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Tenho medo de ter medo

Tenho medo de ter medo. Depois de muito refletir cheguei a esta conclusão que, convenhamos, parece ser muito básica e resumir-se a um, pouco imaginativo, jogo de palavras. Mas deixem-me que vos diga assim de uma forma muito direta e objetiva: este é de facto o meu maior medo, assim resumido numa frase que saiu do mais profundo do meu ser. 

Para que me entendam melhor, tenho que começar por vos dizer que sou medrosa por natureza. Não contem comigo para andar em montanhas-russas, nem em carroceis que fazem as delícias das crianças, mas para mim são apenas máquinas geradoras de falta de ar e palpitações, nem pensar em escalar ou caminhar em locais íngremes e adornados com assustadores precipícios, não aprecio a beleza que tantos conseguem descortinar nas trovoadas… poderia continuar a lista, mas penso que já dá para perceberem como o medo está entranhado em mim. Ao longo da vida superei uns quantos, é verdade… senti-me a pessoa mais corajosa Tenho medo de ter medo-cover-mileniostadiumdo mundo quando deixei de dormir com a luz acesa (já adolescente…), ou quando comecei a aventurar-me pela casa, durante a noite, às escuras, ou quando conto, orgulhosa, que deixei de ter medo de andar de avião e agora adormeço com aquele “bicho”, antes assustador, ainda de rodas na pista e acordo quando percebo que a viagem terminou. Mas continuo a ter medo e com a idade a avançar (meu Deus, como é estranho escrever isto…) sinto uma transformação importante na sua essência. 

Deixei de ter medo da minha morte, por exemplo. Quando era bem mais nova lembro-me de achar aterradora a ideia de morrer, agora o que me dá medo é pensar na morte dos que quero ter sempre a meu lado, até ao fim dos meus dias. Não temo o meu amanhã, mas assusto-me com a eventualidade de o futuro dos meus os obrigar a passar por dor (não apenas física) e sofrimento. E tudo isto se relaciona afinal com o tal meu medo mais profundo que anunciei logo no início deste “pensar alto” que é o meu texto desta semana – tenho medo de ter medo. Porque o medo do que possa acontecer aos meus passou a ter uma dimensão gigante e muitas vezes se torna quase doentia. Daí dizer-vos que o facto de ter medo, me dá medo. Medo de não ter o discernimento necessário para analisar as situações, de agigantar o que afinal não tem assim tanta importância, de não apreciar devidamente o que tenho e, acima de tudo, de lhes transmitir o meu medo.

Saindo da esfera pessoal, tenho medo do medo que os Senhores que dominam o mundo provocam, com as ameaças mais ou menos veladas que transmitem diariamente. O medo é uma das suas armas mais poderosas, eu sei. Usam-no precisamente para garantir que o poder não lhes escapa, para garantir que o medo dos dominados lhes permite fazer perdurar no tempo o seu domínio. Mesmo tendo consciência disto, não consigo deixar de ter medo do medo que eles geram com a sua louca ambição de poder. Só de pensar que na ponta daqueles dedos de mentes loucas está a possibilidade de acionar uma guerra nuclear… como não ter medo? Por outro lado, como não ter medo, do medo que as pandemias provocam? Como não temer o poder incontrolável e destrutivo das catástrofes naturais que todos temos medo que se tornem cada vez mais frequentes? Poderão dizer-me que estou a sentir medo do desconhecido, do que ainda não aconteceu, reconheço que sim. É isso, mas a história mais antiga e a mais recente mostram como tudo isto pode efetivamente acontecer. O medo que nos provocam deve ser mesmo tomado em conta e é por isso normal que sintamos medo do medo construído ou pensado, tanto quanto de tudo o que ninguém pode controlar.

E o medo que sinto do medo que me provocam, não o sinto por mim, mas pelo que possa significar na vida dos meus.

Madalena Balça/MS

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