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Quando o cuidado tem género: O peso invisível das mulheres

Créditos: MDC Media Group

Num momento em que o envelhecimento da população avança ao mesmo ritmo que se adiam projetos de vida, há uma geração que se encontra, cada vez mais, no centro de uma equação exigente e silenciosa. São homens e, sobretudo, mulheres na casa dos 50 e 60 anos que continuam a apoiar os filhos, muitas vezes ainda dependentes, numa fase em que a autonomia financeira chega mais tarde, e ao mesmo tempo assumem um papel crescente no cuidado de pais idosos. Entre duas gerações, vivem numa constante gestão de tempo, recursos e emoções. É a esta realidade que a sociologia contemporânea chama de “geração sanduíche”.

Mais do que um conceito académico, trata-se de uma vivência concreta, moldada por transformações profundas na estrutura social. As famílias mudaram, os percursos de vida alteraram-se, o custo de vida aumentou e a esperança média de vida prolongou-se. As mulheres, em particular, passaram a integrar de forma massiva o mercado de trabalho, sem que, na mesma proporção, tenham sido redistribuídas as responsabilidades do cuidado dentro das famílias. O resultado é uma sobrecarga acumulada, muitas vezes invisível, mas com consequências reais na estabilidade financeira, na progressão profissional e no bem-estar emocional.

É neste contexto que ouvimos Susan Prentice, Duff Roblin Professor of Government e docente no Departamento de Sociologia da Universidade de Manitoba. Com um percurso académico dedicado ao estudo das políticas sociais, das desigualdades e das dinâmicas familiares, Susan Prentice ajuda-nos a compreender as raízes estruturais deste fenómeno e os seus impactos concretos na vida de milhares de canadianos.

Apesar de muitas mudanças nos papéis de género ao longo das últimas décadas, ainda existem suposições generalizadas de que as esposas e filhas devem prestar cuidados aos membros da família. Embora muitas mulheres queiram prestar esses cuidados, o facto de tantas estarem inseridas no mercado de trabalho remunerado e estarem a conciliar o apoio a múltiplas gerações pode ser profundamente desafiante.

Nesta entrevista, a socióloga desmonta a ideia de que este é apenas um desafio individual ou familiar, sublinhando antes o peso das escolhas políticas e das lacunas nos sistemas de apoio social. Desde o acesso a cuidados infantis até à ausência de respostas robustas para o envelhecimento da população, são vários os fatores que empurram o cuidado para dentro de casa e, frequentemente, para os ombros das mulheres.

Ao longo das próximas respostas, emerge uma leitura clara: a “geração sanduíche” não é apenas o reflexo de mudanças demográficas, mas também o resultado de um modelo social que ainda não conseguiu acompanhar essas mesmas mudanças. Entre responsabilidades cruzadas, expectativas culturais e limitações económicas, esta geração vai encontrando formas de resistir, mas nem sempre sem custo.

Perceber quem são, como vivem e o que enfrentam é essencial para pensar o presente… e, sobretudo, para antecipar o futuro.

Milénio Stadium: Na sua opinião, que mudanças estruturais ou sociais contribuíram para o surgimento da chamada “geração sanduíche” no Canadá?

Susan Prentice. DR.

Susan Prentice: As mulheres estão a ter menos filhos do que anteriormente e, em média, são mais velhas quando os têm. Assim, os seus anos de cuidado de crianças mais novas e de assistência a pais e sogros idosos estão mais próximos do que nunca. É a isto que chamamos a “geração sanduíche”.

MS: De que forma é que esta dupla responsabilidade — apoiar simultaneamente os filhos e os pais idosos — afeta a mobilidade social e a estabilidade financeira entre adultos na casa dos 50 e 60 anos?

SP: Quando os serviços públicos são caros, inexistentes, de má qualidade ou não são culturalmente sensíveis, o cuidado familiar torna-se a opção por defeito. Apesar de muitas mudanças nos papéis de género ao longo das últimas décadas, ainda existem suposições generalizadas de que as esposas e filhas devem prestar cuidados aos membros da família. Embora muitas mulheres queiram prestar esses cuidados, o facto de tantas estarem inseridas no mercado de trabalho remunerado e estarem a conciliar o apoio a múltiplas gerações pode ser profundamente desafiante. A razão número um pela qual muito mais mulheres do que homens trabalham a tempo parcial (e não a tempo inteiro) é para acomodar as necessidades familiares. Isto significa que os rendimentos das mulheres são mais baixos, tanto durante os anos de trabalho como na reforma. Ao seguirmos este fio condutor, torna-se claro que a prestação de cuidados é um dos elos diretos para a situação económica reduzida das mulheres quando comparada com a dos homens. As mulheres pagam um preço elevado ao longo de toda a vida quando a prestação de cuidados não é partilhada e apoiada de forma equitativa.

MS: Até que ponto este fenómeno é influenciado pelos custos da habitação, pela maior esperança de vida e pela independência financeira tardia das gerações mais jovens?

SP:  O custo de vida é elevado e a maioria dos agregados familiares com filhos quer e precisa de maximizar os salários. De uma perspetiva económica, as mulheres precisam de trabalhar para suportar as despesas domésticas. Felizmente, em todo o Canadá, o custo das propinas das creches baixou recentemente ao abrigo do novo plano nacional de cuidados infantis — mas as creches custam frequentemente mais de 10 dólares por dia e, muitas vezes, não estão disponíveis quando e onde os pais precisam.

MS: Existem diferenças notáveis na forma como este fardo é vivido entre as diferentes comunidades culturais, incluindo as populações imigrantes?

SP: Os agregados familiares multigeracionais são mais comuns entre as famílias recém-chegadas e contribuem muito para criar suportes sociais (bem como tensões) no quotidiano.

MS: Que políticas públicas ou apoios sociais acredita serem mais urgentemente necessários para melhor apoiar esta geração?

SP:  O Canadá deu passos para apoiar os pais com o cuidado das crianças pequenas, mas o plano nacional de cuidados infantis ainda está numa fase inicial. Ter acesso a mais creches de alta qualidade e baixo custo ajudaria imenso os adultos, especialmente as mães, que estão a sofrer as pressões da geração sanduíche. Precisamos de melhorar e expandir os serviços de cuidados infantis em todo o país. Também precisamos de ambições semelhantes para construir serviços de apoio ao idoso fortes e eficazes para servir a nossa população envelhecida e para aliviar o fardo sobre as famílias. 

MB/MS

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