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Tivoli Billiards – a primeira paragem para muitos portugueses que emigravam para Toronto

Muitas foram os imigrantes que se foram fixando no Kensington Market quando chegaram a Toronto. Na década de 60 muitos portugueses vinham para o Canadá com um simples contacto de uma empresa portuguesa localizada neste bairro – os Tivoli Billiards. A partir daí conseguiam encontrar um quarto para dormir e um trabalho para recomeçar a vida num outro país.

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Créditos: Gilberto Prioste

O Milénio Stadium entrevistou esta semana Manuel Fernando Fernandes, filho de um dos sócios fundadores do Tivoli Billiards, Alfredo Fernandes.  O espaço que abriu em 1964 no 268 de Augusta Street funcionava como uma espécie de clube. “Segundo o que o meu pai me disse, quando abrimos a casa estava cheia e eram apenas homens que estavam cá sozinhos e que tinham as esposas em Portugal. O meu pai abriu o Tivoli Billiards com o sócio José Rodrigues Valente. As pessoas podiam tomar café, comer snacks e jogar bilhar e matraquilhos. Lembro-me que tínhamos 15 mesas de bilhar e quase todas as semanas chegavam pessoas de Portugal”, contou.

Como não sabiam falar inglês as pessoas mostravam a morada aos taxistas e acabavam por chegar ao Kensington Market. “O Alfredo e o Valente arranjavam quartos e empregos. Perguntavam às pessoas qual era a sua experiência profissional em Portugal e de que área é que vinham e tentavam encontrar alguém da mesma área e um trabalho parecido com o que já tinham experiência. Assim as pessoas sentiam-se mais confortáveis e a adaptação era mais fácil”, informou.

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Alfredo Fernandes no Tivoli Billiards. Créditos: Fernando Fernandes

Fernando não consegue contabilizar o número de vidas que os Tivoli Billiards mudaram, mas diz que ainda hoje se cruza com algumas dessas pessoas. “Lembro-me que quando íamos a Portugal e o meu pai ainda era vivo demorávamos muito tempo para conseguir visitar a família no conselho Vila Nova de Cerveira, distrito de Viana do Castelo. O meu pai conhecia toda a gente e todos os seus amigos acabavam por querer passar algum tempo com ele quando ele visitava o país. Todos diziam que ele era um homem bom e muito honesto. Eles ajudaram muita gente, dezenas de pessoas de certeza, talvez centenas. Num domingo chuvoso chegávamos a ter 200 homens no nosso hall a jogar bilhar e a passar o tempo. Hoje ainda me encontro com alguns quando vamos a um restaurante”, referiu.

A casa de bilhar acabou por encerrar em 1997 porque os portugueses foram abandonando a área. “Naquele tempo fazíamos todas as compras na Augusta: mercearia, mobília, roupa, padaria, etc. Os portugueses depois começaram a ir para Mississauga, Oakville, King City, Maple, Caledon, Cambridge, Newmarket, Woodbridge, Barrie, Bradford, Orangeville, etc. e a comunidade ficou muito dispersa. Eles abriram a casa porque portugueses precisavam de um espaço para se reunir e socializar uns com os outros, mas quando a comunidade saiu de Toronto já não fazia sentido continuar com as portas abertas. Já em meados dos anos 80 tínhamos muitos clientes canadianos”, explicou.

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Créditos: Avard Woolaver Photography’s

Fernando acredita que o Tivoli Billiards teve um papel muito importante na comunidade portuguesa, em parte devido às dificuldades que o pai sentiu na pele. “O meu pai falava pouco inglês e quando ele emigrou em 1955 teve a ajuda de uma família inglesa. Ele comprava um jornal de Portugal para ter acesso a notícias. Não sei se talvez por este motivo ele gostasse de ajudar os outros quando saiam do seu país e da sua área de conforto para procurar uma vida melhor”, disse.

Fernando olha para trás com alguma nostalgia. “Agora é raro visitar a Augusta, vamos ao Tom’s Place e pouco mais. Já há menos empresas portuguesas. Tenho saudades de trabalhar com o meu pai, gostava de jogar bilhar e gostava daquele ambiente. Mas sinto falta do tempo que passava com o meu pai, ele deixava-me conduzir (risos). Fechávamos à meio noite e era duro ter de acordar cedo no dia a seguir, mas as recordações são muito boas”, recordou.

Segundo a Canadian Encyclopedia, depois dos judeus, os portugueses foram o segundo maior grupo de imigrantes a se fixar no Kensington Market. Embora os portugueses emigrassem para o Canadá antes da Confederação, foi a partir de 1953 que os governos canadiano e português assinaram um acordo de migração laboral e a emigração em massa começou.

Joana Leal/MS

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