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Vox Pop: Cartas que o tempo não apaga: histórias de saudade e comunicação

Visitámos o Centro Abrigo e o seu convívio de idosos, onde, como sempre, fomos recebidos com carinho e hospitalidade. Entre sorrisos, lembranças e histórias partilhadas, surgiram conversas sobre o valor das cartas e do correio tradicional. Fomos mesa a mesa, e este encontro trouxe à tona memórias de saudade, de comunicação à distância e de afetos preservados através da escrita, mostrando que, mesmo num mundo cada vez mais digital, as cartas continuam a ocupar um lugar especial no coração das pessoas.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 1

Estavam a jogar às cartas, mas pararam para falar com a nossa reportagem e chegaram à conclusão de que as cartas ainda fazem todo o sentido. Admitem que os correios têm de existir, porque a comunicação é fundamental na vida das pessoas e não pode desaparecer. Dizem ser certo e verdade que a evolução do mundo é enorme e que hoje em dia existem muitas outras formas de comunicar, mas acreditam que as cartas não deviam perder-se, pois são um elo de proximidade, de memória e de tradição que merece ser preservado.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 2

Na mesa 2, também quase de forma unânime, disseram que não é bom termos perdido o hábito da carta e do postal para comunicar, mesmo sabendo usar o telemóvel. Defenderam que os correios não podem fechar, porque continuam a ser necessários. Acrescentaram ainda que era maravilhoso receber uma carta, onde até através da letra se sentia a emoção e o sentimento da outra pessoa.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 3

Entre conversas de saudade, nesta mesa, recordaram-se os namoros por carta em tempo de guerra. Reconhecem que o mundo está hoje melhor e mais avançado, mas sublinham que há coisas que não se deviam ter perdido. Lembraram também que, quando o carteiro chegava à porta, era como um dia de festa, trazendo as notícias que chegavam de Portugal.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 4

Na mesa 4 rapidamente se viajou ao tempo das cartas de amor que se perderam e, com elas, também o verdadeiro sentido de amar, dizem. Houve até quem recordasse uma carta recebida aos 14 anos e que nunca mais esqueceu, começava assim: ‘Minha menina, até ontem não vivi, apenas vegetei. Tudo era indiferente. Vi a menina e tudo mudou. É a fada que modificou os meus dias…’ e continuava. Contaram que a carta era fundamental para manter a ligação com Portugal e com a família. Agora, com os telemóveis, tudo é mais rápido, mas nada fica verdadeiramente no coração.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 5

Chegando à mesa 5, já se falava de como, noutros tempos, a carta era a única forma de comunicar. Agora, dizem, tudo se perdeu. Houve até quem comentasse que esta greve do Canada Post só vai destruir ainda mais a empresa e reforçar a ideia de que as cartas acabaram de vez.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 6

Na mesa 6, já se ria à custa do hábito de lamber os selos e recordava-se que as cartas eram uma forma de saber notícias da família. Contavam que demoravam mais de um mês a chegar de um lado para o outro. Hoje, nem um cartão se recebe, e todos recordam com saudade as notícias que chegavam de Portugal, por escrito e por cartas onde a letra era analisada quase ao pormenor.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 7

Agora, com os telemóveis e os tablets, dizem já não precisar das cartas, mas era bonito quando as recebiam, confessa a mesa 7. Antigamente, chegavam a receber notícias apenas por carta dos familiares, mas hoje tudo é mais rápido. Sobre a greve do Canada Post, insistem que esta situação apenas mostra que as cartas não são consideradas necessárias, e todos concordam que isso não é bom.

Foto: Romulo Ávila

Mesa 8

Na mesa 8, falaram do carteiro, cuja chegada trazia alegria ou tristeza, conforme a notícia. Contaram que sentem saudades de receber e de enviar cartas, e viajaram de repente ao tempo em que existiam as madrinhas de guerra e das notas de amor, com marcação de encontros.

Há ainda uma história interessante, a de Sérgio e Elizabete, que chegaram a namorar quase dois anos por carta. Um estava em Luanda, outro em Portugal, e o amor resistiu até hoje, muito graças à troca de sentimentos vivida naquele tempo através da escrita.

RMA/MS

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