Temas de Capa

Uma mudança, algo diferente daquilo a que estivemos habituados nos últimos anos

David Curto — CHEGA!

Credito: DSavid Ganhão

A participação política dos emigrantes portugueses continua a ser um espelho complexo das ligações que mantêm com o país de origem. Entre a distância geográfica e o acompanhamento da realidade nacional, principalmente através das redes sociais, muitos formam opiniões, fazem escolhas e tomam posições. Ainda assim, o voto da diáspora pode ganhar especial relevo num resultado final.

Nesta entrevista, David Curto, representante do Chega em Toronto, fala sobre o envolvimento da comunidade portuguesa no Canadá e da sua participação na 1ª volta das eleições presidenciais. Partilha também as razões que, na sua perspetiva, podem explicar a abstenção eleitoral e o apoio crescente a André Ventura e ao partido de extrema-direita, Chega. Ao longo da conversa, foram também abordados alguns temas centrais do debate político atual – o papel do Presidente da República, a Constituição, a imigração e o descontentamento de parte dos emigrantes com o rumo do país.

Milénio Stadium: O que é que, na sua opinião, explica que, dos 48.054 eleitores inscritos, apenas 1.035 tenham votado?

David Curto. Créditos: DR.

David Curto: Esta votação, aqui no concelho de Toronto, até foi a que registou mais votos. Ir ao consulado não é fácil: fica no centro da cidade e é longe para muitos portugueses. Ainda assim, acho que foi um número razoável, sobretudo quando comparado com eleições anteriores. Claro que podia haver outras soluções, como mesas de voto espalhadas pela GTA, mas isso só é possível com aprovação do governo.

Acho que, no futuro, com a votação eletrónica de que o governo tem falado, vai haver muito mais participação. Principalmente na parte dos imigrantes, isso será algo óbvio. Mas mesmo agora, acho que todos nós devíamos fazer a nossa parte, como portugueses que somos.

MS: Porque é que, na sua opinião, o futuro Presidente da República deveria ser André Ventura?

DC: Porque me identifico muito com as ideias dele. Acho que o André Ventura é um democrata da transparência e pode ser uma das soluções para o futuro dos portugueses. Penso que isso ficou claro pelos votos que recebeu: o povo quer mudança. Na segunda volta, espero que muitos eleitores de direita acreditem nele. Acho que o André Ventura pode fazer a diferença na nossa democracia e na nossa política.

MS: Quando fala em “democracia da transparência”, o que quer dizer concretamente?

DC:Uma mudança, algo diferente daquilo a que estivemos habituados nos últimos anos.

MS: Mudança em que sentido? O que acha que é necessário mudar?

DC: Por exemplo, temos visto muitos problemas na saúde, que está cada vez pior. Também na economia do país, acho que há muito por melhorar.

MS: Mas considera que essas são funções do Presidente da República?

DC: O Presidente não manda, não governa, nós sabemos disso, quem governa é o governo. Mas pode estar mais em cima do governo, ser mais ativo, pressionar, ajudar o país a andar mais para a frente.

MS: André Ventura chegou a dizer que gostaria de presidir às reuniões do Conselho de Ministros. Considera isso uma boa ideia?

DC: Sim, acho que sim. É um dos temas que ele propõe. Fala-se muito da Constituição Portuguesa e ele também diz que gostava de mudar alguns pontos. Não vai mudar tudo, isso é óbvio, mas a Constituição também precisa de um “update”, como fazemos nos telemóveis. A última vez que foi mexida foi em 1989, no tempo do Mário Soares. Se for para melhorar certos aspetos e for bom para todos os portugueses, acho bem.

MS: Sabe que no Estado Novo existia a figura do Presidente do Conselho de Ministros. Concorda então com o regresso desse modelo?

DC: Sim, mas Portugal não vai ser uma ditadura, atenção.

MS: Muitas pessoas têm receio disso…

DC: Não concordo. O André Ventura e o Chega são muito parecidos com o partido que está no poder em Itália. Quando a senhora Meloni ganhou, toda a gente dizia que a Itália ia virar uma ditadura, que iam acabar as eleições. E não foi isso que aconteceu. Hoje, a Itália não é uma ditadura e Meloni é bem vista por muitos líderes europeus. O partido dela é equivalente ao Chega.

MS: O Presidente da República deve ser um árbitro da democracia, promotor da união e do respeito pelas diferenças. Acha que André Ventura tem esse perfil?

DC: Pessoalmente, gostava que ele fosse um pouco mais moderado. Mas se as pessoas acreditarem nele e se ele conseguir ser Presidente da República, espero que também se torne mais moderado e que as pessoas à volta dele o ajudem nesse sentido. Acho que ele consegue fazer esse trabalho.

MS: Como militante do Chega e como imigrante no Canadá, como vê as declarações de André Ventura e de dirigentes do partido sobre a imigração em Portugal?

DC: Antes de mais, o André Ventura não é contra a imigração. O que ele pede é imigração controlada. Ele diz “Portugal para os portugueses”, mas aceita imigração legal. Eu estou no Canadá há vários anos e tive de respeitar as leis canadianas, a cultura canadiana. No fundo, o que ele pede é o mesmo que o Canadá pede: imigração legal.

O Canadá é um país muito mais de imigração do que Portugal, e mesmo assim tem regras. A imigração legal até protege os próprios imigrantes, porque se entrarem demasiadas pessoas sem condições, muitos acabam por viver muito mal em Portugal.

MS: Tem dados que confirmem que a imigração ilegal em Portugal é assim tão elevada?

DC: Não tenho os números comigo. Aquilo que sei vem do que vejo nas notícias. Há cerca de um ano falou-se que havia um milhão e meio de imigrantes em Portugal e que quase metade não estaria legal. Não estou a dizer que se deva mandar essas pessoas embora, atenção, nem o André Ventura diz isso. Mas vemos nas notícias pessoas a viver em condições miseráveis, dez pessoas num quarto. Isso não é bom para a humanidade, nem para a imagem de Portugal.

MS: No Canadá também existem situações semelhantes. Muitos portugueses passaram por isso.

DC: Talvez aqui não haja tanto, porque a imigração é mais controlada. Portugal é um país muito mais pequeno e talvez não tenha as mesmas condições que o Canadá. Mas infelizmente é isso que se vê em Portugal.

MS: Houve um cartaz do Chega com a frase “Isto não é o Bangladesh”. Acha que isso não pode ser considerado xenófobo?

DC: Eu não vejo isso dessa forma. Acho que é apenas a expressão de um cartaz. Talvez porque seja um dos países de onde tem vindo mais imigração. Ele (André Ventura) fala nesse aspeto porque talvez essas pessoas não estejam a respeitar tanto as leis portuguesas como deviam. E sabemos que, normalmente, são muçulmanos, de outra religião, e por vezes não aceitam a nossa cultura ou a nossa religião. Se querem ser aceites em Portugal, também têm de respeitar as nossas culturas.

MS: A informação que tem sobre Portugal vem sobretudo de onde?

DC: Temos um grupo de delegados do Chega onde passa muita informação. Também sigo as redes sociais e gosto de ver os telejornais portugueses, como a CNN ou a SIC Notícias.

MS: Na sua opinião, qual é a principal razão de insatisfação dos emigrantes portugueses com os 50 anos de democracia?

DC: Eu não acho que os emigrantes portugueses estejam assim tão zangados com Portugal. Mas como estamos longe, vemos notícias de que não gostamos. Qualquer português quer que Portugal evolua e, quando vai de férias, gosta de ver o país melhor do que quando saiu. Os portugueses que estão fora são tão portugueses como os que estão em Portugal.

É importante que as pessoas se mentalizem disso e participem. Os eleitores fora de Portugal são cerca de 1 milhão e 777 mil, quase 2 milhões de votos. É um número que pode fazer a diferença. Por isso faço o apelo à comunidade luso-canadiana: votem naquilo que querem para Portugal.

MB/MS

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button

 

O Facebook/Instagram bloqueou os orgão de comunicação social no Canadá.

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER