TCDSB justifica decisão e aponta alternativas

A decisão do Toronto Catholic District School Board (TCDSB) de terminar, a partir de setembro de 2026, o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais no horário letivo regular continua a gerar forte debate entre famílias, professores e comunidades culturais — com particular destaque para a comunidade portuguesa, uma das mais diretamente afetadas.
Após várias críticas e preocupações levantadas, o TCDSB respondeu oficialmente às questões colocadas pelo Milénio Stadium, esclarecendo os motivos da decisão e apresentando as alternativas previstas para o futuro.
Uma decisão justificada pela “prioridade às competências essenciais”
No centro da decisão está uma reconfiguração das prioridades educativas, nomeadamente o reforço das chamadas competências essenciais (inglês, matemática etc…) e o cumprimento das diretrizes impostas pelo Ministério da Educação de Ontário.
Na sua declaração oficial, o TCDSB sublinha esse compromisso: “O Toronto Catholic District School Board está comprometido em garantir que cada aluno desenvolva uma base académica sólida necessária para o sucesso a longo prazo, ao mesmo tempo que celebra as ricas culturas, tradições e línguas que fazem parte das nossas comunidades escolares, incluindo as vibrantes contribuições das famílias de língua portuguesa.”
A administração escolar procura, assim, equilibrar dois objetivos: garantir uma base académica sólida e, ao mesmo tempo, reconhecer a diversidade cultural presente nas escolas. No entanto, a necessidade de cumprir os 300 minutos diários obrigatórios de ensino foi determinante na decisão de retirar o programa do horário regular.
“Para apoiar o desenvolvimento das competências essenciais e em conformidade com os requisitos do Ministério da Educação de 300 minutos diários de instrução, o programa integrado de Línguas Internacionais no ensino elementar deixará de fazer parte do horário escolar a partir de setembro de 2026.”
Esta mudança marca o fim de um modelo que, durante décadas, permitiu a milhares de alunos aprenderem línguas como o português, italiano, espanhol ou mandarim dentro do horário escolar.
Apesar da eliminação do ensino integrado, o TCDSB garante que o acesso à aprendizagem de línguas será mantido, ainda que num formato diferente.
“Os alunos continuarão a ter acesso à aprendizagem de línguas através do já estabelecido Programa de Línguas Internacionais ao Sábado, onde poderão enriquecer as suas competências linguísticas e aprofundar a sua compreensão cultural.”
O modelo passará, assim, a ser extracurricular, baseado em aulas ao sábado. Segundo o conselho escolar, esta abordagem está alinhada com o que acontece noutros conselhos escolares da província. “Isto permite que as famílias decidam se o seu filho participa ou não e qual a língua que vai estudar, em linha com a forma como os programas de Línguas Internacionais são implementados pelos conselhos escolares em toda a província.”
No entanto, esta mudança levanta questões importantes. Ao passar para um modelo opcional e fora do horário escolar, o acesso ao programa poderá tornar-se mais desigual, dependendo da disponibilidade de tempo, transporte e recursos das famílias.
O TCDSB afirma estar a preparar um processo de consulta para compreender melhor as necessidades das famílias afetadas. “As famílias com crianças atualmente inscritas no programa diurno do ensino elementar receberão um inquérito para indicar o seu interesse na programação de sábado para o ano letivo de 2026–2027.” Este inquérito permitirá recolher informações sobre preferências linguísticas, localização e nível de interesse, com o objetivo de orientar futuras decisões. “As famílias poderão utilizar este inquérito para indicar a língua preferida, a localização e o nível de interesse, o que irá orientar o planeamento futuro, incluindo uma eventual expansão para mais turmas, línguas e locais.”
No caso específico da língua portuguesa, o conselho destaca que já existe uma oferta significativa no programa de sábado: “Temos orgulho em oferecer atualmente mais de meia dúzia de turmas de língua portuguesa através do nosso consolidado programa de sábado.”
Ainda assim, permanece a dúvida sobre se esta oferta será suficiente para responder à procura atual, sobretudo tendo em conta que cerca de 19 mil alunos participavam no programa integrado.
Parceria com o Instituto Camões como complemento
Outro elemento referido pelo TCDSB é a colaboração com o Instituto Camões, entidade responsável pela promoção da língua e cultura portuguesas no estrangeiro. “O Conselho também apoia a aprendizagem da língua portuguesa através da sua parceria com o Instituto Camões, que fornece recursos tanto para alunos como para educadores do ensino elementar e secundário.”
Esta parceria poderá desempenhar um papel importante no futuro, sobretudo na disponibilização de materiais pedagógicos e apoio a professores. No entanto, não substitui diretamente o ensino integrado que existia até agora.
Apesar das justificações apresentadas, a decisão continua a gerar contestação. Muitos pais e representantes comunitários consideram que o ensino integrado era uma ferramenta essencial para garantir igualdade de acesso à aprendizagem de línguas de herança.
Para a comunidade portuguesa, em particular, este programa desempenhava um papel fundamental na transmissão da língua às novas gerações, muitas vezes nascidas já no Canadá. A sua eliminação do horário regular é vista como um enfraquecimento dessa ligação cultural.
Também os sindicatos têm alertado para as consequências da medida, não apenas ao nível pedagógico, mas também laboral. A perda de dezenas de postos de trabalho entre professores especializados é apontada como um impacto direto e significativo.
A decisão do TCDSB reflete um dilema mais amplo que atravessa os sistemas educativos contemporâneos: como conciliar a necessidade de reforçar competências fundamentais com a importância de promover uma educação inclusiva e culturalmente relevante.
Se, por um lado, o foco na literacia e numeracia responde a exigências académicas e políticas, por outro, a retirada de programas como o de Línguas Internacionais levanta questões sobre o tipo de escola que se pretende construir.
O modelo de sábado, embora mantenha formalmente o acesso às línguas, altera profundamente a lógica do programa. De uma oferta universal e integrada, passa-se para uma opção extracurricular, dependente da iniciativa e capacidade das famílias.
O futuro ainda em aberto
Com a implementação prevista apenas para setembro de 2026, há ainda margem para debate e eventual ajustamento da decisão. A consulta às famílias poderá revelar níveis de procura que obriguem o conselho escolar a rever ou expandir a oferta prevista.
Para já, o TCDSB mantém a sua posição: a mudança é necessária para cumprir exigências curriculares e garantir o sucesso académico dos alunos, sem abandonar totalmente a promoção da diversidade linguística.
Resta saber se este novo modelo conseguirá responder às expectativas das comunidades ou se marcará o início de um afastamento progressivo de uma das iniciativas mais emblemáticas da educação multicultural em Toronto.
Madalena Balça/MS







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