O que esperar da economia canadiana em 2026?

Depois de vários anos marcados por inflação elevada, taxas de juro restritivas, instabilidade geopolítica e profundas mudanças no contexto económico global, 2026 apresenta-se como um ano decisivo para o Canadá. A grande questão já não é apenas como o país conseguiu atravessar este ciclo turbulento, mas sim que tipo de crescimento (ou de contenção) poderá agora esperar-se, num cenário ainda atravessado por incertezas externas e desafios estruturais internos.
A economia canadiana entra neste novo ano com alguns sinais encorajadores: a inflação abrandou de forma consistente, a política monetária começa a estabilizar e o país conseguiu, em comparação com outras economias desenvolvidas, reduzir as taxas de juro de forma mais acentuada. Ainda assim, os custos de financiamento permanecem elevados para famílias e empresas, o mercado da habitação continua sob pressão e o investimento privado mostra-se cauteloso, sobretudo face às incertezas no comércio internacional e às relações com os Estados Unidos.
A tudo isto somam-se mudanças estruturais profundas, como a recente revisão da política de imigração, que deverá resultar numa redução significativa da população residente não permanente, com impactos diretos no mercado de trabalho, no crescimento económico e na produtividade. Num país que envelhece rapidamente e que enfrenta uma crise habitacional persistente, estas transformações levantam questões fundamentais sobre a capacidade de sustentar o crescimento a médio prazo.
Para ajudar a compreender melhor o que 2026 poderá reservar à economia canadiana, o Milénio falou com o Prof. Pedro Antunes, economista-chefe do The Conference Board of Canada, uma das mais respeitadas instituições de análise económica do país. Nesta entrevista, Pedro Antunes analisa as perspetivas para o crescimento económico, o impacto das decisões de política monetária, os desafios do mercado de trabalho, o papel das relações Canadá–Estados Unidos e os fatores estruturais que poderão condicionar o desempenho económico nos próximos anos.
Uma leitura essencial para perceber onde estamos e, sobretudo, para onde caminhamos.
Milénio Stadium: Após um período marcado por inflação elevada, taxas de juro restritivas e incerteza global, que tipo de ano económico podemos esperar para o Canadá em 2026? Será um ano de consolidação, crescimento moderado ou estão a surgir novos riscos?

Pedro Antunes: A boa notícia é que alguns dos desafios do passado estão a começar a dissipar-se. Por exemplo, a administração norte-americana parece estar a aliviar a guerra comercial – as taxas efetivas de tarifas com que empresas e famílias nos Estados Unidos lidam atualmente rondam os 14%, um valor muito distante dos 35% a 50% que chegaram a ser anunciados pelo Presidente Trump no início da guerra comercial. Isto significa que as economias dos Estados Unidos e global estão a comportar-se um pouco melhor do que o inicialmente esperado, embora persista muita incerteza.
Além disso, a inflação abrandou na maioria das economias desenvolvidas e as taxas diretoras desceram. O Canadá teve um desempenho bastante positivo no combate à inflação e a taxa de juro de referência desceu de forma mais acentuada do que em muitas outras jurisdições. Com alguma estabilidade assumida nas exportações para os Estados Unidos, este contexto deverá permitir um crescimento moderado do PIB real em 2026, cerca de metade do ritmo considerado normal, embora os ganhos no emprego devam continuar fracos. Naturalmente, as decisões políticas da administração norte-americana continuam a ser uma incógnita, e novos riscos geopolíticos já emergiram nos primeiros dias de 2026.
MS: Com a política monetária a entrar potencialmente numa fase menos restritiva, que impacto antevê em 2026 no consumo das famílias, no mercado da habitação e no investimento empresarial? Existem sinais claros de uma recuperação sustentável?
PA: A nossa avaliação é que o Banco do Canadá deverá manter a taxa diretora no nível atual, a menos que a economia entre em contração. A inflação subjacente continua no limite superior da meta do Banco, e a própria instituição indicou que a taxa de juro se encontra agora num nível considerado neutro.
Mesmo que não se prevejam novas descidas da taxa diretora, é importante notar que as taxas de crédito, especialmente para prazos mais longos, estão mais ligadas às yields das obrigações de longo prazo e não desceram tanto quanto a taxa do Banco do Canadá. Assim, as taxas de empréstimo para empresas e famílias, como as hipotecas a cinco anos, mantêm-se bem acima dos níveis observados antes e durante a pandemia.
A nossa previsão é que o mercado da habitação continue estagnado, devido aos elevados custos de financiamento, aliados a um declínio da população.
O investimento privado não residencial continuará a ser travado pela incerteza em torno das tarifas e por uma eventual renegociação do CUSMA. Há alguma esperança de que as iniciativas do governo federal em grandes projetos possam estimular a atividade, mas será necessário tempo até se observar uma recuperação significativa do investimento em capital empresarial.
MS: O comércio internacional e as tensões geopolíticas continuam a influenciar fortemente a economia canadiana. Em 2026, de que forma as relações Canadá–Estados Unidos, a revisão do CUSMA e eventuais políticas protecionistas poderão afetar o crescimento económico do país?
PA: Estes são, a nosso ver, os principais fatores que continuarão a conter o crescimento económico do Canadá em 2026. Temos esperança de que um CUSMA renovado possa trazer alguma estabilidade e ajudar a revitalizar as exportações e o investimento, embora os efeitos mais significativos devam sentir-se sobretudo em 2027.
MS: O mercado de trabalho tem mostrado sinais mistos, com escassez de mão de obra em alguns setores e desaceleração noutros. Que mudanças estruturais antecipa no emprego e na produtividade em 2026, e que desafios enfrentarão trabalhadores e empregadores?
PA: O governo federal implementou uma mudança significativa na política de imigração que levará a uma redução de quase um milhão de residentes não permanentes atualmente a viver e trabalhar no Canadá. Esta política alterou drasticamente o crescimento populacional total, de um ritmo próximo dos 3% em 2023 e 2024 para quedas esperadas em 2026 e 2027.
A diminuição do número de residentes não permanentes, associada às reformas dos *baby boomers*, irá apertar o mercado de trabalho este ano, apesar do crescimento muito fraco do emprego. Este contexto favorece os trabalhadores, mas representa um desafio considerável para as empresas que dependem fortemente deste tipo de mão de obra, sobretudo se enfrentarem desajustes de competências.
MS: Tendo em conta a crise da habitação, o envelhecimento da população e as recentes alterações na política de imigração, que fatores estruturais deverão mais limitar o desempenho económico do Canadá em 2026? E que decisões políticas serão cruciais para evitar um crescimento fraco a médio prazo?
PA: A alteração da política de imigração é um dos principais fatores de constrangimento. O Canadá pretende reconstruir-se investindo em habitação, infraestruturas de transporte e recursos naturais, mas para isso será essencial desenvolver trabalhadores qualificados nas áreas técnicas e de ofícios especializados, especialmente se o talento deixar de vir do exterior.
A médio prazo, o país precisa de revitalizar o investimento privado em capital produtivo. Neste aspeto, estamos atrás dos Estados Unidos e de muitas outras economias desenvolvidas, o que explica em grande parte o nosso fraco desempenho em produtividade. Temos esperança de que os esforços recentes dos governos federal e provinciais possam ajudar, mas a estabilidade no comércio internacional será fundamental para que o investimento ganhe verdadeiro impulso.
MB/MS







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