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“Quando abraçamos a capa da mulher maravilha(…) e não a largamos para descansarmos, caminhamos para o esgotamento mental ou desgaste emocional” – Daniela Ramos

O assunto saúde mental se tornou debate no mundo todo recentemente, depois da ginasta Simone Belis ter desistido de participar de algumas provas das Olimpíadas de Tóquio, alegando não estar bem mentalmente. A exposição da fragilidade de uma atleta desse nível de excelência, que chegou a receber a denominação “GOAT: greatest of all time”, foi aplaudida por alguns, que destacaram a importância de alguém como ela trazer esse assunto à tona, e claro, criticada por outros que viram como uma justificativa para possíveis resultados não tão positivos. 

Esse é um caso muito específico e do cenário do esporte de alto nível, mas no dia a dia das mulheres comuns, digamos assim, também vemos o desgaste e estresse se acumulando sobre os ombros delas, que precisam se desdobrar nos papeis de mãe, profissional, dona de casa, esposa. O fato é que a pressão sobre elas parece só vir aumentando com o passar dos anos. É como se à medida que os direitos femininos avançaram, e com isso as possibilidades sociais se expandiram, também aumentou o nível de exigência das mulheres sobre elas mesmas e aquele imposto socialmente. A relação com os homens aliás, seja profissional ou pessoal, também sofreu fortes alterações ao longo do tempo e novas regras sociais foram impostas, o que ainda traz alguns conflitos e debates sobre qual seria o papel do homem diante dessa mulher “empoderada”.

Para esclarecer alguns pontos sobre esse tema complexo, a saúde mental da mulher na atualidade, com suas mil facetas sendo postas à prova, conversámos com a psicóloga Daniela Ramos, que faz uma análise sobre a atual situação da saúde mental feminina e numa alusão a personagem “Mulher Maravilha”, fala que a ideia de querer atingir esse patamar, de fato, só gera mais estresse e desgaste. O papel de super-heroína talvez sirva apenas para as histórias de revistas em quadrinho. Daniela é Master in Counselling and Psychology pela Yorkville University e atualmente e trabalha como Mental Health Clinician at the Peterborough Regional Health Centre além de atender em consultório particular.

Milénio Stadium: As mulheres vêm ganhando destaque e representatividade em vários setores da sociedade.  Seja no esporte, onde recentemente nos Jogos Olímpicos, foram as responsáveis pelo maior número de medalhas conquistadas pela equipe canadense- ganharam 18 de um total de 24- seja em outros setores como o profissional, onde atingem cada vez mais êxito e ocupam cargos de liderança antes destinados apenas aos homens. Diante desses fatos a pressão para que as mulheres tenham resultados positivos também parece ter aumentado. Como lidar com esse estresse e desgaste emocional provocado pelo excesso de expectativa, por exemplo?

Quando abraçamos a capa da mulher maravilha-cover-mileniostadium
Créditos: DR.

Daniela Ramos: Linda essa vitória mais feminina, não é? Acredito que a pressão para termos resultados positivos é uma consequência direta do aumento da nossa representatividade profissional, familiar e social. A expectativa é um fator que não vem separado da frustração. Por vezes esperamos mais do que a realidade nos apresenta e isso gera estresse.  A chave para balancear o estresse gerado nessa equação, na minha opinião, é saber (ou aprender) a equilibrar pressão e realidade.

A meu ver, ao mesmo tempo que as mulheres conquistaram novos patamares, se criou a expectativa de sermos mulheres maravilhas. E isso não compactua com a vida real. Vida real é que o dia tem apenas 24 horas, dentro disso dormimos (ou deveríamos dormir) uma média de 8 horas, trabalhamos por 8 horas e sobram outras 8 horas para administrarmos a casa, a família, e ainda cuidarmos de nós mesmos. Parece muito, não é? E a pergunta que sempre me faço é: por que achamos que não temos tempo para nada? Por que sentimos que estamos sempre correndo? Isso ocorre porque estamos vivemos na era do piloto automático, fazendo uma tarefa atrás da outra, sem pararmos para respirar ou nos perguntar se é isso que precisamos/queremos naquele momento. Prestamos pouco (ou nenhuma) atenção no que estamos fazendo, e facilmente nos rendemos a pressão do mundo.

Quando abraçamos a capa (da mulher maravilha – o que gera um sentimento bom de conquista) e não a largamos para descansarmos, caminhamos para o esgotamento mental ou desgaste emocional.

Assim, o antídoto para essa expectativa excessiva, para o desgaste emocional, é estarmos mais presente e trabalharmos na aceitação da realidade que está a frente de nós.

Com o desenvolvimento da sociedade moderna, nós desaprendemos a ouvir nosso corpo; nos desconectamos do nosso sexto sentido (gut feeling) e começamos a tratar tudo racionalmente tentando, por vezes, racionalizar nossos sentimentos. O problema é que isso não e sustentável. Cada vez que negligenciamos as necessidades do nosso corpo, seja para pararmos, descansarmos, nos conectarmos com outros etc., geramos estresse. A ideia aqui é fazermos o caminho contrário, é aprendermos a estará tentos aos sinais do nosso corpo e honrarmos o que ele está nos pedindo. Alimente-se bem, beba água, medite, caminhe, não trabalhe tanto, ache um significado para sua vida, e se cerque de pessoas que te faça bem e, mais importante, escute e honre seu ser interior.

MS: O caso de Simone Biles nas Olimpíadas, que desistiu de participar de algumas competições por alegar não estar bem “mentalmente”, trouxe à tona essa discussão da saúde mental. Como observa esse fato? Acha que ajudou a jogar luz no assunto?

DR: A Simone Biles decidiu SE respeitar. Eu só consigo imaginar a pressão física e psicológica que esses atletas enfrentam. Temos que lembrar que não somos duas entidades separadas: corpo e mente. E quando um não está bem, o outro também não está.

Acho que ela trouxe para a luz uma discussão extremamente importante sobre o que realmente vale a pena. Mais uma vez, podemos ver que o trabalhar até a exaustão não é um caminho saudável. E vale lembrar que o meu ponto de exaustão não é igual ao seu. Sempre falo para os meus pacientes, que eu não acredito nessa história do ‘céu ser o limite’. Até pode ser verdade, mas considerando que o meu céu é diferente do seu. Isso não significa que não devemos lutar e nos empenhar, mas a importância de sabermos e respeitarmos o NOSSO limite. E foi o que ela, bravamente, fez.

Não temos mais como ignorar o que está acontecendo no mundo com relação a doença mental. Segundo site do Center for Addiction and Mental Health (CAMH) canadense, até os 40 anos de vida um em cada dois canadenses têm ou tiveram alguma doença mental. Doença mental é líder de afastamento do trabalho no Canadá e em muitos outros países. Uma média de 4000 canadenses morrem por suicídio por ano e, apesar de 75% desse número serem homens, as mulheres tentam se suicidar quase quatro vezes mais. Sem citar os números de outros países, acredito que devam ser muito similares comparados ao que está acontecendo aqui. Isso é a realidade que vivemos. Já não cabe mais pensarmos nisso como uma frescura ou fraqueza. Se você não teve nenhuma doença mental até hoje, uma pessoa que você ama teve ou tem.

MS: Apesar de algumas dificuldades históricas que ainda persistem, são cada vez mais comuns as histórias de sucesso de mulheres, seja na área profissional ou esportiva. Esse destaque feminino se deve à maior persistência e resiliência da mulher, acostumada historicamente a lidar com situações mais adversas para ter seu valor reconhecido? Até que ponto esse ambiente pode afetar psicologicamente as mulheres e as impulsionar a melhores resultados?

DR: Sem dúvidas. Todo esse sucesso e destaque feminino é consequência de muita persistência e resiliência para se ter uma representatividade social e profissional. Podemos concordar aqui que, historicamente, sempre tivemos que batalhar para atingir posições mais conquistadas pelo universo masculino. A competitividade que os homens sempre enfrentaram, hoje é também dividido com mulheres. Não só no trabalho, mas como no ambiente familiar onde as tarefas são já são mais compartilhadas.

Por estarmos conquistando tantos novos postos pela nossa batalha e determinação, nosso psicológico acaba sendo afetado. Nunca tivemos índices tão altos de ansiedade, depressão e outras tantas doenças mentais. Mas isso está acontecendo tanto com mulheres quanto com homens, o que me faz pensar que a velocidade de todo esse desenvolvimento que vivemos, não está sendo acompanhada por um funcionamento saudável do nosso cérebro.

Achamos que se trabalharmos o máximo possível, sem pausas, é sinônimo de produtividade. E quando observamos a taxa de pessoas com ‘burnout’, fica evidente que isso não é verdade. O mundo pede para sermos workaholics/perfeccionistas, ganhamos reconhecimento por trabalharmos até nossa exaustão. Mas aí eu me pergunto, vale a pena? Acho que o reconhecimento nos impulsiona para termos melhores resultados, mas se não mantivermos um bom equilíbrio em nossas vidas, geramos um sofrimento que poderia ser evitado.

MS: Outro tema bastante recorrente atualmente são os casos de assédio envolvendo mulheres. Piadas de mau gosto, comportamentos inadequados de alguns homens, que durante anos foram classificados como “brincadeiras”, já não são mais tolerados. De que maneira as denúncias desses casos afetam o posicionamento do homem frente à mulher? Condiciona psicologicamente a algum tipo de comportamento? 

DR: O homem está mais atento, com uma postura diferente pois ele está sendo cobrado pela sociedade e, menos vezes do que gostaríamos de ver, judicialmente.  Acho que o homem começou a ter mais respeito pela figura feminina diante de tantas denúncias, já que não cabe mais na sociedade de hoje esse tipo de desrespeito. A meu ver isso é uma grande parte do que o universo humano (não só feminino) está conquistando. Respeito é bom para TODOS, assim podemos formar uma sociedade mais justa e coesa.Temos um longo caminho ainda, mas acredito estarmos indo na direção certa.

Referência: https://www.camh.ca/en/driving-change/the-crisis-is-real/mental-health-statistics

Lizandra Ongaratto/MS

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