Viver para os outros, esquecer-se de si…

Vivemos um tempo cada vez mais exigente e, neste enquadramento, há histórias que se repetem em silêncio dentro de muitas casas. Rotinas preenchidas, agendas sobrelotadas, responsabilidades que se acumulam sem espaço para pausa. Entre o trabalho, a vida familiar e o apoio constante a diferentes gerações, muitas pessoas vivem num estado permanente de disponibilidade para os outros, mas raramente para si próprias.
É neste contexto que o olhar da psicologia se torna essencial. Mais do que compreender o que se faz, importa perceber o que se sente. O desgaste não surge apenas no corpo, mas instala-se de forma subtil na mente, nas emoções, na forma como cada pessoa se vê e se relaciona com o mundo à sua volta. A pressão contínua pode transformar-se em ansiedade, culpa ou exaustão profunda — sinais que, muitas vezes, passam despercebidos até atingirem níveis difíceis de ignorar.
Conversámos com Angela Masuzzo, psicoterapeuta, que acompanha de perto esta realidade no seu trabalho clínico. Através da sua experiência, ajuda-nos a identificar os principais impactos psicológicos desta sobrecarga acumulada, os sinais de alerta a que devemos estar atentos e, sobretudo, os caminhos possíveis para recuperar equilíbrio.
Porque, no meio de tantas exigências, há uma pergunta que importa não esquecer: até que ponto é possível cuidar dos outros sem cuidarmos de nós próprios?
Milénio Stadium: Quais são os principais impactos emocionais e psicológicos em pessoas que cuidam simultaneamente dos filhos e dos pais idosos?

Angela Masuzzo: Interessante essa pergunta neste momento pois tenho clientes que estão passando por essa situação que não é fácil e justamente essa semana falámos sobre este assunto e como lidar com essa situação de uma maneira saudável que não comprometa o estado físico e emocional da pessoa que faz o papel de cuidador/a. Os impactos emocionais e psicológicos são vários, mas os principais seriam:
A sobrecarga e cansaço emocional que essas pessoas experienciam. Isso pode trazer a fadiga crónica, a sensação de nunca estar descansado mesmo após ter descansado. Irritabilidade ou falta de paciência também podem se apresentar acompanhadas da tolerância emocional baixa. Isso pode causar o que chamamos de “burnout” da pessoa que cuida, pois essas pessoas sentem-se com a responsabilidade de ‘cuidar de tudo’.
- A pessoa também pode sentir-se culpada por não estar atuando ou fazendo os papeis que pensa serem devidos. Como por exemplo: Não sou uma boa filha/filho, boa mãe ou pai, será que estou fazendo o suficiente? Será que estou sendo boa esposa ou marido.
- Essa culpa existe devido à pessoa sentir-se impossibilitada de atender todas as pessoas e as demandas.
- Outro fator também é a perda da identidade pessoal, onde a pessoa deixa de existir como individuo e passa a se ver como ‘uma função’ – cuidador, desconectado de seus próprios interesses e a evidenciar falta do ‘autocuidado.’
- A constante ansiedade que esta situação causa, com o seu sistema nervoso em estado de alerta contínuo.
- Tudo isso pode causar conflitos conjugais, familiares pelas diferenças de expectativas de todos envolvidos.
MS: De que forma esta pressão contínua pode afetar a saúde mental, nomeadamente ao nível do stress, ansiedade ou burnout?
AM: Como já comentei acima, quando a pessoa chega à exaustão emocional intensa- tudo ao seu redor é afetado imensamente. Temos que ter cuidado com os sinais que podem passar por desapercebidos por um bom tempo, para evitar problemas maiores. Alguns dos sinais podem ser, mas não se limitam a: falta de energia, desmotivação total relativamente às coisas ao seu redor, a sensação de aprisionamento e o afastamento emocional, a despersonalização, a redução da empatia mesmo com as pessoas que ama, a sensação de vazio e falta de energia, tudo isso causado pelo stress da situação. Se a pessoa está passando por essa experiência e sintomas, é aconselhável procurar ajuda médica ou terapia.
Normalmente, a pessoa não consegue identificar certos termos, mas ela vem com uma narrativa real e mais parecida com frases assim: “Estou sem paciência”, Me sinto sempre cansada”, Sinto muita culpa”, “Não consigo me desligar, a minha cabeça está sempre funcionando”, “Já não me reconheço”. Essas pequenas frases são indicações fortes de que a pessoa chegou ao seu limite e precisa de ajuda externa.
MS: Porque é que tantas pessoas nesta situação têm dificuldade em cuidar de si próprias e quais são os riscos dessa negligência?
AM: Pessoas que cuidam, ao mesmo tempo, dos filhos, casa, trabalho e dos pais idosos muitas vezes têm dificuldade em cuidar de si mesmas porque seu valor fica ligado ao papel de cuidar, há um forte senso de responsabilidade e culpa. A pessoa às vezes sente-se culpada por tirar um tempo para descansar. Além de manter um sistema nervoso constantemente em alerta, a culpa às vezes o impede de cuidar de si próprio. Muitas vezes, também existe pouca rede de apoio. Isso leva ao autoabandono pela sobrecarga, mesmo quando percebem que precisam de pausa. Como fazer para tirar esse tempo e cuidar de si mesmo quando tem tanta coisa para fazer e resolver? A obrigação sempre fala mais alto, e até chegar ao ponto onde realmente a saúde física e mental é seriamente afetada a pessoa não consegue se dar esse direito de ‘pausa’, até quase chegar a um esgotamento emocional e físico.
Os riscos são altos e acumulativos: podem desenvolver burnout, depressão, ansiedade generalizada, além de perda de identidade, ressentimento e grandes impactos nos relacionamentos ao seu redor, tanto familiar como profissionalmente.
MS: Que estratégias ou ferramentas psicológicas podem ajudar a gerir melhor estas responsabilidades acumuladas?
AM: Em primeiro lugar vem a realização de que algumas estratégias ou ferramentas precisam ser colocadas em prática para alcançar um alinhamento e balanço pessoal para evitar o burnout.
- Colocar certos limites pode ajudar muito. Por exemplo, dizer ‘Não’, ajuda a reduzir e dividir responsabilidades com outras pessoas e familiares.
- Saber diferenciar a responsabilidade real das expectativas irreais e prestar atenção na narrativa de que cuidar de si mesmo, ao mesmo tempo, é necessário e não é egoísmo de sua parte.
- Avaliar seu próprio limite e tomar decisões mais saudáveis para poder continuar prestando apoio aos pais idosos.
- Às vezes é mais simples do que pensamos:
- Uma técnica simples e que pode ajudar muito é da respiração consciente,
- Fazer grounding, ou promover o contato com a natureza, como por exemplo uma caminhada para reduzir o stress e trazer um pouco de alinhamento pessoal.
- Pensar em formas de resgatar um pouco seus valores, alguns interesses que ficam perdidos pelo caminho.
- Muito importante é não se privar de pedir ajuda – suporte externo como terapia, assistência médica, grupos de apoio – pois não é sustentável fazer tudo sozinho.
MS: Em que momento deve uma pessoa nesta situação procurar ajuda profissional?
AM: Uma pessoa nessa situação pode considerar procurar ajuda profissional quando começa a se sentir constantemente tudo que foi mencionado acima. Sentir-se cansada, sem energia, mais irritada ou emocionalmente sobrecarregada do que o normal. Quando a mente não desacelera, o sono piora e a preocupação vira constante, pode ser um sinal de que a ansiedade está aumentando, como uma Ansiedade Generalizada.
Da mesma forma, quando tudo começa a parecer pesado demais, surge uma sensação de vazio ou de estar funcionando no automático, isso pode indicar um nível de esgotamento mais profundo, como o burnout. Se a pessoa perde o interesse pelas coisas que antes gostava ou se sente desconectada de si mesma, também pode ser um sinal e o começo de uma depressão. E isso não pode ser ignorado, tem que se dar a atenção adequada.
Na verdade, não é preciso esperar chegar ao limite. Um bom momento para buscar ajuda é quando a pessoa percebe que está carregando muita coisa sozinha e gostaria de ter mais apoio, clareza e leveza para lidar com tudo isso.
A pessoa não precisa estar no seu pior momento para procurar ajuda, ela precisa sentir que esta sobrecarregada, estressada e está pesado demais para carregar tudo sozinha.
MB/MSv







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