
Os resultados das mais recentes eleições presidenciais portuguesas no círculo da emigração, em particular no Canadá, levantaram questões inquietantes sobre participação cívica, literacia política e o crescimento da extrema-direita entre comunidades historicamente marcadas pela experiência da ditadura e da emigração forçada. Dos mais de 48 mil eleitores inscritos, pouco mais de mil exerceram o seu direito de voto, com uma percentagem significativa a optar pelo Chega, um partido de discurso radical e populista.
O fenómeno não é exclusivo do Canadá, nem das comunidades portuguesas no estrangeiro, mas ganha contornos especialmente paradoxais quando observado à luz da história recente de Portugal e do percurso de muitos emigrantes portugueses. Nesta entrevista, analisam-se as razões da elevada abstenção, os obstáculos práticos ao voto, a fragilidade da literacia política nas comunidades da diáspora e a eficácia de um discurso simplista que explora o descontentamento, o medo e a desinformação.
Mais do que uma leitura conjuntural dos resultados eleitorais, esta conversa propõe uma reflexão mais profunda sobre os riscos que este tipo de retórica representa para a democracia portuguesa e sobre a responsabilidade coletiva, dos partidos, das instituições e dos eleitores, na defesa dos valores democráticos conquistados ao longo dos últimos 50 anos.
Milénio Stadium:O que justifica, na sua opinião, que dos 48.054 recenseados em Toronto apenas 1.035 tenham votado?

Laurentino Esteves: Esta questão dava para um jornal inteiro. Antes de mais, devo dizer que vejo com bons olhos o facto de ter havido mais pessoas a votar do que em atos eleitorais anteriores. Ainda assim, a abstenção continua a ser enorme, não apenas no Canadá, mas em todo o círculo da emigração, dentro e fora da Europa.
Uma das principais razões prende-se com o facto de as mesas de voto estarem concentradas em consulados e embaixadas. Num país continental como o Canadá, isso torna o voto praticamente inacessível para muitos eleitores. Por exemplo, se pensarmos no Norte Ontário estamos a falar de pessoas que vivem a 700, 1.000 quilómetros ou mais do local de votação, o que implica viagens longas, custos elevados e, muitas vezes, pernoitas, sobretudo no inverno. Nestes moldes, é urgente avançar para o voto eletrónico. Se todos os portugueses da diáspora pudessem votar com facilidade, a participação seria certamente maior.
MS: E como explica que 69,19% dos votantes tenham escolhido o Chega?
LE: Aqui entramos num problema mais profundo: a enorme falta de literacia política no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Portugal é, historicamente, um país de emigrantes, mas parece que muitos se esqueceram disso. Já agora, ao contrário do que a extrema-direita apregoa, a maioria dos portugueses não emigrou por culpa do PS ou do PSD, mas sim nos anos 60 e 70, para fugir a uma ditadura.
É profundamente preocupante ver emigrantes, que muitos deles fugiram de um regime autoritário, a apoiar hoje um partido anti-imigração, anti-minorias e, no fundo, anti-tudo o que não encaixa no seu molde. Se não se tem a “tonalidade de pele certa” ou a religião certa, não se serve. Isto devia alarmar-nos a todos.
MS: Muitos dizem que o voto no Chega é um voto de protesto contra o sistema político português. Concorda?
LE: Eu acho essa explicação insuficiente. Pode haver algum descontentamento, algum ressentimento, admito isso. Mas há sobretudo uma enorme falta de compreensão ou conhecimento sobre o que este partido realmente é. Falo com muitas pessoas na comunidade e muitas nem sequer se apercebem de que estão a votar num partido extremista.
Quando lhes pergunto se sabem que André Ventura admira Trump e Bolsonaro, muitos encolhem os ombros. É que todos estamos a ver o que Trump está a fazer nos Estados Unidos – deportações em massa, crianças detidas, cidadãos naturalizados expulsos, violência legitimada, assassínios em praça púbica… o ICE, tal como funciona hoje, faz lembrar a PIDE: uma polícia política ao serviço do poder. E é isto que Ventura defende.
MS: Há também uma perceção errada sobre o papel do Presidente da República?
LE: Completamente. Metade ou mais daquilo que Ventura promete fazer não é exequível. O Presidente da República não pode prender ninguém, não pode colocar corruptos na cadeia, não pode castrar pedófilos, nada disso. É pura bazófia. Mas os eleitores do Chega não sabem como funciona o sistema político português, nem quais são os reais poderes do Presidente.
O que me revolta profundamente é ouvir o discurso dos “50 anos de corrupção” quando o próprio partido está cheio de casos: ladrões de malas, de combustível, pedófilos, agressores domésticos, deputados envolvidos em fraudes, pessoas que não pagam pensões de alimentos, até gente que roubou caixas de esmolas em igrejas. É patético.
MS: Os partidos tradicionais também têm responsabilidade nesta ascensão de um partido de extrema-direita, nomeadamente junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo?
LE: Claro que sim. A responsabilidade é partilhada. Mas sabe, eu não tenho capacidade para estudar isto cientificamente, mas alguém devia fazê-lo porque de facto eu noto o seguinte: muitos emigrantes que hoje votam Chega chegaram aos países de acolhimento sem nada, construíram uma vida melhor e hoje vivem com algum conforto, mas esqueceram-se do que passaram. Quando ouvem discursos extremistas a dizer que os imigrantes são criminosos, ilegais ou vivem de subsídios, acreditam sem questionar, sem verificar. E isso simplesmente não corresponde à realidade.
MS: Que leitura faz do futuro de Portugal, perante este crescimento da extrema-direita?
LE: Preocupante! É isso. Esse discurso de Ventura pega, (e pega nas comunidades, pega no Alentejo profundo, que sempre foi tradicionalmente de esquerda, uma coisa que eu não consigo perceber) porque é o discurso de taberna, de café. E, portanto, estas pessoas identificam-se com este discurso, porque é o mesmo discurso que se ouve se formos a uma padaria ou a um bar aqui do bairro. É a conversa que está à mesa, é este tipo de conversa… “estás a ver? Isto é tudo ladrões, todos corruptos”. Mas o que é preocupante é que depois esse discurso entranha-se, no pensamento das pessoas. Isto é preocupante até porque este tipo de políticos são tipo vampiros, sentiram o sangue e agora não vão parar e vão ser muitos mais.
MS: Considera que esta força do Chega pode ameaçar a tradicional direita portuguesa?
LE: Ameaça a direita e o centro-esquerda e centro-direita e os partidos moderados e democráticos. Porque o que está em causa aqui, eu sei que esta palavra diz muito pouco ao eleitorado desse partido, mas de facto é a nossa democracia e a nossa vida comum que está em causa. E isto não é uma retórica, está mesmo em causa. A democracia e o país como nós o conhecemos e como nós entendemos. Portugal sem democracia deixa de ser Portugal, mas este eleitorado claramente não entende.
MB/MS







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