Uma realidade chamada… fome

Os números já não permitem neutralidade. A fome deixou de ser uma realidade distante, associada apenas a países em guerra ou a regiões em extrema pobreza. Hoje, ela está presente nas grandes cidades, nos subúrbios, nos bairros onde vivem trabalhadores, famílias com crianças, idosos e recém-chegados. Em março de 2025, os bancos alimentares do Canadá registaram mais de 2,1 milhões de visitas num único mês, o valor mais alto de sempre. Não se trata apenas de estatísticas frias: são rostos, histórias, mesas vazias e escolhas impossíveis entre pagar a renda, aquecer a casa ou comer.
O crescimento contínuo da procura revela fragilidades profundas num país que se orgulha da sua estabilidade económica. A inflação persistente, o aumento brutal dos custos da habitação, os salários que não acompanham o custo de vida e a insuficiência dos apoios sociais estão a empurrar milhares de pessoas para a insegurança alimentar. O dado mais inquietante talvez seja este: quase um em cada quatro utilizadores dos bancos alimentares tem emprego. Trabalham, contribuem, pagam impostos e ainda assim não conseguem garantir o básico. E entre os que recorrem a esta ajuda, quase um terço são crianças, um sinal claro de que a pobreza já não é exceção, mas uma realidade estrutural.
Em Ontário, a situação é igualmente alarmante. Mais de um milhão de pessoas recorreram a bancos alimentares num único ano, num sistema que está a atingir o seu limite físico e financeiro. Muitos serviços têm sido reduzidos, as quantidades por família diminuídas e as equipas funcionam sob enorme pressão. O que era pensado como resposta de emergência tornou-se, perigosamente, permanente.
No plano global, o quadro é ainda mais duro: centenas de milhões continuam a dormir com fome, milhões de crianças crescem subnutridas e a insegurança alimentar afeta quase um terço da população mundial. Conflitos, alterações climáticas, desigualdades económicas e falhas políticas alimentam um ciclo de fome difícil de quebrar.
Perante este cenário, a resposta não pode vir apenas das instituições como os Food Banks. É necessária vontade política, investimento em habitação acessível, salários dignos, sistemas de proteção social eficazes. Mas também é necessária a responsabilidade de cada um de nós. Ajudar pode ser doar alimentos, contribuir financeiramente, fazer voluntariado, pressionar decisores políticos ou simplesmente recusar a indiferença. Porque a fome não é apenas um problema social é um teste moral à nossa capacidade coletiva de cuidar uns dos outros.
Visitas a bancos alimentares
No Canadá
Março de 2025
- Quase 10 milhões de pessoas (25,5%) vivem com insegurança alimentar
- 2,6 milhões com insegurança alimentar severa
- 2,166 milhões de visitas a Food Banks
- o valor mensal mais elevado de sempre
- um aumento de 5,2% em relação a março de 2024
- quase o dobro do número de visitas comparado com março de 2019
- em 2025
- cerca de 19,4% referiram ter emprego como principal fonte de rendimento
- 000 (33%) eram crianças – só nesse mês
- 23,1% eram famílias com dois pais
No Ontário
Entre 1 de abril de 2024 e 31 de março de 2025
- 007.441 pessoas usaram um banco alimentar em Ontário
- 712.897 visitas a serviços de apoio alimentar no conjunto da província
- aumento de 13% em relação ao ano anterior
- aumento de 165% em relação a 2019-2020
Perfil dos utilizadores
- 1 em cada 4 têm emprego
- 29% são crianças (quase 3 em cada 10 pessoas têm menos de 18 anos)
- Uma parte significativa vive em habitação alugada
- Dependem de apoios sociais provinciais ou de rendimentos baixos
Pressão sobre os bancos alimentares
- A procura disparou de tal forma que os bancos alimentares estão “no limite” da sua capacidade.
- Em 2024, cerca de 40% dos bancos alimentares em Ontário relataram ter reduzido a quantidade de comida que podiam fornecer por visita.
- Metade dos Food Banks que ofereciam serviços complementares (como apoio social, logística, distribuição de refeições prontas) tiveram de cortar essas “wrapped-around supports” devido à escassez de recursos.
No Mundo
- Em 2024, cerca de 673 milhões de pessoas no mundo com fome, aproximadamente 8,2% da população global.
- O intervalo estimado de pessoas com fome no mundo em 2024 varia entre 638 e 720 milhões.
- 38 milhões crianças menores de 5 anos em contextos de crise nutricional aguda
- 2,3 mil milhões de pessoas vivem com insegurança alimentar moderada ou grave
- O que representa 28% da população mundial
- Mais de 295 milhões enfrentam fome aguda
- Em 2024, estima-se que mais de 307 milhões de pessoas em África estavam em situação de fome. Mais de 20% da população africana.
- Até 2030 o número de pessoas cronicamente subnutridas poderá atingir 512 milhões
- 60% dessas pessoas vivem em África







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