Temas de Capa

Passar das (boas) intenções à prática

Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017 – 2025

Em Portugal, temos boas e más notícias. Se, por um lado, a esperança média de vida não para de aumentar, por outro – e segundo dados da PORDATA – a esperança de vida saudável aos 65 anos tem vindo a diminuir.

Sabe-se ainda que, em 2017, as pessoas com 65 ou mais anos representavam 21,5% da população residente no país (PORDATA, 2018). O agravamento do envelhecimento da população no nosso país manter-se-á e só tenderá a estabilizar num período de 40 anos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o cenário em Portugal entre 2015 e 2080 será este:

  • Decréscimo da população, ficando abaixo do limiar de 10 milhões em 2031;
  • Enquanto que o número de jovens passa de 1,5 para 0,9 milhões, o de idosos aumenta de 2,1 para 2,8 milhões;
  • O índice de envelhecimento irá mais do que duplicar, passando de 147 para 317 idosos, por cada 100 jovens, em 2080;
  • A população em idade ativa diminuirá de 6,7 para 3,8 milhões de pessoas.

Todos estes fatores estão, inevitavelmente, associados a um acréscimo das necessidades de saúde, apoios sociais e suporte familiar. É, assim, de extrema importância sensibilizar a sociedade e criar estratégias que apoiem e apresentem soluções para esta problemática.

Nesse sentido, também no âmbito da Estratégia e Plano de Ação Global para o Envelhecimento Saudável da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi entregue ao Governo, em setembro de 2017, uma estratégia que pretende mudar mentalidades em relação ao envelhecimento e fazer de Portugal “um país mais amigo dos idosos” – a “Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017 – 2025”.

Ao documento inicial da DGS juntaram-se colaborações de outras 43 entidades como a [email protected], a Fundação Calouste Gulbenkian, a Ordem dos Enfermeiros, APAV e a Cruz Vermelha Portuguesa.

Sendo um “modelo orientador da intervenção” os objetivos passam, em linhas gerais, por promover a saúde e o bem-estar, combater o isolamento e solidão, a violência e as dependências económicas, físicas e mentais dos mais velhos. A estratégia assenta em 4 eixos estratégicos: Saúde, Participação, Segurança e Medição, Monitorização e Investigação. As 33 iniciativas propostas e divididas pelos diferentes eixos deverão ser articuladas com os programas e estratégias já existentes, garantindo a coerência de princípios e políticas.

Vamos então por partes:

Dentro do eixo da Saúde são propostas uma série de medidas como são exemplo a dieta saudável, a atividade física regular, a vigilância para deteção antecipada de possíveis doenças, o autocuidado (através da vacinação, rastreios, exames, etc), dotar os profissionais de capacidades específicas para o cuidado de idosos, uma estratégia de combate à polimedicação (justificação obrigatória para mais de 5 medicamentos) e a prevenção de comportamentos violentos por parte dos prestadores de cuidados informais.

A redução da prevalência, o adiamento ou controlo do agravamento e impacto das doenças crónicas têm assim um lugar central neste eixo da estratégia, com vista a potenciar a autonomia dos mais velhos.

No entanto, é dado um grande ênfase aos cuidados integrados e à continuidade da readequação do Sistema de Saúde e do Serviço Nacional de Saúde, tidos como peças fundamentais para o sucesso do ENEAS.

Na área da Participação chama-se a atenção para a importância da integração e do apoio social. Medidas como a promoção da literacia em saúde em todos os níveis de ensino e também através do trabalho conjunto com produtoras de programas de grande audiência, criação de programas de educação/formação dirigidos a pessoas idosas, o desenvolvimento do “Erasmus Senior”, etc. irão resultar numa maior e mais ativa participação na e da sociedade e também numa maior autoestima dos idosos.

A criação de ambientes que potenciem este cenário é também de extrema importância – aqui, é necessário, por exemplo, o combate ao idadismo, a promoção de atividades sociais, de voluntariado, desportivas, culturais, de turismo e termalismo, políticas promotoras da relação intergerações, a promoção do associativismo sénior, o incentivo à aprendizagem e utilização de tecnologias de comunicação e informação e a criação e manutenção de zonas pedonais facilitadoras da deslocação de pessoas – com ou sem dificuldades de mobilidade.

Já no eixo da Segurança fala-se na criação de ambientes físicos que previnam quedas, atropelamentos e outros acidentes. Pretende-se também que “a circulação de autocarros com pisos rebaixados” se torne numa realidade de forma gradual, assim como a criação de semáforos com temporizador e de passeios desimpedidos e devidamente pavimentados. Outra das medidas que visa aumentar a segurança dos idosos é avaliação, por parte dos Cuidados de Saúde Primários, de todas as pessoas idosas de forma a despistar sinais de violência, pelo menos uma vez por ano.

Por último, a continuidade da investigação científica na área do envelhecimento ativo e saudável, feito através do levantamento de necessidades, da monitorização e avaliação de intervenções e da disseminação de boas práticas e da inovação fazem parte das linhas orientadoras do eixo da Medição, Monitorização e Investigação.

O compromisso com o envelhecimento ativo e saudável vai muito além de uma “obrigação” política – depende de todos e de cada um de nós. É um assunto que, pelo menos, deveria interessar a toda a sociedade dado o cenário futuro que nos foi apresentado pelo INE. Afinal, e contrariando o tão famoso romance de Cormac McCarthy, “este país terá de ser para velhos”!

Inês Barbosa

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