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Portuguese Canadian Walk of Fame: As estrelas de 2025

Albino Fernandes da Silva. Foto: Luciano Paparella Jr.

Albino Fernandes da Silva nasceu em Cerva, concelho de Ribeira de Pena, Trás-os-Montes, Portugal. Em 1973, emigrou para Toronto, onde começou a construir uma carreira notável no mundo do empreendedorismo culinário, assente no serviço, na criatividade e no orgulho cultural, deixando um impacto duradouro no património português integrado no tecido cultural de Toronto.

É conhecido por ter sido proprietário e operador de vários estabelecimentos emblemáticos da restauração em Toronto, incluindo Tiffany’s Pastry Shop, Eurosol, Chiado, Boemia, Circo, Adega, Oasi, Salt Wine Bar e Taberna Nacional. O restaurante Chiado permanece um símbolo de excelência e de orgulho patrimonial na sua comunidade.

O que representa para si receber esta distinção no Portuguese Canadian Walk of Fame?

É sempre difícil para mim ser destacado desta forma, no entanto, sinto-me sinceramente honrado, mesmo que não ache que mereça. A minha capacidade para lidar com elogios é sinceramente fraca, mas estou ciente da importância desta nomeação e compreendo claramente o quanto trabalho e esforço estão envolvidos neste processo. Também reconheço que isto é maior do que eu e entendo o que significa para a nossa comunidade. Permitir que este processo tenha lugar é o mínimo que posso fazer, mas estou verdadeiramente honrado.

Quem ou o que mais influenciou o seu percurso profissional/ comunitário?

O meu percurso profissional foi fortemente marcado pelo meu pai, um pasteleiro fantástico, muito conhecido pela geração mais antiga da nossa cidade, e pela minha mãe, que sempre foi um exemplo de trabalho árduo e dedicação. Tive ao longo dos anos alguns dos profissionais mais excecionais no setor da hotelaria, como o Senhor Manuel da Ponte (Hotel de São Miguel) e poderia continuar, mas fico por aqui, pois ele foi um ícone.

O meu trabalho comunitário é modesto em comparação com o que testemunhei ao longo de mais de meio século. Sinto uma sincera admiração por todos aqueles,e são muitos, que ao longo dos anos contribuíram para tornar a nossa comunidade numa das mais progressistas, senão mesmo a melhor, em todos os aspetos: desde a assistência social até à infraestrutura para idosos, crianças, clubes comunitários, associações, língua portuguesa, música, cultura e tradições. O desenvolvimento da Comunidade Portuguesa em todas estas áreas ao longo dos anos é verdadeiramente excecional. A plataforma que está a reconhecer esta distinção merece os mais elevados elogios pelo excelente trabalho realizado em diversas áreas, especialmente pelo investimento feito para que o nível de jornalismo, televisão, revista, rádio, só para mencionar alguns aspetos fundamentais,mantenha a comunidade informada e envolvida

Sobre Portuguese Canadian Walk of Fame: o que significa para a comunidade? Que valor acha que tem?

Penso que já abordei isto, mas devo dizer que, embora devamos, e temos de homenagear e enaltecer muitos daqueles que trabalham incansavelmente nos bastidores de muitas associações, organizações e instituições, e este ano estamos a homenagear alguns deles, eu sou talvez o elemento “fora da caixa”. A nossa comunidade está realmente orgulhosa por um dos espaços com que colaboro ter resistido ao tempo com alguma dignidade,  afinal, o Chiado é atualmente um dos restaurantes com toalha branca mais antigos da cidade de Toronto, e obviamente português. Estamos todos orgulhosos disso, e somos definitivamente um espaço que honra a nossa cultura, tradições, cozinha clássica e representa, da melhor forma possível, a nossa viticultura e produtos portugueses.

O que ainda ambiciona alcançar, mesmo depois desta homenagem?

A minha ambição é continuar a honrar as expectativas que todos têm de mim, como pessoa e como profissional, e continuar a crescer tanto a nível profissional como pessoal. Compreendo claramente que a nossa comunidade me olha com respeito e também com esperança de que eu continue a conduzir a minha vida com clareza e humildade.


José Maria Eustáquio. Foto: Noah Ganhão

Ao longo da sua carreira na ACAPO, José M. Eustáquio destacou-se por ter conduzido a organização a tornar-se uma das principais referências na celebração da cultura portuguesa em Toronto. Tem liderado iniciativas que apoiam artistas emergentes, promovem o intercâmbio cultural e celebram as tradições portuguesas. 

A ACAPO tem sido uma componente central do seu trabalho filantrópico, proporcionando-lhe alguns dos momentos mais marcantes da sua vida. Trabalhar na ACAPO despertou um profundo orgulho na cultura portuguesa e um sentimento de amor e dedicação à comunidade. O seu apoio contínuo e a sua dedicação à organização do desfile do Dia de Portugal refletem a sua paixão, resiliência e orgulho pela sua comunidade. 

O que representa para si receber esta distinção no Portuguese Canadian Walk of Fame?

Estar aqui tem vários significados para mim. É um orgulho em diferentes níveis. Por exemplo, como José Maria, primo do Stefan Eustáquio, da família Eustáquio — é um enorme orgulho ver essa ligação a Toronto. Mas, em nome da minha própria família, que acho que passou por muitos obstáculos e merece ser reconhecida, este momento tem ainda mais significado. O Stefan, que joga na seleção canadiana e no FC Porto, devia estar aqui também. E o José Maria, que é meu primo, partilha esse percurso. Gostava muito de os ver homenageados juntos. Se tivesse acontecido no mesmo ano, teria sido simbólico, porque essa família deu muito à comunidade, apesar das opiniões divididas.

Muitos esquecem-se do início. Quando comecei a trabalhar com a comunidade, em 1990, havia muito pouco apoio associativo. Com a minha liderança e esforço, conseguimos erguer muito. Quando deixei esse trabalho, muita coisa caiu. Isso mostra que o trabalho feito era relevante. Muitos clubes que hoje já não existem só estiveram de pé por causa do apoio que demos naquela altura.

Depois, envolvi-me no movimento associativo, especialmente durante um tempo complicado da minha vida, tanto pessoal como profissional, no início dos anos 2000. Foi um período difícil. E, honestamente, se soubesse o que sei hoje, talvez não tivesse voltado a envolver-me. Mas o tempo passou, e hoje somos todos amigos. No fim de contas, aprendi muito. Apesar de tudo, essa fase foi pesada psicologicamente. Mas também deu-me força para continuar e fazer a diferença na comunidade.

Sinto orgulho de ver agora o José Maria no Portuguese Canadian Walk of Fame. Ele tem um papel importante. Aliás, quando falei pela primeira vez com o Comendador Manuel da Costa, falei sobre isso. A Aliança dos Clubes merece reconhecimento — desde 1987 tem feito um trabalho notável. Não concordei com todos os presidentes da Aliança, mas respeito todos, inclusive o grande fundador desta Aliança. E digo isto com sinceridade: o melhor presidente que a Aliança já teve foi o José Maria Eustáquio… e, ao mesmo tempo, o pior. Porque tem sido um trabalho perfeito, mas também muito desafiante. Ele – eu-  representa bem essa dualidade.

Quem ou o que mais influenciou o seu percurso profissional/ comunitário?

É interessante… Se me tivesses feito essa pergunta há dois meses — ou há dez anos — a resposta teria sido diferente. Tive muitas influências ao longo do tempo. Houve momentos em que quis virar costas ao movimento associativo. Mas sempre apareceu alguém, uma palavra, uma razão para continuar. Tenho de agradecer às pessoas que estiveram nos primeiros passos da Aliança — a Rosa de Sousa, o Fernando Rio, o Álvaro Ruivo. Tive boas relações de trabalho com pessoas como o Frank Alvarez, o António Dionísio e agora com o Jack Oliveira, que tem sido excecional.

Tive a sorte de conhecer pessoas dinâmicas, bem-sucedidas profissionalmente, mas com um carinho enorme pela comunidade — como o Manuel DaCosta, o Jack Prazeres, o Charles de Sousa, o Mário Silva e a Ana Bailão.

Mas acima de tudo, conheci milhares de portugueses de todas as idades. E digo sempre: não há um dia em que eu vá a um comércio ou ande na rua sem que alguém me diga: “Continua o bom trabalho.” E é isso que me dá força, mesmo nos dias difíceis, como os de maio. Não é fácil. O stress é imenso. Às vezes, penso: “Quando isto acabar, é mesmo o fim.” Mas depois chega julho ou agosto, falo com duas ou três pessoas… e lá estou eu outra vez, em setembro, cheio de vontade de voltar. É preocupante, porque o tempo passa, tenho 61 anos… Ganhei muito com tudo isto, mas também perdi bastante.

Sobre Portuguese Canadian Walk of Fame: o que significa para a comunidade? Que valor acha que tem?

 Quem começou o projeto merece muito mérito. A comissão inicial sabia que ia ser criticada, mas avançou. Eu próprio fiz parte do júri durante quase dez anos  e escolher quem merece é sempre difícil. Há muitos portugueses canadianos com mérito. Temos feito mais do que as pessoas imaginam. Esta plataforma é importante para dar visibilidade ao que tem sido feito.

As críticas fazem parte. Mas, como eu digo, pior seria se todos concordassem. É bom haver opiniões diferentes. Só gostava que aqueles que criticam se levantassem amanhã e fizessem alguma coisa pela comunidade, para a tornar mais rica e melhor representada.

O que ainda ambiciona alcançar, mesmo depois desta homenagem?

Falta-me ser melhor pai. Essa tem sido uma parte difícil. Os anos passam e tento ser mais presente, mais paciente. O meu instinto sempre foi reagir — mas agora tento ouvir mais, refletir.

E sim, ainda sonho com o dia em que possa casar. Tenho 61 anos e digo muitas vezes que ser solteiro é um privilégio… mas também pesa. Se um dia me casar, quero fazer uma grande festa, convidar todos os meus amigos e recuperar o investimento que fiz com eles ao longo dos anos [risos].

Se Deus quiser e tiver saúde, espero que os meus últimos dias sejam passados à frente da praia da Nazaré — e que todos vocês, que considero meus amigos, apareçam por lá de vez em quando para me fazerem companhia.


Maria Barcelos. Créditos: DR

Com apenas 8 anos de idade, Maria Barcelos emigrou com a sua família de São Miguel, nos Açores, para Toronto. 

A sua jornada começou em 2011 como voluntária na Gatehouse, uma organização dedicada ao apoio a vítimas de abuso. Graças ao seu empenho e dedicação, Maria tornou-se diretora executiva da Gatehouse em 2016. Profundamente comprometida com a cura comunitária, orientou mais de 300 estudantes, coorganizou 14 conferências internacionais sobre trauma e tem sido uma defensora incansável de mulheres e crianças marginalizadas. O seu trabalho de liderança amplificou as vozes dos sobreviventes, tanto a nível local como global, tendo levado a que a Gatehouse recebesse o Prémio de Distinção em Serviços às Vítimas em 2024 e 2025, atribuído pelo Ministério do Procurador-Geral de Ontário.

O que representa para si receber esta distinção no  Portuguese Canadian Walk of Fame?

Receber esta distinção é uma honra profunda e comovente. Representa não apenas um reconhecimento do meu percurso profissional, mas também o reflexo do esforço coletivo de todos os que caminham comigo apoiando os sobreviventes de abuso sexual infantil. Este reconhecimento dá-me ainda mais força para continuar este trabalho essencial, sabendo que a comunidade portuguesa no Canadá valoriza contribuições que promovem o processo de recuperação, a justiça e a transformação social.

Quem ou o que mais influenciou o seu percurso profissional/ comunitário?

O que mais influenciou o meu percurso foi o compromisso profundo com a justiça social e o bem-estar das pessoas mais vulneráveis, especialmente os sobreviventes de abuso sexual infantil. Ao longo dos anos, tenho aprendido imensamente com os próprios sobreviventes — a sua coragem, resiliência e vontade de transformar a dor em força foram e continuam a ser a maior fonte de inspiração no meu trabalho. Também fui influenciada pelo exemplo da minha família portuguesa, que sempre valorizou o trabalho árduo, a empatia e o serviço à comunidade.

Sobre Portuguese Canadian Walk of Fame: o que significa para a comunidade? Que valor acha que tem?

O Portuguese Canadian Walk of Fame é uma homenagem poderosa à herança, à identidade e às contribuições da comunidade luso-canadiana. Para a nossa comunidade, representa orgulho, reconhecimento e a celebração de histórias de superação, liderança e impacto positivo no Canadá. O seu valor vai além da distinção individual — inspira as novas gerações, fortalece os laços culturais e mostra que, com dedicação e solidariedade, os membros da comunidade portuguesa continuam a fazer a diferença em diversas áreas da sociedade.

O que ainda ambiciona alcançar, mesmo depois desta homenagem?

Mesmo após esta homenagem tão significativa, continuo profundamente comprometida com a missão de expandir o alcance do The Gatehouse e de continuar a defender e apoiar os sobreviventes de abuso sexual infantil. Ambiciono ver mudanças estruturais nas políticas públicas, maior acesso a serviços de saúde mental e mais educação preventiva nas escolas. Desejo contribuir para uma sociedade onde todas as vítimas sejam ouvidas, respeitadas e apoiadas no seu processo de recuperação. Ainda há muito a fazer, e este reconhecimento reforça o meu compromisso de continuar esse trabalho com ainda mais dedicação e esperança.


Créditos: DR.

O First Portuguese Canadian Cultural Centre, também conhecido como FPCCC, foi fundado a 23 de setembro de 1956, em Toronto, no Canadá. É reconhecido como o centro cultural português mais antigo da América do Norte e constitui um dos pilares fundamentais da comunidade portuguesa residente em Toronto. A história desta organização sem fins lucrativos começou com o objetivo de criar um espaço onde os primeiros portugueses a chegar a Toronto pudessem reunir-se, preservar a sua cultura, língua e tradições, e construir uma segunda casa longe da terra natal.

Após mais de 50 anos a valorizar a cultura portuguesa na comunidade, o centro evoluiu para uma organização de serviços múltiplos, com foco na criação de recursos e espaços para crianças, jovens, adultos e seniores da comunidade portuguesa. Entre os programas oferecidos encontram-se escolas de língua portuguesa, serviços de creche, um centro sénior e aulas de inglês como segunda língua (ESL). 

Respostas de Carina Paradela, Director of Operations do FPCCC

O que representa para o First Portuguese receber esta distinção?

O First Portuguese Canadian Cultural Centre of Toronto foi a primeira associação portuguesa em Toronto a ser fundada, há quase 70 anos. Portanto, representa imenso ser distinguido na categoria de “builders” no Portuguese Canadian Walk of Fame. É um imenso orgulho saber que a organização continua a ser relevante e importante o suficiente para ser digna de distinções tão importantes como esta.

Quem ou o que mais influenciou o percurso do First Portuguese?

Os fundadores, todos os diretores, sócios, funcionários e voluntários que formaram a nossa organização nos últimos quase 70 anos, foram os influenciadores do nosso percurso. Cada uma destas pessoas teve mérito e merece parte desta honra. Ao longo dos anos houve muitas pessoas, demasiadas para nomear, mas cada uma teve um impacto profundo naquilo que a organização representa para a nossa comunidade, neste momento.

Sobre o Portuguese Canadian Walk of Fame: o que significa para a comunidade? Que valor acha que tem?

O Portuguese Canadian Walk of Fame tem um valor imensurável na nossa comunidade. A comunidade portuguesa no Canadá tem um leque de indivíduos, negócios e associações que moldam a comunidade canadiana, e que por vezes passam despercebidos. É de imensa importância valorizar estes gestos e com isso incentivar outros a seguir as mesmas pegadas.

O que ainda ambiciona alcançar depois desta homenagem?

A nossa associação está muito diferente nos dias de hoje do que quando começou, em 1956, mas mantém sempre os mesmos objetivos. Objetivos esses que passam por manter viva a nossa cultura, língua e comunidade; servindo dos mais novos até aos mais idosos. O nosso objetivo maior nos próximos anos é conseguir ter uma propriedade nossa em que consigamos continuar a servir a comunidade por, pelo menos, mais 70 anos!

RMA/MS

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