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Trabalhar para pagar a creche: quando a conta não fecha

A pandemia de Covid-19 serviu para jogar luz num problema que quem tem filhos no Canadá conhece há muito tempo: a falta de creches a preços acessíveis no país. O assunto já vinha sendo debatido há anos por diferentes governos, mas os contornos provocados pela crise econômica, que ampliou o desemprego, especialmente entre as mulheres e mães, como apontam diferentes pesquisas, tornou esse assunto ainda mais urgente. Na divulgação do Orçamento Federal de 2021, realizada pela ministra das Finanças, Chrystia Freeland, no dia 19 de abril, ela afirmou: “A Covid-19 expôs brutalmente algo que as mulheres já sabem há muito tempo: sem creches, os pais – geralmente as mães – não podem trabalhar”, citando também que a participação das mulheres na força de trabalho no país havia caído para seu nível mais baixo em mais de duas décadas. Cumprindo com as expectativas o destaque da apresentação do orçamento foi justamente o anúncio da criação desse tão discutido plano nacional de creches acessíveis no qual Otava pretende investir até $ 30 bilhões de dólares nos próximos cinco anos e assim reduzir os valores das creches pela metade nos próximos 18 meses e alcançar o preço de $10 por dia por cada criança matriculada até 2026. 

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Credit: Facebook/Justin Trudeau.

Durante o anúncio a ministra foi categórica: “Eu faço esta promessa aos canadenses hoje, falando como ministra das Finanças e como uma mãe que trabalha – nós o faremos”. Entusiasmo à parte, o projeto, para sair do terreno das promessas e virar realidade, precisa da participação efetiva das províncias e territórios, responsáveis pelo setor de creches. Uma negociação mais complexa, que envolve questões financeiras e políticas, e que será ponto crucial para tornar o projeto viável. 

Essa semana o Milénio Stadium se propôs a abordar essa questão, tendo em vista o que foi anunciado pelo governo federal, a posição da província de Ontário até o momento, e mostrar também o ponto de vista daqueles que seriam os principais beneficiados: os pais de crianças ou melhor dizendo, em especial as mães, que acabam sendo as mais sobrecarregadas e que frequentemente pausam, ou desistem, das carreiras profissionais para se dedicar aos filhos. Dados recentes do Statistics Canada apontam que atualmente mais de 16 mil mulheres canadenses saíram do mercado de trabalho enquanto 91 mil homens entraram. No Canadá, os efeitos da pandemia deixaram mais de 200 mil mulheres sem emprego, segundo um estudo do RBC divulgado no primeiro trimestre deste ano. 

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Rafaela e Valentina. Crédito: DR.

Rafaela Pelegrini, de 30 anos, depois de ter sido dispensada do cargo que ocupava em uma start-up, em Toronto, foi forçada a rever os planos profissionais. Decidiu voltar a estudar, dessa vez na área da tecnologia da informação, onde acredita terá um mercado mais promissor e que possibilite com que trabalhe a partir de casa, e possa assim conciliar o trabalho com os cuidados com a filha Valentina de três anos. Para que a mãe se dedique aos estudos a menina fica aos cuidados de uma babá. “Logo depois do término da minha licença-maternidade eu já optei por deixar minha filha com uma senhora na qual tenho confiança absoluta. Pagar um daycare não estava dentro do orçamento da nossa família, mas eu deixar de trabalhar também não, por isso, e por querer esse cuidado mais específico, optei pela babá”. Os valores das creches foram o principal motivo para a escolha: “Seria basicamente eu trabalhar para pagar o daycare, os preços são muito altos, não é fácil, é como se fosse um segundo aluguel”, aponta ela. Além do preço, Rafaela fala que a realidade para as mães que voltam ao mercado é cruel: “Muitas vezes são os próprios empregadores que pensam duas vezes antes de contratar mulheres porque eles sabem que fatalmente se qualquer coisa acontecer com a criança, qualquer problema, é a mãe que será impactada”. Somado a isso tem o fato da educação pública canadense, na opinião dela, não dar esse apoio às mães: “A mulher é um pouco anulada nesse quesito profissional, as necessidades da mãe de voltar para vida profissional são ignoradas, não existe um estímulo, uma ajuda do governo, já que os horários são reduzidos, os preços elevados, etc., o sistema não está preparado para suprir nossas necessidades, geralmente o pai vai trabalhar de qualquer jeito, em especial quando o salário dele é mais alto, então essa responsabilidade dos filhos fica com a mulher”. 

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Ana e Stella. Crédito: DR.

Quem também compartilha desse sentimento é outra imigrante brasileira em Toronto, Ana Colerato, de 37 anos, tecnóloga em logística. Há dois anos e meio ela exerce de maneira integral o papel de mãe. Depois do nascimento da filha, Stella, ela se viu num dilema parecido ao que muitas mulheres expatriadas e que têm filhos enfrentam: voltar ou não a trabalhar fora de casa. “Eu cheguei a cogitar voltar a trabalhar, mas era simples, depois de fazer os cálculos, a conta não fechava. O que eu ganhava por mês daria apenas para pagar a creche, então não compensaria financeiramente. Fora que como somos apenas eu, meu marido e minha filha, não tenho a quem recorrer para pedir ajuda, no caso minha mãe, ou sogra, algum familiar. Sem rede de apoio fica difícil.” Ela conta que apesar da satisfação de poder desfrutar de perto de todas as etapas de desenvolvimento da filha, sente falta da rotina como profissional e se vê em desvantagem num possível regresso: “Depois desses mais de dois anos sendo mãe em tempo integral, agora parece que meu lado profissional despertou e sinto a necessidade de voltar à ativa”. Ela sabe, no entanto, que retornar não será fácil: “Aqui no Canadá com quatro anos a minha filha terá acesso a escola pública, mas quando você pensa em todo esse tempo afastada da sua carreira profissional, complica bastante. O empregador vai te perguntar: então o que você andou fazendo nesse período? E eu vou responder: Ah cuidei da minha filha, é bem complicado…mulher nesse aspecto é mais prejudicada”, complementa. 

Histórias assim, ou parecidas, são muito comuns em todo o país, e especialmente em grandes centros urbanos como Toronto, onde o custo do ensino infantil é o mais caro do Canadá e onde encontrar vagas não é tarefa fácil. De acordo com levantamento do “Canadian Centre for Policy Alternatives”, neste ano os custos mensais de uma creche em Toronto são em média de $1,578,00, enquanto os pais no Quebec precisam desembolsar um valor bem menor: $181,00. 

São justamente profissionais e mulheres como Rafaela e Ana, que o governo federal pretende ajudar a recolocar, ou ingressar, no mercado de trabalho, com o plano nacional de creches públicas, que se baseia no modelo que já existe há mais de duas décadas na província do Quebec. Por lá os resultados são animadores. Segundo os dados oficiais, em 1997, quando esse sistema de creches a preços acessíveis foi introduzido naquela província, a taxa de participação das mulheres na força de trabalho estava quatro pontos percentuais abaixo do resto do país. Atualmente, o Quebec está 4% acima da média nacional. A província também tem as taxas mundiais mais altas de mulheres com filhos menores de três anos e que estão empregadas. E essa maior participação se reverte em lucros para os cofres públicos: desde então o PIB (Produto Interno Bruto) do QB cresceu 1,7%. Além disso, o TD Economics apontou para uma série de estudos que mostraram que para cada dólar gasto na educação infantil, a economia em geral recebe entre $ 1,50 e $ 2,80 em troca. Otava prevê que se os índices alcançados em todo o Canadá forem parecidos com os do Quebec, 240 mil mulheres serão reinseridas no mercado de trabalho, o que representa um aumento de 1,2% do PIB per capita do país.  

O ministro das Famílias, Crianças e Desenvolvimento Social, Ahmed Hussen, numa entrevista a Manuel DaCosta no programa “Here’s the Thing”, da Camões TV, destacou os benefícios econômicos desse plano universal de creches: “Em primeiro lugar, teremos centenas de milhares de mulheres voltando ao mercado de trabalho. Isso aumenta o PIB e a produtividade, baixa os custos com serviços sociais, contribui com a arrecadação de impostos pelas províncias, territórios e governo federal, e conduz para o fim da diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Além de ajudar as indústrias canadenses, já que muitas precisam buscar mão de obra estrangeira para o quadro de funcionários”. E complementou: “O acesso às creches não é mais um luxo, é uma necessidade”. 

Em relação a negociação que terá que ser feita com as províncias e territórios, para viabilizar esse plano nacional de creches acessíveis, Hussen diz que como as discussões ainda não começaram não quer fazer pré-julgamentos, mas acredita que a importância desse projeto, e o suporte financeiro que Otava está disponibilizando a longo prazo, farão com que as províncias abracem a ideia: “Existem razões pelo quais estou mais confiante que dessa vez o plano de creches acessíveis dará certo: primeira, a pandemia. Segundo e porque o Governo do Canadá através da apresentação desse Orçamento, mostrou que estamos aqui para o longo-prazo. Serão investidos 30 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. Quando esse período acabar, e alcançarmos a meta de cobrar $10 por dia de creche, nós vamos continuar o investimento de $ 9.2 bilhões por ano, permanentemente. Isso dá a segurança para as províncias e territórios de que estamos aqui para apoiá-los a longo prazo”.  

Em comunicado enviado à nossa reportagem o gabinete de imprensa da ministra das Finanças, Chrystia Freeland, destacou que o avanço desse plano depende da disposição e interesse das províncias e territórios em iniciar as negociações e pôr o projeto em prática. Freeland sublinha que o governo busca “parceiros dispostos” e que está disponível a escutar quais são as necessidades específicas de cada região. O comunicado refere ainda que: “Nós colocamos dinheiro na mesa. Acho que os canadenses estão prontos para isso e a boa notícia para as províncias e territórios, tanto quanto para o governo federal, é que essa é uma política que fará a nossa economia crescer”. Otava está confiante no plano nacional de creches acessíveis: “Acreditamos que quando este plano estiver em vigor, terá os resultados mais robustos e de impacto a longo-prazo no setor econômico do Canadá desde o acordo comercial do NAFTA”, conclui a ministra. 

Nossa reportagem também entrou em contato com o gabinete do ministro da Educação de Ontário, Stephen Lecce, que num comunicado esclareceu que a província estuda com cuidado os detalhes desse plano nacional apresentado por Otava mas afirmou que um modelo único não reflete a diversidade que as famílias precisam, portanto qualquer acordo firmado entre as partes precisa ser flexível. Nessa mesma nota de imprensa, questionado sobre o andamento das negociações com Otava, Lecce diz que: “Ontário está na expectativa para debater com o governo federal como esse plano nacional de creches pode vir a ajudar as famílias a terem mais opções de escolha e creches a preços mais acessíveis”. Além disso a província recordou que no último orçamento assegurou a criação de 30 mil novas vagas no setor de creches e introduziu o programa “Child Care Tax Credit” que disponibiliza $1500 por família. E Lecce informou ainda que até esse ano a contribuição do governo federal para esse programa foi só de 2,5%. 

Toronto ainda não foi contatada pela província de Ontário depois do anúncio do governo federal. Num comunicado de imprensa enviado à nossa redação a autarquia refere que o programa “Toronto’s Child Care Growth Strategy”, lançado em 2017, busca num prazo de 10 anos aumentar em 30 mil as vagas disponíveis em daycares, reduzir o preço e apoiar os trabalhadores desse setor. A cidade informa também que apesar de não ter sido contactada pela província, os planos do governo federal estão alinhados com a estratégia do município. 

Enquanto as autoridades federais e provincias se preparam para discutir o plano, as principais afetadas, as milhares de mães que convivem com as dificuldades trazidas pelos altos preços das creches, esperam…e se dizem animadas. Para elas, o anúncio traz uma espécie de alívio, um sentimento de que finalmente estão sendo vistas e ouvidas pelos governos e de alguma forma podem ser beneficiadas. “Tenho certeza de que se os preços das instituições de ensino infantil fossem mais baixos, mais realistas, muitas mulheres iriam regressar, ou até entrar, no mercado de trabalho. Muitas amigas minhas, vizinhas, a gente vê que essas mulheres passam pela mesma dificuldade. Isso teria um impacto real na nossa vida profissional”, acredita Rafaela. 

Lizandra Ongaratto/MS

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