O silêncio da diversidade de línguas nas escolas

Num dos contextos mais multiculturais do mundo, a escola sempre foi, em Toronto, muito mais do que um espaço de aprendizagem académica: é também um lugar de identidade, de pertença e de ligação às origens. Durante mais de cinco décadas, o Ensino Integrado de Línguas Internacionais no sistema elementar do Toronto Catholic District School Board representou precisamente isso – uma ponte entre gerações, culturas e línguas, permitindo a milhares de crianças crescerem entre dois (ou mais) mundos sem terem de escolher entre eles.
Num momento em que a diversidade é frequentemente celebrada como um dos maiores ativos do Canadá, a decisão de terminar este modelo integrado levanta questões profundas sobre o futuro dessa mesma diversidade dentro das escolas. O que está verdadeiramente em causa não é apenas a aprendizagem de uma língua, mas também o papel que o sistema educativo deve desempenhar na preservação das raízes culturais das comunidades que compõem o tecido social da cidade, assegurando uma educação inclusiva e representativa.
Para muitas famílias, particularmente da comunidade portuguesa, este programa foi ao longo dos anos uma extensão natural da casa, um espaço onde a língua, a cultura e os valores eram transmitidos de forma estruturada e reconhecida. A sua transformação, de modelo integrado para extracurricular, representa, para muitos, não apenas uma mudança logística, mas uma perda simbólica.
É neste enquadramento que importa compreender o que está em causa: como surgiu este programa, como ainda funciona, quem ainda beneficia dele e, sobretudo, como chegámos até aqui.
Ensino Integrado de Línguas Internacionais
O QUE É?
O Programa de Línguas Internacionais (International Languages Program) no ensino elementar do Toronto Catholic District School Board permite que alunos aprendam uma segunda língua durante o horário letivo regular, integrando essa aprendizagem no currículo escolar. Ao contrário dos programas extracurriculares, estas aulas fazem parte do dia escolar normal.
HÁ QUANTO TEMPO EXISTE?
- Mais de 50 anos de implementação em Toronto
COMO FUNCIONA?
- Integrado no horário letivo regular
QUANTOS ALUNOS ENVOLVIDOS?
- Cerca de 19.000 alunos em dezenas de escolas.
PORQUE FOI CRIADO?
- Foi considerado um pilar importante para a preservação cultural e linguística das comunidades imigrantes.
- Para refletir a diversidade cultural da cidade
- Preservar línguas e culturas de origem
- Promover o bilinguismo/multilinguismo
- Melhorar competências cognitivas e académicas
- Reforçar a ligação entre escola, família e comunidade
QUANTAS LÍNGUAS?
O programa abrange atualmente cerca de 14 línguas no sistema atual, mas este número varia consoante as escolas e a procura das comunidades.
Inclui:
- Português
- Italiano
- Espanhol
- Mandarim
- Árabe
- Punjabi… entre outras
QUAL O IMPACTO NA COMUNIDADE?
- Forte adesão da comunidade portuguesa
- Reforço da identidade cultural nas novas gerações
- Apoio à integração sem perda de raízes
LINHA TEMPORAL DAS DECISÕES
Anos recentes: subfinanciamento estrutural
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- O programa não tinha financiamento específico do governo provincial, obrigando o conselho escolar a suportar os custos internamente.
- Ao longo dos anos, surgiram sinais de pressão financeira crescente, com o programa a ser visto como “extra” face às disciplinas obrigatórias.
2024–2025: agravamento da situação financeira
-
- O TCDSB entrou em dificuldades financeiras, acumulando um défice significativo (cerca de 39 milhões de dólares).
- O Governo de Ontário colocou o conselho sob supervisão provincial, retirando parte da autonomia de decisão.
2026 (março): decisão formal. O supervisor nomeado anuncia:
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- Fim do ensino integrado no horário escolar a partir de setembro de 2026
- Programa passa para formato extracurricular (sábado)
* Justificações apresentadas:
- Necessidade de cumprir os 300 minutos diários obrigatórios de ensino das disciplinas nucleares
- Redução do défice financeiro
- Reorientação para competências básicas (literacia e numeracia)
IMPACTOS IMEDIATOS
- Cerca de 77 professores perdem o emprego
- Aproximadamente 19.000 alunos deixam de ter acesso gratuito em horário escolar
Programa passa a:
- Opcional
- Fora do horário
- Pago (cerca de $20)
REAÇÕES
Forte contestação de:
- Sindicatos
- Pais
- Comunidades (incluindo a portuguesa)
Críticas principais:
- Falta de consulta pública
- Impacto na identidade cultural
- Decisão vista como consequência direta de cortes na educação
* O que dizem as entidades responsáveis pela decisão?
O fim do programa não resulta de uma decisão isolada, mas sim de um processo gradual:
- Subfinanciamento crónico
- Pressão orçamental crescente
- Intervenção do governo provincial
- Prioridade às disciplinas obrigatórias
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