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“Os iranianos não são daqueles que se rendem” – José Manuel Rosendo

Credito: DR

Com uma vasta experiência acumulada em zonas de conflito, nomeadamente no Médio Oriente, José Manuel Rosendo, jornalista da RTP e da Antena 1, tem acompanhado de perto as dinâmicas e tensões de uma das regiões mais instáveis do planeta. Nesta entrevista ao Milénio Stadium, Rosendo analisa a mais recente ofensiva de Israel contra o Irão, num contexto marcado por múltiplas frentes de guerra, interesses cruzados de grandes potências e profundas divisões internas nos países envolvidos.

O jornalista traça o enquadramento político e estratégico que poderá ter motivado a ação israelita, abordando não só a eterna questão em torno do programa nuclear iraniano, mas também as movimentações internas do governo de Benjamin Netanyahu, atualmente pressionado por processos judiciais e dependente de parceiros da extrema-direita para se manter no poder. José Manuel Rosendo analisa ainda as possíveis repercussões internacionais deste conflito, o papel ambíguo das grandes potências, dos Estados Unidos à Rússia e à China, bem como as dificuldades em encontrar uma solução diplomática viável. A entrevista revela a complexidade de uma guerra que pode eventualmente ultrapassar as fronteiras regionais e envolver novos atores num cenário já de si altamente volátil.

Milénio Stadium: O que realmente motivou esta ofensiva de Israel? O argumento de ameaça de bomba nuclear iminente tem fundamento?

José Manuel Rosendo. Créditos: DR.

José Manuel Rosendo: Olha, começando pelo fundamento, aquilo que se sabe e é oficial por parte, por exemplo, da Agência Internacional de Energia Atómica é que o Irão, a única coisa que fez de errado, relativamente àquilo que estava acordado, foi não respeitar alguns aspetos do acordo. É a única coisa que diz a Agência Internacional de Energia Atómica. Por outro lado, há relatórios norte-americanos, nomeadamente da senhora que faz a coordenação entre a CIA e a Agência de Segurança Nacional norte-americana, que dizem que relativamente ao desenvolvimento do urânio e o enriquecimento de urânio no Irão, ainda estavam muito longe de chegar ao ponto de construção de uma bomba nuclear. Fala-se num ano e fala-se em três anos. Não sei exatamente, mas pronto, é isto que se sabe. Oficialmente, o Irão o que diz é que só quer enriquecer urânio para fins civis. Estes são os dados concretos. O que é que Israel eventualmente sabe que nós não saibamos? É óbvio, não posso falar, não posso falar sobre isso. Mas perante estes dados concretos, nada justifica aquilo que aconteceu. Sendo certo que Israel aproveitou uma janela de oportunidade. Estavam a decorrer negociações entre os Estados Unidos e o Irão para um eventual acordo. Convém aqui também dizer que Donald Trump, neste momento, está a querer um acordo. Quando foi ele em 2018 ou 2019, já não me lembro bem, que rasgou precisamente o acordo que tinha sido obtido e agora está a querer um novo acordo com o Irão. E, portanto, Israel aproveitou essa janela de oportunidade para travar o programa nuclear iraniano, antes de um eventual acordo. E, depois, há ainda uma terceira questão que se calhar é a mais importante, que é a fuga para a frente de Benjamin Netanyahu. Há aqui um aspeto que é importante e que convém não esquecer. Benjamin Netanyahu, neste momento, é um foragido da justiça internacional. Tem um mandado de captura passado pelo Tribunal Penal Internacional. Por outro lado, o governo de Netanyahu, há poucos dias, esteve quase a cair. Ele teve que fazer cedências aos partidos religiosos ortodoxos para que a coligação de governo não caísse. Netanyahu está envolvido em vários processos na justiça israelita e mantém um conflito com a Procuradoria-Geral da República relativamente à nomeação do novo diretor do Shin Bet, agência de Segurança Nacional israelita. Portanto, Netanyahu está a jogar com isto tudo. Para além de, obviamente, querer fazer esquecer aquilo que está a acontecer na Faixa de Gaza. Com esta guerra no Irão, todos os jornais, todas as televisões se viraram para Teerão, viraram-se para Telavive para observar esta guerra e deixaram a questão de Gaza para segundo plano. E em Gaza estão a morrer cerca de 50 pessoas por dia.

MS: Mas será uma fuga para a frente ou uma fuga para se enterrar ainda mais.

JMR: Enquanto Netanyahu conseguir manter este nível de conflitualidade, conseguir manter estas frentes de guerra, será mais difícil, internamente, contestá-lo e derrubar o governo. Quando um país está envolvido em tantas frentes de guerra… e, por outro lado, esta é também uma exigência de alguns parceiros que ele tem no governo, nomeadamente, como eu já falei, dos partidos religiosos ortodoxos sobre questões muito concretas, como por exemplo, chamar os religiosos ortodoxos para cumprir serviço militar. Mas há outros aspetos e esses outros aspetos estão mais ligados aos partidos de extrema-direita, que exigem, por exemplo, que continue a guerra em Gaza até à extinção do Hamas e exigem também a anexação de Gaza e  exigem também a anexação da Cisjordânia, porque na Cisjordânia a situação está muito complicada. O território, este território palestiniano, está cercado há vários dias, completamente fechado e o avanço dos colonos continua. Continuam a retirar território aos palestinianos e, portanto, é tudo isto que a extrema-direita israelita quer. E enquanto Netanyahu corresponder a estas exigências, vai conseguir manter-se no governo.

MS: Nas últimas horas, o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, alertou para “danos irreparáveis” e acrescenta que “os iranianos não são aqueles que se rendem”. O que o mundo pode esperar depois desta afirmação?

JMR: Os iranianos não são daqueles que se rendem. Ainda ontem falei com um iraniano que vive em Portugal e perguntei-lhe se havia alguma hipótese de Ali Khamenei fugir do país. E ele disse-me que nem pensar. Faz parte da cultura persa resistir e, portanto, nem é bom pensar nisso. Ali Khamenei não vai fugir. É a opinião apenas de um iraniano aqui em Portugal. Mas se olharmos, por exemplo, ali para o lado, o Afeganistão foi carimbado com aquela célebre expressão “cemitério dos impérios”, não é? Todos os impérios que passaram pelo Afeganistão foram derrotados e foram corridos. São culturas diferentes, a do Afeganistão e a da antiga Pérsia, agora o Irão, mas nesse aspeto são muito parecidas. Portanto, aquilo que acontece é que o Islão tem uma história milenar. Eu não sei se o poder norte-americano tem noção do que isso significa. Agora, o que o mundo pode esperar, penso eu, é que o Irão, o governo do Irão, o líder Supremo, vão responder até onde for possível. Algo que não sabemos é qual é de facto, o verdadeiro poder militar do Irão. Eu penso que ninguém sabe. Ninguém, com grande grau de certeza, pode falar da verdadeira capacidade militar do Irão. O Irão continua, dia após dia, a dizer que vai fazer ataques mais poderosos. Até agora isso não tem acontecido, sendo que Israel neste momento já foi atingido como nunca tinha sido até agora. O que prova também que as defesas militares israelitas não são assim tão fortes quanto tem sido anunciado. E, portanto, é bom também lembrar que o Irão é um país e um país imenso. Sabemos, por exemplo, o que aconteceu no Iraque em 2003 e eu acho que, por exemplo, seria uma loucura querer fazer no Irão o que tentaram fazer no Iraque. Eu recordo que o Benjamin Netanyahu tem dito que quer fazer uma mudança de regime no Irão, mas ninguém sabe muito bem como é que isso pode acontecer, até porque também há algumas tensões internas e se o poder cair na rua, a situação no Irão pode vir a complicar-se.

MS: Israel já atingiu vários dos objetivos que tinha – matou vários lideres militares iranianos, atingiu uma estação nuclear, matando vários cientistas… falta matar o líder, Khamenei. Esse será um objetivo difícil de atingir, não achas? Teremos então mais uma guerra interminável à vista?

JMR: E é isso que toda a gente supõe que Ali Khamenei esteja completamente protegido, ou o mais possível protegido. Mas, no entanto, eu recordo que Israel, para além dos líderes militares que referiste e dos cientistas que matou agora nos últimos dias, também já matou líderes do Hamas em Teerão, como foi, por exemplo, o caso de Ismail Haniyeh. Não teria, obviamente, o nível de proteção que tem agora Ali Khamenei, mas Israel conseguiu fazer isso e conseguiu isso, obviamente com informação muito concreta, a partir do próprio Irão, a partir, certamente, de agentes infiltrados. Não sei se Israel vai conseguir isso ou não. Israel já demonstrou grande capacidade nessa política de assassínios seletivos, mas isso acho que seria muito mau. Seria terrível para a comunidade internacional. Israel atrever-se a matar o líder de um país soberano seria enterrar definitivamente, ou quase, a Carta das Nações Unidas, que por acaso fazem 80 anos agora, na próxima semana. Israel viola constantemente o direito internacional e não seria uma surpresa. Mas o que choca também nestas ameaças que estão a ser feitas a Ali Khamenei é a terminologia utilizada por Donald Trump. Sabemos quem é Trump, mas de facto, aquilo que se espera de um estadista, que ocupa o lugar mais poderoso nos Estados Unidos, é outro tipo de linguagem, outro tipo de terminologia. E quando Donald Trump vem dizer que “sabemos onde ele está e, por enquanto, não o queremos matar”… ninguém espera ouvir isto de um líder internacional, de um líder de um qualquer país e muito menos dos Estados Unidos, que se arrogam de ser essa grande democracia que quer espalhar a democracia pelo mundo. Aquilo que Israel, neste momento, está a fazer, está a ter o apoio dos Estados Unidos e o apoio, ou pelo menos o consentimento calado, de grande parte da comunidade ocidental. Estão a dar apoio a exatamente o mesmo que criticaram a Vladimir Putin quando invadiu a Ucrânia. É muito difícil perceber esta dualidade de critérios.

MS: Como conhecedor da região, como interpretas a ausência de manifestações públicas de apoio ao Irão, por parte de países vizinhos?

JMR: Olha, é assim, sabemos que aquela zona do mundo do Médio Oriente tem ali aquela grande fratura entre o Islão xiita e o Islão sunita, ou seja, tudo o que possa enfraquecer a grande potência xiita que é o Irão será bom para todos os outros países de maioria sunita e, portanto, esse silêncio explica-se um bocadinho com essa questão. Mas por outro lado, a organização da Conferência Islâmica, que é a organização que junta a totalidade dos países muçulmanos do mundo, cerca de meia centena de países, já veio condenar fortemente o ataque de Israel e o Secretário-Geral da organização já expressou solidariedade ao Irão e ao povo do Irão. O Paquistão também expressou solidariedade com o Irão. O ministro da Defesa paquistanês disse mesmo que o mundo deve preocupar-se mais com o nuclear israelita, dando esse toque para que as pessoas não se esqueçam que Israel não permite, por exemplo, visitas dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica e ninguém sabe ao certo qual é o poder nuclear de Israel. Portanto, é tudo isto que está em jogo e é tudo isto que talvez também ajude um bocadinho a explicar algum silêncio por parte de alguns países de maioria muçulmana.

MS: Ainda relativamente aos apoios, o Irão já recebeu apoio da Rússia e até da China. Por outro lado, temos Trump sempre muito ao lado de Israel. Este posicionamento, tanto dos Estados Unidos como de outras grandes potências mundiais, como a Rússia e a China pode ajudar a escalar esta guerra, até aqui, regional? 

JMR: Num primeiro momento não me parece. Poderá escalar, fazendo uso da tua palavra, no nível regional um bocadinho mais alargado. Por exemplo, ninguém sabe muito bem o que é que o Iraque poderá fazer? Eu recordo que o Iraque é também um país de maioria xiita. Tem o governo politicamente muito alinhado com Teerão, tem fações, milícias iraquianas, pró Irão, tem outras que têm mesmo homens, combatentes, iranianos. Existem as unidades de mobilização popular, por exemplo, que foram criadas aquando do combate contra a organização Estado Islâmico e que, neste momento, continuam no Iraque e já vieram dizer que podem interferir nesta guerra se os Estados Unidos entrarem diretamente na guerra. Portanto, há algumas coisas que estão por um fio, digamos assim. Relativamente à Rússia… a Rússia perdeu recentemente um grande aliado que tinha na região, que era o presidente Bashar Al Assad, o antigo presidente sírio. 

A Rússia está muito envolvida na frente da Ucrânia e, portanto, neste momento, o Médio Oriente não será a sua prioridade, mas é certamente um território, um cenário que Moscovo olha com preocupação e, se puder intervir, vai intervir. Tem manifestado apoio diplomático. Eu recordo que ainda muito recentemente, foi assinado um acordo de parceria entre Teerão e Moscovo, mas que não tem uma componente de assistência militar (como outros acordos que a Rússia foi assinando com vários países) e, portanto, a Rússia vai continuar a olhar para a região com muita atenção, mas, para já, penso que não devemos esperar, pelo menos nos tempos mais próximos, uma intervenção direta da Rússia.

MS: O que é que podemos esperar desta guerra que tem dias ainda? Que possibilidade existe de um fim de guerra pela via diplomática?

JMR: Aquilo que podemos esperar eu acho que depende muito dos objetivos que foram fixados por quem desencadeou a guerra. E quem desencadeou a guerra? Neste caso, não há dúvida nenhuma, foi Israel. Por exemplo, com o Hamas, aí foi Israel que foi diretamente atacado e depois respondeu. Mas ainda assim também estabeleceu imediatamente objetivos para essa guerra, objetivos que passavam por eliminar o Hamas, evitar que o Hamas voltasse a governar Gaza e controlar territorialmente aquilo que se passa em Gaza para que nunca mais Israel voltasse a ser atacado daquela forma. Esses foram os objetivos traçados. E depois o que aconteceu foi que Benjamin Netanyahu ficou um pouco refém desses mesmos objetivos, porque ainda não conseguiu nenhum deles, não é? E o que é certo é que já tem praticamente toda a comunidade internacional contra ele, com exceção dos Estados Unidos, face ao massacre que está a fazer em Gaza. Agora com o Irão, o que é que Benjamin Netanyahu veio dizer? Veio dizer que quer mudar o regime, acabar com o regime dos ayatollah’s e estes são objetivos que ele dificilmente vai conseguir atingir. Eu penso que um líder de um país a apelar à mudança de regime num outro país é sempre, enfim, algo de muito complicado, que não deve ser feito, porque os países são soberanos e são os povos que devem decidir. Agora, Netanyahu fazer isso numa altura em que lança uma guerra contra o Irão, penso que é um duplo erro, porque em situações de guerra, independentemente da contestação interna que cada governo possa sofrer, a tendência natural que há é para que os povos que são agredidos se unam à volta do governo que os defende. E, portanto, estamos nisto. Não sei exatamente como é que poderá acabar, sendo certo que todas as guerras só podem acabar através da diplomacia. E esta não vai ser uma guerra que vai fugir à regra.

MS: E quem é que está em posição de ser mediador nesta situação? Quem poderá ser, digamos, o coordenador dessa via diplomática de pacificação?

JMR: É muito difícil porque, normalmente, quem pode mediar também tem uma grande capacidade militar associada a essa mediação. Os Estados Unidos não são, na minha perspetiva, um mediador fiável, porque estão diretamente envolvidos na guerra, por muito que digam que não. Ou seja, Israel nunca poderia estar envolvido nas guerras em que está envolvido sem o apoio direto dos Estados Unidos em termos de fornecimento de equipamentos militares, seja explosivos, munições, ou seja outros equipamentos, tal como Israel também recebe, por exemplo, do Reino Unido, da França e por aí fora e, portanto, isso seria impossível. Portanto, não sei muito bem quem é que poderá mediar. Eu recordo que não há muito tempo, a China, por exemplo, promoveu uma aproximação entre o Irão e a Arábia Saudita, coisa que os Estados Unidos até aqui não tinham feito. E os Estados Unidos estão, de facto, numa situação em que estão a tomar posições que contrariam o próprio Donald Trump, que voltou ao poder em janeiro a dizer que era o presidente que queria acabar com as guerras e até agora não acabou com guerra nenhuma e pelo contrário, está a envolver-se numa terceira frente de guerra. Portanto, fica difícil. Não sei se a China poderá retomar aqui esse papel de mediação, atendendo ao distanciamento que tem mantido nos últimos dias, mas é um fator a ter em conta. 

A Turquia poderá também ter um papel a dizer, sendo que a Turquia certamente que não será aceite como mediador por parte de Israel, porque, enfim, Netanyahu e Erdogan têm trocado as acusações mais ásperas que possamos imaginar e, portanto, não sei muito bem como é que as coisas poderão evoluir. O ideal, nestas circunstâncias, seria que as partes em conflito, as partes em guerra, aceitassem uma mediação direta das Nações Unidas. Mas aí também sabemos que Israel certamente não irá aceitar.

MB/MS

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