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“Precisamos que o Canadá imponha sanções a Israel” – Michael Bueckert

 

A CJPME foi criada em 2002 por canadianos que queriam promover a justiça, a paz, a prosperidade e a segurança para todos os povos do Médio Oriente a “Canadians for Justice and Peace in the Middle East” procura fornecer recursos e acolher atividades que permitam aos canadianos, a todos os níveis, compreender melhor a dinâmica da região e trabalhar para encontrar soluções para a região.

No seu website podemos ler que a missão da organização Canadians for Justice and Peace in the Middle East (CJPME) é “permitir que os canadianos de todas as origens promovam a justiça, o desenvolvimento e a paz no Médio Oriente e aqui no Canadá”. Como bem sabemos esta parece ser cada vez mais uma tarefa impossível, ou pelo menos, muito difícil de se concretizar. Propõem-se, no entanto, ser uma voz credível e, atendendo aos desenvolvimentos recentes, assumem claramente a defesa da causa palestiniana no conflito que está agora a espalhar-se a outros países do Médio Oriente.

Mal entramos na sua página web, percebemos que, no momento, o grande alvo da luta da CJPME é a sensibilização para uma tomada de posição por parte do Governo de Trudeau, a quem exigem que retire de imediato o apoio a Israel, deixando de fornecer armas que, segundo a CJPME, contribuem para a “limpeza étnica” que Israel tem vindo a efetivar na Faixa de Gaza. Aliás, assinalando um ano de guerra a organização acusa o Governo canadiano de ser profundamente indiferente aos apelos de intervenção “para conseguir um cessar-fogo e pôr termo às ações assassinas de Israel”.

A Canadians for Justice and Peace in the Middle East defende que Israel tem realmente uma intenção genocida relativamente ao povo palestiniano, com o argumento de estarem a agir em autodefesa. Aliás, este argumento está a servir também para o alastrar da guerra a outros países, como é o caso do Líbano, Irão e Iémen. Michael Bueckert é vice-presidente da CJPME e é doutorado em Sociologia, com especialização em Economia Política, pela Universidade de Carleton, em Otava. A sua dissertação explorou a oposição canadiana aos movimentos de boicote, e esta investigação envolveu viagens à Palestina e à África do Sul. É também coeditor da colectânea Advocating for Palestine in Canada, publicou na Radical History Review e Studies in Political Economy, e escreveu para publicações como Africa Is A Country, Jacobin, e Briarpatch.

Na entrevista que nos concedeu, Michael Bueckert deixa bem clara a ideia de que o Canadá enquanto Estado de Direito tem uma grande responsabilidade não apenas sobre o que tem vindo a acontecer na Faixa de Gaza, mas também agora no alastrar da guerra a outros países da região. Bueckert considera que esta não é uma questão religiosa, que opõe judeus a muçulmanos, mas antes política, daí que não concorde que se esteja a aprofundar o fosso entre judeus e palestinianos residentes na GTA, embora reconheça que têm vindo a aumentar os casos de racismo anti-palestiniano.

Milénio Stadium: Há um ano, o conflito israelo-palestiniano agravou-se e, naturalmente, o fosso entre Israel e a Palestina aumentou. Qual é a sua opinião sobre tudo o que aconteceu desde os acontecimentos de 7 de outubro de 2024?
Michael Bueckert: Ao longo do último ano, assistimos a uma campanha genocida de Israel contra o povo palestiniano em Gaza e ao fracasso total do governo canadiano em pôr-lhe cobro. Passaram semanas até que o Canadá começasse a expressar simpatia pelos palestinianos mortos por Israel e meses até que finalmente apoiasse um cessar-fogo. Até hoje, o Canadá tem-se recusado a tomar as medidas necessárias para responsabilizar Israel e pôr termo ao derramamento de sangue, tais como sanções ou um embargo total ao comércio militar.

MS: Podemos dizer que a guerra na Faixa de Gaza está a causar, de certa forma, uma divisão na sociedade canadiana – os palestinianos de um lado e os judeus do outro?
MB: Não, acreditamos que o ataque de Israel a Gaza, e a reação no Canadá, tem fundamentalmente a ver com política e não com religião. Há muitos canadianos judeus que querem um cessar-fogo e apoiam os direitos dos palestinianos. E vemos nas sondagens de opinião pública que há muito mais canadianos que consideram as ações de Israel como genocídio do que aqueles que não o consideram, e a maioria dos canadianos vê Israel de forma muito desfavorável. A divisão na sociedade em relação à guerra não é entre comunidades diferentes, mas entre o público em geral e os nossos líderes políticos, que tendem a apoiar Israel, aconteça o que acontecer.

MS: Tem conhecimento de situações concretas de hostilidade entre palestinianos e judeus, por exemplo, nos locais de trabalho da GTA?
MB: Não acreditamos que estas questões devam ser vistas em termos de hostilidade entre palestinianos e judeus. Podemos dizer, em termos gerais, que temos conhecimento de um grande aumento de casos de racismo anti-palestiniano e de tentativas de atingir e silenciar os palestinianos e os seus apoiantes. Isto está a acontecer nos locais de trabalho e noutras partes da sociedade canadiana. Precisamos de mais dados sobre o racismo anti-palestiniano e de um compromisso de todos os governos para o combater.

MS: Agora que a guerra está a alastrar e a envolver outros países do Médio Oriente, há alguma hipótese de alcançar a paz?
MB: Infelizmente, a abordagem do Canadá falhou completamente em impedir a escalada da violência para uma guerra regional mais alargada. Israel mostrou que não está interessado num cessar-fogo, nem em salvar os reféns, mas sim em anexar território e causar o máximo de destruição possível. Ainda é possível forçar Israel a aceitar um acordo de cessar-fogo e a desanuviar o conflito na região, mas isso exige uma ação significativa por parte do Canadá. Precisamos que o Canadá imponha sanções a Israel e que manifeste o seu apoio ao processo de genocídio contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça e aos mandados de captura pendentes contra Netanyahu e Gallant no Tribunal Penal Internacional.
MB/MS

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