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Senhorios vs inquilinos

A relação entre proprietários de imóveis residenciais e inquilinos ganhou novos contornos desde a chegada da pandemia de Covid-19. Muitas pessoas simplesmente perderam o trabalho do dia para a noite e ao final do mês se viram sem condições de pagar as contas entre elas, a do aluguel, uma das despesas que mais pesa no bolso, em especial dos moradores da grande área de Toronto. Do outro lado, os donos dos imóveis que contam com aquele valor do aluguel para viver e quitar suas próprias dívidas, como em vários casos, as de hipotecas. Durante os estados de emergência o Governo de Ontário, na tentativa de proteger os inquilinos, suspende temporariamente as ordens de despejo. Partindo daí, as histórias podem variar bastante. Há casos de proprietários que reclamam que determinados inquilinos interpretaram que essa ordem significa que eles estão isentos de pagar o aluguel, o que não é o caso. Além disso, também relatam gastos extras com as despesas com eletricidade, internet, água e gás, devido ao teletrabalho. Da parte dos inquilinos, as queixas mais comuns são a falta de flexibilidade de alguns proprietários, que mesmo diante da crise econômica que assolou o país e o mundo, não se mostram disponíveis a conversar e renegociar as condições de pagamento e tentar assim chegar a um acordo satisfatório para ambos. Em muitos casos prevalece o bom senso, e depois de uma conversa novas negociações ou prazos são definidos. Debater essa relação e mostrar os seus diferentes lados é a proposta do Milénio Stadium dessa semana. E nessa seção entrevistamos algumas pessoas da comunidade lusófona para entender como estão lidando com essa situação. 

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  • Eduardo Araújo, 41 anos, engenheiro

A pandemia fez com que você tivesse mais dificuldade em pagar o aluguel?

Não, pois consegui me manter na posição dentro da empresa em que trabalho, e minha esposa mesmo tendo perdido o emprego, em meio a pandemia, foi contratada e está trabalhando em outra empresa. A ajuda do governo federal também contribuiu para que conseguíssemos manter as contas de casa.

Como tem sido o comportamento do proprietário do imóvel em que vive desde o início da pandemia? Se mostrou aberto a negociações sobre descontos no aluguel ou outros ajustes, caso fosse necessário?

O comportamento não mudou. Na verdade, ele nunca nos procurou para falar sobre o assunto, acho que porque os pagamentos não atrasaram. É claro que em meio a pandemia com muitas pessoas perdendo seus trabalhos, um sinal de alerta acende nessa relação proprietário – inquilino.

Conhece alguém, como por exemplo um vizinho, amigo, parente ou colega de trabalho, que teve dificuldade em pagar o aluguel?

Não. Mas venho acompanhando com muita preocupação o que vem acontecendo no mercado imobiliário. Principalmente com relação às pessoas não conseguindo mais pagar os aluguéis de estabelecimentos comerciais e ou residenciais e simplesmente fechando as portas ou mudando-se. Muito triste constatar que o impacto econômico da pandemia apenas piora a situação já crítica de saúde pública.

Durante os estados de emergência o governo baniu as ordens de despejo para aqueles que não conseguem pagar o aluguel. Acha que as autoridades vêm fazendo o bastante para ajudar as pessoas que estão tendo dificuldades financeiras e podem ficar sem moradia nesse momento de pandemia?

Acho que sim. A prova disso é a proibição do governo já mencionada na pergunta. O problema é quem se aproveita dessa situação, de ambos os lados, inquilino ou proprietário.

Está trabalhando a partir de casa? Se sim, como tem sido a experiência e notou alguma mudança nas despesas mensais, como internet e eletricidade, por exemplo?

Meu trabalho e o trabalho da minha esposa são presenciais então notamos muito diferença nesse sentido.


  • Rose Tiboni, 35 anos, publicitária

A pandemia fez com que você tivesse mais dificuldade em pagar o aluguel?

Fiquei tensa no primeiro mês quando meu empregador pediu para que todos fossem pedir ajuda ao governo, já que o escritório fechou as portas. Nesta fase é complicado qualquer empresário investir em publicidade que é o ramo onde trabalho. Passado o susto fomos contratos novamente após dois meses, mas as contas mensais ficaram comprometidas sim.

Como tem sido o comportamento do proprietário do imóvel em que vive desde o início da pandemia? Se mostrou aberto a negociações sobre descontos no aluguel ou outros ajustes, caso fosse necessário?

Moro em um edifício e desde o primeiro lockdown todos os moradores receberam um memorando a dizer que estariam abertos a negociação e enviaram instruções de como obter dinheiro do governo para este caso. Fui bem orientada.

Conhece alguém, como por exemplo um vizinho, amigo, parente ou colega de trabalho, que teve dificuldade em pagar o aluguel?

Não conheço, felizmente as pessoas que conheço na maioria tem casa própria e os que moram de aluguel como eu conseguiram pagar o aluguel negociando com o proprietário.

Durante os estados de emergência o governo baniu as ordens de despejo para aqueles que não conseguem pagar o aluguel. Acha que as autoridades vêm fazendo o bastante para ajudar as pessoas que estão tendo dificuldades financeiras e podem ficar sem moradia nesse momento de pandemia?

Sim. Acho que o governo tem ajudado bastante os moradores, porém acho que os proprietários neste caso deveriam ter um respaldo do governo também em relação às taxas anuais da propriedade. Será que tiveram?

Está trabalhando a partir de casa? Se sim, como tem sido a experiência e notou alguma mudança nas despesas mensais, como internet e eletricidade, por exemplo?

Trabalhei por dois meses em casa, até o governo abrir novamente o comércio com restrições, foi estressante, pois moro sozinha e o isolamento não ajuda neste caso. Notei que os preços de tudo aumentaram, a conta do supermercado dobrou, a eletricidade também e o serviço de internet piorou muito.


  • Anthony Smith, 30 anos, barman

A pandemia fez com que você tivesse mais dificuldade em pagar o aluguel?

A pandemia teve um efeito devastador nas nossas vidas. Ficámos os dois sem trabalho e temos recorrido a poupanças, à ajuda do governo e à ajuda da família. Mas por mais que os meus pais queiram ajudar, ou os da minha esposa, a verdade é que eles também precisam de sobreviver. Como os dois restaurantes onde trabalhávamos fecharam, ficámos sem trabalho e tem sido difícil pagar a renda.

Como tem sido o comportamento do proprietário do imóvel em que vive desde o início da pandemia? Se mostrou aberto a negociações sobre descontos no aluguel ou outros ajustes, caso fosse necessário?

Felizmente temos um senhorio flexível com quem negociámos e temos vindo a pagar aos poucos. O nosso senhorio foi impecável desde o início da pandemia, vivemos na mesma casa há quatro anos e nunca falhámos nenhum pagamento. Mas claro que ele podia ter dito simplesmente para abandonarmos a sua propriedade, mas antes pelo contrário, foi muito solidário connosco. E nós até tínhamos poupanças, temos amigos que como têm filhos não tinham muito dinheiro de parte e estavam menos preparados para uma crise destas. Mas é óbvio que há muita ansiedade quando chega o primeiro dia do mês. E confesso que é muito humilhante ter de passar por algo desta natureza…

Conhece alguém, como por exemplo um vizinho, amigo, parente ou colega de trabalho, que teve dificuldade em pagar o aluguel?

Um casal que faz parte do nosso grupo de amigos infelizmente não teve a mesma sorte que nós. Ambos perderam o emprego na Air Canada, mas o senhorio disse-lhes que não conseguia pagar as contas se eles não pagassem a renda. O senhorio é idoso e dependia do dinheiro da renda para sobreviver. Eles compreendem, mas claro que sem emprego foi difícil encontrar uma segunda casa para arrendarem. O que lhes valeu foi a ajuda da família, senão não sei o que lhes tinha acontecido.

Durante os estados de emergência o governo baniu as ordens de despejo para aqueles que não conseguem pagar o aluguel. Acha que as autoridades vêm fazendo o bastante para ajudar as pessoas que estão tendo dificuldades financeiras e podem ficar sem moradia nesse momento de pandemia?

Na minha opinião sim. Estamos a atravessar um período muito difícil e de muita instabilidade. Ninguém sabe quando vai ser despedido e se todos os níveis de governo nos pedem para reduzir os contactos e sair apenas por motivos essenciais, não faz sentido colocar as pessoas na rua. Mas é claro que depois do estado de emergência terminar as nossas vidas continuam suspensas.

O que pensa da possibilidade de trabalhar a partir de casa?

Mesmo que tivesse mantido o emprego, como sou barman nunca poderia trabalhar a partir de casa. É como um hospedeiro de bordo ou um cabeleireiro, pura e simplesmente nem todas as profissões se podem converter ao teletrabalho. Mas pessoalmente não tenho nada contra, pelo que leio a produtividade dos trabalhadores até aumentou. O que vai contra a ideia que existia de que as pessoas não conseguiam manter os níveis de produtividade trabalhando a partir de casa. Para ser honesto antes da pandemia estávamos pouco tempo em casa e os senhorios cobravam os valores da renda na mesma. Julgo que nunca ninguém teve um desconto na renda por passar poucas horas em casa. Mas a maioria das pessoas que conheço paga as suas contas separadas da renda, aliás, os senhorios são aconselhados a fazê-lo exatamente para evitarem contas astronómicas.


  • Mariana Faria, 37 anos, cabeleireira

A pandemia fez com que você tivesse mais dificuldade em pagar o aluguel?

Sim, a renda da minha casa diminuiu bastante. Eu trabalhava em um salão de beleza, que esteve fechado durante quase toda a pandemia. Meu marido, felizmente, não perdeu o emprego. Para complementar a renda eu passei a trabalhar também como motorista de aplicativo, o que ajuda a manter a casa, mas tive que lidar com o medo constante de contaminação, afinal, são muitas pessoas diferentes que atendemos.

Como tem sido o comportamento do proprietário do imóvel em que vive desde o início da pandemia? Se mostrou aberto a negociações sobre descontos no aluguel ou outros ajustes, caso fosse necessário?

Não mudou em nada, ele nunca perguntou se precisaríamos atrasar um pagamento ou algo do tipo. Acho que teria mudado a relação se tivéssemos atrasado algum pagamento.

Conhece alguém, como por exemplo um vizinho, amigo, parente ou colega de trabalho, que teve dificuldade em pagar o aluguel?

Um casal de vizinhos meus é idoso e a senhora me contou que o landlord chegou a ligar para ela, perguntar se estavam bem, se a pandemia havia os afetado financeiramente de alguma forma. Achei bem atencioso da parte desse landlord. Felizmente esse casal tem uma boa aposentadoria então não enfrentam dificuldades. Pessoalmente não conheço ninguém que não conseguiu mais pagar o aluguel, até porque acho que a ajuda do governo ajudou muitos a “respirarem” mais tranquilos, nesse sentido.

Durante os estados de emergência o governo baniu as ordens de despejo para aqueles que não conseguem pagar o aluguel. Acha que as autoridades vêm fazendo o bastante para ajudar as pessoas que estão tendo dificuldades financeiras e podem ficar sem moradia nesse momento de pandemia?

Acho que fazem o que podem. Os benefícios do governo ajudaram bastante, mas aquelas pessoas que moram sozinhas e bancam a casa sozinhas, ou os casais onde os dois perderam os empregos…realmente é difícil pagar o aluguel e todas outras contas do mês apenas com o auxílio…Essa questão de não pagar o aluguel é muito complicada, porque entendo o lado de quem esteja passando dificuldades, mas também entendo o lado do proprietário. Acredito que pode haver má fé em ambos os lados, então é difícil julgar.

Está trabalhando a partir de casa? Se sim, como tem sido a experiência e notou alguma mudança nas despesas mensais, como internet e eletricidade, por exemplo?

Não notei diferença nas despesas da casa. Apenas no plano de dados de internet do celular, que uso bastante no dia a dia do trabalho atual.

Lizandra Ongaratto/MS

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