, a melhorar a técnica e a ter um domínio maior sobre a matéria-prima com que trabalhamos – a língua em que nos expressamos.

No meu caso, que sempre senti sérias dificuldades em falar em público, e admiro aqueles que o fazem com natural fluência e elegância, é na escrita que me refugio. Só ela me dá segurança, porque me permite o rascunho, que pode ser rasurado e reescrito tantas vezes, quantas aquelas de que precisamos para o limpar a tempo de o expormos na página de um jornal, onde tantas vezes se descobrem nódoas no estendal dos erros que nos escaparam.

Aida Baptista/MS

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