Temas de Capa

Uma conversa com Maria, num banco de jardim

Créditos: MDC Media Group

Passei ao seu lado num banco de jardim que parecia fora do tempo. Não havia turistas, nem pressa. Apenas árvores, silêncio e uma mulher de olhar tranquilo. Reconheci-a sem saber bem porquê. Era Maria, mãe de Jesus. Fiquei incrédula, mas depois de olhar de novo, percebi que não estava enganada, era mesmo a Mãe divina a quem dirijo tantas preces, a quem tanto tenho pedido orientação e que interceda por mim e pelos meus.

Enchi-me de coragem e… “Posso sentar-me?”, perguntei, já inclinada e a assumir o meu lugar naquele banco. “Já te sentaste”, respondeu, sorrindo. Respirei fundo. “Estou tão feliz por estar ao Teu lado. Nem acredito que estou assim tão perto da mãe de Jesus. Gostava de conversar um pouco contigo, achas que posso tomar um pouco do Teu tempo precioso?” Acenou que sim com a cabeça e abriu um sorriso lindo. Sem perder tempo continuei, “Tenho tantas perguntas… O mundo anda tão violento, Maria. Tão duro. Como mãe de Jesus, podes ajudar-me a perceber por que razão milhares de anos depois dos Seus ensinamentos, ainda tantas crianças nasçam apenas para sofrer com guerras, fome, abandono…?”.  Ela olhou para as mãos, como quem acaricia uma memória antiga. “No meu tempo também se nascia em ambientes hostis. O meu filho nasceu num estábulo, rodeado de medo e perseguição. Mudam os cenários, mas o coração humano luta sempre com as mesmas sombras.”

“Mas Jesus ensinou tanto sobre amor… e parece que tantos esqueceram.”, insisti. Maria sorriu com doçura. “Os ensinamentos continuam vivos. O problema é que alguns preferem citá-los em vez de vivê-los. Amar dá trabalho. Perdoar cansa. E cuidar das crianças exige renúncia e muito amor. Nem todos estão dispostos.” Abanando a cabeça a dizer que sim, reforcei a ideia. “A verdade é que hoje os pais estão demasiado enredados num mundo de ecrãs, que muitas vezes substituem as conversas… estamos tão dependentes da internet que não há nenhum sítio onde consigamos estar só conectados com os nossos ou com nós próprios. Hoje, se Jesus voltasse a nascer, de certeza que nasceria numa maternidade particular com wi-fi.” Maria riu-se, com um riso leve. “Ele continuaria a escolher os lugares simples. Talvez uma periferia esquecida. Ou uma casa onde ninguém tem tempo, mas toda a gente tem sede de sentido para a vida.”

Ficámos em silêncio por um instante, mas logo arrisquei outro tema. “Maria… e as mulheres? Como vês a mulher de hoje?” Ela ergueu o olhar, com um ar atento. “Vejo mulheres cansadas, fortes, sobrecarregadas, brilhantes. Vejo mulheres que conseguem ser tudo num só dia: mãe, profissional, cuidadora, lutadora, sobrevivente. No meu tempo, muitas eram silenciadas. Hoje falam, mas ainda nem sempre são ouvidas”. Triste, acrescentei “Ainda apedrejam mulheres, Maria. Não apenas com pedras, mas com palavras, violência doméstica, dependência, medo. Tantas continuam presas em relações destrutivas…” O sorriso de Maria desapareceu por um momento. “Sim, eu sei… A violência muda de forma, mas nasce da mesma raiz: a ilusão de poder sobre o outro. No meu tempo, a mulher era julgada na praça pública. Hoje muitas são julgadas dentro de casa, atrás de portas fechadas. O sofrimento escondido é, por vezes, o mais pesado.”

“E o que dirias a uma mulher que sofre em silêncio?” Maria pousou a mão sobre a minha. “Que não foi criada para o medo. Que não nasceu para a humilhação. Que não precisa de pedir licença para existir. E que Deus nunca se confunde com a violência.” Engoli em seco. “Sabes, às vezes parece que às mulheres é sempre pedido para aguentar mais um pouco. Ter paciência. Perdoar de novo.” Ela inclinou ligeiramente a cabeça. “A paciência não é obrigação para suportar o injusto. O perdão não é sinónimo de permanecer onde se morre por dentro. Até eu, que aceitei tanto em silêncio, tive momentos de fuga, no Egipto, por exemplo. Fugi para proteger o meu filho. As mães sabem quando é tempo de resistir e quando é tempo de partir” respondeu, com um leve brilho nos olhos.

“A verdade, Maria, é que quando Jesus voltar vai ter tanto trabalho que terá que arranjar um jato para poder acudir a todos os que necessitam do seu amparo…” Ela riu-se e respondeu rápido, “Ou talvez apenas de boas sandálias. Continuaria a caminhar entre os pobres, os esquecidos, as mulheres feridas, as crianças sem voz. Não mudaria muito o itinerário.”

“E Tu, Maria… que me dizes deste mundo tão acelerado, com redes sociais, opiniões rápidas, julgamentos instantâneos?”, perguntei. “Eu aprendi a guardar coisas no silêncio do coração”, respondeu. “O barulho nunca foi o lugar onde Deus falou comigo. Talvez por isso hoje tantos tenham dificuldade em escutá-Lo: vivem com demasiado ruído por dentro.”

Ficámos mais um momento em silêncio. O vento moveu as folhas das árvores. “Se pudesses deixar uma mensagem ao mundo de hoje, qual seria?”, perguntei. Maria pensou por um segundo e respondeu: “Que olhem mais devagar para as crianças. Que protejam mais as mulheres. Que tenham menos certezas e mais compaixão. E que não transformem a fé numa arma.”

Levantei-me devagar. “Obrigada, Maria. Pela conversa… e pela coragem de seres Mãe num mundo difícil, em todos os tempos.” Ela sorriu outra vez. “As mães nunca escolhem tempos fáceis. Apenas escolhem amar.”

Quando me virei, no banco estava apenas um raio de sol morno, desses que aquecem sem queimar.

Madalena Balça/MS

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button

 

O Facebook/Instagram bloqueou os orgão de comunicação social no Canadá.

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER