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Patriotismo em tempos de incerteza

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Nos primeiros dias de 2026, os Estados Unidos lançaram uma operação militar na Venezuela que levou à captura do antigo presidente Nicolás Maduro e ao anúncio de que os Estados Unidos da América iriam assumir a gestão do país por tempo indeterminado. Esta ação reacendeu intensas críticas regionais e debate internacional sobre soberania, intervenção estrangeira e Direito Internacional.

Como se não bastasse, Trump e a sua administração têm feito ameaças explícitas a países como Cuba que, para além de tudo mais, enfrenta agora o impacto na sua economia da ação militar americana na Venezuela, decorrente do corte de petróleo venezuelano.

Paralelamente, a retórica do presidente norte-americano e as suas propostas de aquisição ou anexação (“a bem ou a mal”) da Groenlândia renovaram tensões com aliados europeus e alertaram para o facto de uma das nações mais poderosas do mundo introduzir, deste modo, uma alteração profunda do conceito de Direito Internacional, no que diz respeito à soberania nacional e autodeterminação dos Estados.

Mas, afinal, o que significa ser patriota? Trata-se de um sentimento espontâneo de pertença, de uma prática cívica consciente ou de uma reação a ameaças externas reais ou percebidas?

John Von Heyking. Créditos: DR.

Para John von Heyking, professor da School of Civic and Economic Thought and Leadership da Arizona State University, a resposta exige um regresso às bases da teoria democrática. Inspirando-se em Alexis de Tocqueville, o académico distingue claramente dois tipos de patriotismo: um “instintivo ou emocional” e outro que o pensador francês designou como “patriotismo reflexivo”. Segundo Heyking, “a democracia liberal depende do patriotismo reflexivo, que apela tanto ao coração como à razão, porque assenta em princípios de liberdade e igualdade”.

Esta forma de patriotismo, explica, não nasce espontaneamente. “Isto significa que os cidadãos de uma democracia liberal necessitam de educação cívica nos seus princípios fundadores para poderem governar-se e desenvolver um sentimento de ligação ao país.” Reduzir o patriotismo a uma mera emoção, alerta, é sinal de uma cidadania enfraquecida: “Reduzir hoje o patriotismo a um simples sentimento emocional ou instintivo reflete uma cidadania democrática passiva, maioritariamente apática e carente de literacia cívica.” A distinção é clara e contundente: “O patriotismo reflexivo é para cidadãos; os sentimentos emocionais são para súbditos.”

Daniel Béland, professor da Universidade McGill e diretor do McGill Institute for the Study of Canada, apresenta uma perspetiva complementar, sublinhando o peso do contexto internacional na construção do sentimento patriótico. Para o académico, “o patriotismo é um sentimento, mas é também uma forma de envolvimento político e uma reação a ameaças externas”. No caso canadiano, essa dimensão tem-se tornado particularmente visível nos últimos anos. “Atualmente, o patriotismo (ou nacionalismo) canadiano é claramente moldado pela perceção de uma ameaça económica e geopolítica vinda da Casa Branca de Donald Trump”, afirma, referindo-se, entre outros fatores, “à guerra comercial entre o Canadá e os Estados Unidos, que levou ao surgimento do movimento Buy Canadian”.

A relação com os Estados Unidos surge, assim, como um elemento central no despertar, ou reconfiguração, do patriotismo canadiano. Questionado sobre se intervenções norte-americanas noutros países podem reforçar esse sentimento no Canadá, Béland responde de forma direta: “Sim, porque as ameaças externas tendem, em geral, a criar um sentimento de solidariedade nacional entre os cidadãos de países que se sentem atacados e/ou em perigo.”

John von Heyking reconhece esse efeito, mas alerta para os seus limites. “As intervenções dos EUA podem despertar respostas emocionais, mas estas carecem de direção”, afirma, sublinhando que essas reações não são sustentadas por “uma cidadania conhecedora dos próprios princípios fundadores do Canadá, ou seja, do que o Canadá representa”. Para o professor, definir a identidade nacional apenas em oposição ao vizinho do sul é insuficiente: “Dizer ‘não somos americanos’ funciona apenas até ao momento em que os canadianos se tornam americanos.”

A fragilidade dessa base identitária torna-se ainda mais evidente quando se imagina um cenário de interferência política ou militar direta no Canadá. Longe de gerar automaticamente uma onda de união nacional, tal situação poderia expor fissuras profundas. “Maioritariamente, exporia fragilidades”, afirma Heyking, apontando para uma clivagem geracional preocupante. “Os canadianos mais velhos manifestam maior patriotismo, mas os mais jovens desligaram-se, em grande medida, a nível emocional.” Alguns, acrescenta, “poderão até ver com bons olhos a possibilidade de se mudarem para lugares como a Carolina do Sul e ganharem salários em dólares americanos”.

Danie Beland. Créditos: DR.

Daniel Béland concorda que a coesão nacional não deve ser dada como garantida. “Normalmente, seria de esperar que este tipo de interferência aproximasse os canadianos de todas as regiões do país”, reconhece. No entanto, a realidade atual é mais complexa. “Existe atualmente um debate em curso sobre a possibilidade de referendos à independência tanto em Alberta como no Quebeque”, lembra, sublinhando que “as ameaças percecionadas vindas da administração Trump não eliminaram as divisões internas, incluindo as divisões regionais”. Mais ainda, alerta para o risco de instrumentalização externa: “Uma interferência política estrangeira poderia procurar explorar e agravar essas divisões através de uma lógica de ‘dividir para conquistar’.”

É precisamente no contexto do multiculturalismo canadiano que a questão do patriotismo se torna mais delicada. Como construir um sentimento de pertença comum numa sociedade marcada por múltiplas identidades culturais, étnicas e nacionais? Para Béland, a resposta passa pelo reconhecimento da natureza multinacional do país. “Os académicos distinguem entre um nacionalismo maioritário, projetado pelo governo federal, e um nacionalismo minoritário, predominante no Quebeque”, explica. A este quadro juntam-se ainda “a construção das nações indígenas e a correspondente reivindicação de autogoverno”, bem como “um regionalismo atualmente forte em Alberta e Saskatchewan”. O resultado é claro: “Neste contexto, o Canadá é um país multinacional e multiétnico, no qual o patriotismo (canadiano) não é partilhado de forma igualmente intensa por toda a população nem em todo o território.”

John von Heyking é mais crítico quanto ao papel do multiculturalismo enquanto elemento agregador. Na sua perspetiva, o Canadá enfrenta hoje “os resultados de uma geração que tentou fazer do multiculturalismo um valor em si mesmo, sem um forte sentido de unidade”. Durante algum tempo, explica, essa unidade foi assegurada por políticas públicas amplamente consensuais, mas esse cimento está a desfazer-se. “Com a promessa de cuidados de saúde universais e outros serviços públicos a falhar enquanto elemento agregador, não é claro de que forma o multiculturalismo poderá servir como o cimento que une a sociedade.”

Entre o patriotismo reflexivo defendido por Heyking e o patriotismo moldado por ameaças externas descrito por Béland, emerge um retrato complexo do Canadá contemporâneo: um país onde o sentimento de pertença existe, mas é desigual, fragmentado e, por vezes, reativo. Mais do que nunca, a questão que se coloca não é apenas se os canadianos se sentem patriotas, mas que tipo de patriotismo estão dispostos, e preparados, para exercer num mundo em rápida transformação.

MB/MS

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