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“O First foi a alma e o coração da comunidade portuguesa” – Prof. José Carlos Teixeira

DR.

Quando o Saturnia atracou em Halifax, em 1953, trazia a bordo os primeiros imigrantes portugueses que chegaram legalmente ao Canadá. Eram sobretudo homens, sozinhos, com contratos para trabalhar na agricultura e nos caminhos de ferro. Três anos depois, em 1956, alguns desses pioneiros fundavam em Toronto o First Portuguese Canadian Club, o primeiro clube português de Toronto. Durante décadas, foi ali que os recém-chegados encontraram amigos, trabalho, casa e um pedaço de Portugal onde se falava a sua língua.

Setenta anos depois, a comunidade é outra. Cresceu, mudou-se para outras áreas da cidade ou mesmo outras cidades da Grande Área de Toronto ou Ontário e tem já filhos, netos e bisnetos nascidos no Canadá. Ao longo dos seus 70 anos de existência, o First atravessou momentos de glória, crises, e mudou de morada mais de uma vez. Mas continua de portas abertas.

Para compreender o papel que o clube teve na construção da comunidade portuguesa, na divulgação da cultura e no ensino da língua, e para pensar o que o futuro lhe reserva, falámos com o Prof. José Carlos Teixeira, investigador que há décadas estuda a presença portuguesa no Canadá e conhece como poucos a comunidade da Grande Área de Toronto. Uma conversa sobre memória, identidade e as transformações dos luso-canadianos que se formaram aquilo a que os sociólogos chamam uma comunidade «institucionalmente completa».

Milénio Stadium: O First Portuguese Canadian Club nasceu em 1956, apenas três anos depois da chegada do Saturnia a Halifax com os primeiros imigrantes portugueses legais. O que terá levado aqueles pioneiros, recém-chegados e ainda com tão pouco, a sentir tão cedo a necessidade de criar um clube? Que papel teve o First nesses primeiros anos de adaptação a um país novo? 

José Carlos Teixeira. (DR).

JCT: Para perceber o First, é preciso pô-lo no seu contexto histórico. Nós, comunidade portuguesa, somos um grupo relativamente jovem no Canadá. Na década de 50 chegaram poucos milhares de portugueses (cerca de 17.000), na maioria homens com contratos de trabalho para a agricultura e na construção dos caminhos de ferro, e a maior parte fixou-se no Ontário. Em 1956, que nasceu o First Portuguese em Toronto. Nesse mesmo ano surgiu em Montreal a Associação Portuguesa do Canadá. Durante toda a década de 50, estas foram as duas únicas associações portuguesas no país, e temos a sorte de ainda as ter entre nós.

Em Toronto, os primeiros portugueses instalaram-se na zona de Kensington Market e de Alexandra Park, um bairro operário por onde já tinham passado judeus, italianos, polacos e ucranianos. Ficava perto dos empregos, no centro da cidade, e tinha aquele mercado que era então conhecido como o mercado judeu. Nos anos 50, os homens alugavam quartos; nos anos 60 começaram a chegar as famílias, que passaram a arrendar casas. Foi ali o embrião da comunidade portuguesa. Não é por acaso que o primeiro comércio português foi um restaurante na Nassau Street, do senhor Sousa, um pioneiro chegado em 1953, que tive a sorte de entrevistar mais de uma vez e cujas conversas ainda guardo religiosamente em cassetes antigas. Fala-se muito na Augusta, mas foi na Nassau que efetivamente apareceu o primeiro estabelecimento comercial da comunidade portuguesa. E é nesse mesmo contexto, numa Toronto que já era multicultural, que aparece também na Nassau Street (Nassau e Lippincott) a primeira sede do First Portuguese Canadian Club.

Qual foi o seu papel? Para além de um local de encontro, era um sítio onde as pessoas se sentiam em casa. Falava-se português, cheirava a cultura portuguesa, à nossa comida, havia atividades culturais, desporto, ensino da língua. Ia-se lá porque lá estavam os amigos e os familiares. E muitas vezes esquecemos outra componente: era no First que se conseguiam referências para arrendar uma casa ou um apartamento, e era lá que se arranjava trabalho. Quantas pessoas conheceram alguém no First e, através de patrões portugueses, encontraram emprego! Com as suas múltiplas atividades e serviços, o First ajudou muitos dos nossos, sobretudo da primeira geração, a integrarem-se na sociedade de acolhimento sem terem de abandonar as suas raízes.

MS: Ao longo destas sete décadas, de que forma o First Portuguese contribuiu para organizar e dar coesão à comunidade portuguesa em Toronto? E como é que o clube acompanhou a própria geografia da comunidade, desde a zona de Kensington e da Little Portugal até à mudança de tantas famílias para os subúrbios?

JCT: Nas décadas de 50, 60 e 70, e até ao início dos anos 80, o First foi a âncora da comunidade. Diria mesmo, em bom inglês, que «the First was the heart and soul of the Portuguese community». Durante muito tempo, para além do First existiram muito poucos clubes portugueses. Senão vejamos: nos anos 60 surgiram a Casa da Madeira (1963) e a Casa do Benfica (1968); nos anos 70, apenas mais algumas, como o Amor da Pátria (1971), o Asas do Atlântico (1973), o Portuguese Cultural Centre of Mississauga (1974) e a Associação Cultural do Minho (1977). Portanto, entre os anos 50 e finais dos anos 70 existiam apenas 7 clubes e associações. Só a partir dos anos 80 assistimos a um crescimento importante do movimento associativo comunitário com o nascimento de mais 10 clubes/associações. Ou seja, ao longo dos anos, criámos aquilo a que os sociólogos chamam uma comunidade «institucionalmente completa». No centro de Toronto, na nossa Little Portugal, construímos um bairro étnico e um enclave económico com uma identidade forte e bem visível, com associações socioculturais e religiosas, empresas e comunicação social. E o First apareceu no momento-chave, na fase embrionária dessa construção.

Há outra vertente que não podemos esquecer: o peso que o First tinha junto dos diferentes níveis de governo. Era paragem obrigatória para os políticos canadianos, em época de eleições e não só, que lá iam apresentar-se à comunidade. E também para as autoridades portuguesas. Os políticos respeitavam o First.

Depois veio uma fase de transição natural, que atingiu todas as organizações e a própria comunidade. Com a quebra drástica da imigração, o First ressentiu-se muito. Houve crises diretivas e financeiras, que levaram à venda do edifício onde, entretanto, se havia instalado (no 722 da College Street). E aqui abro um parêntesis: admiro a visão do Manuel DaCosta, que comprou aquele edifício magnífico, no coração da comunidade. Ao fazê-lo, preservou parte da nossa memória, da nossa história e da nossa presença em Toronto. Hoje, aquele complexo que inclui para além do antigo edifício do First, a Camões Square, o Portuguese Canadian Walk of Fame e a magnífica estátua do Anjo da Guarda, continua a ser uma âncora da comunidade.

Entretanto, o First teve de seguir novos rumos, acompanhando o corredor dos imigrantes, para onde muitos portugueses se foram deslocando, na zona da Rogers Road e da Dufferin. Hoje está na Caledonia Road. Nas últimas quatro décadas assistimos a uma mobilidade residencial e a uma suburbanização muito acentuadas. As nossas comunidades passaram de um certo isolamento para uma integração residencial, social e cultural. O First teve de se adaptar a essa nova realidade.

MS: Entre as múltiplas atividades que fizeram história neste clube – folclore, futebol, festas, música, gastronomia… – temos que falar da escola de português do First, que foi, durante gerações, o lugar onde muitos filhos e netos de imigrantes aprenderam a língua dos pais e dos avós. Que importância teve este trabalho na preservação da identidade luso-canadiana?

JCT: Há que realçar o trabalho pioneiro e extraordinário da escola do First. Acompanhei-a durante mais de duas décadas e tinha lá bons amigos. Se o First foi a âncora da comunidade durante décadas, a sua escola foi um ponto de referência obrigatório. Desempenhou um papel extraordinário junto dos mais jovens, na aprendizagem do português, a língua materna dos pais e dos avós.

Conheço muitos jovens que passaram pela escola do First e que foram muito longe na vida. Quando falo com eles, reconhecem a importância de terem aprendido português. O saber não ocupa lugar, e o português é uma das línguas mais faladas no mundo. Não tenho dúvida de que a escola do First teve um papel importantíssimo na preservação da nossa língua, da nossa cultura e da identidade luso-canadiana. Muito se deve a ela, que foi pioneira neste campo.

MS: Já agora, que desafios enfrenta hoje o ensino do português, numa comunidade em que as novas gerações já nasceram e cresceram no Canadá?

JCT: Deixo os pormenores pedagógicos para quem está ligado ao ensino, mas os números ajudam a perceber o problema. Segundo os Censos de 2021, são cada vez menos as pessoas de origem portuguesa que declaram o português como língua materna. É um facto. No Ontário a situação é melhor, e em Toronto, o grande coração da comunidade, onde ainda se sente o pulsar da nossa língua e da nossa cultura, é mais favorável ainda. Os poucos portugueses que continuam a chegar ao Canadá ainda vêm, sobretudo, para Toronto, e isso rejuvenesce os clubes, as associações e as escolas de português. A preocupação com a sobrevivência da língua aplica-se mais às outras províncias e cidades, onde, a curto prazo, digamos dez anos, os números serão ainda mais preocupantes.

Hoje, cerca de metade dos portugueses no Canadá já nasceram cá, e caminhamos para a quarta geração. Com os casamentos mistos, muitos destes jovens já não falam português, ou falam muito pouco. À medida que os seus níveis de educação aumentam, e as estatísticas mostram uma clara mobilidade socioeconómica das novas gerações, é natural que a assimilação também aumente. Muitos portugueses sentem que, no Canadá, a sua cultura está em transição. Mas separá-los da cultura e da língua de origem seria despojá-los da sua identidade.

Precisamos de mais estudos sobre a segunda, a terceira e, em breve, a quarta geração. O que sabemos sobre elas? Qual é a sua relação com a língua e a cultura dos pais? Como em todos os grupos étnicos, há jovens que rejeitam as raízes e outros que as redescobrem mais tarde. E eu tenho visto muito isso, sobretudo entre os jovens com quem lido na universidade: interessam-se por Portugal, a terra dos pais, seguem o futebol por causa do Ronaldo, ouvem música portuguesa, viajam até lá. Nota-se um ressurgimento, um redescobrir das raízes.

MS: Muitos clubes e associações portuguesas enfrentam hoje o envelhecimento dos sócios, a dificuldade em atrair os mais jovens e a dispersão da comunidade pela Grande Toronto. Aos 70 anos, que futuro vê para o First Portuguese?

JCT: Não sou pessimista, mas também não posso ignorar a realidade. Estamos no Canadá há apenas sete décadas. A primeira geração veio para ficar, e a herança cultural portuguesa parece bem-adaptada e integrada na sociedade de acolhimento. Mas não é evidente que a segunda e a terceira gerações sigam o caminho dos pais e dos avós, nem que sejam capazes de preservar a cultura e as tradições.

A dualidade cultural, ou mesmo o conflito cultural, é talvez a melhor forma de definir a juventude luso-canadiana, seja de origem continental, açoriana ou madeirense. Se para uns a identidade étnica é uma fonte de enriquecimento, para outros pode ser um conflito que os leva a rejeitar o seu património. Se no futuro conseguirão reconciliar essas duas partes de si continua a ser uma questão em aberto.

É neste contexto que olho para o First. O First teve um papel histórico enorme, mas hoje, como todos os clubes e associações, tem de se adaptar às novas realidades, às novas necessidades e às preferências socioculturais das gerações mais jovens, já nascidas no Canadá e que muitas vezes não falam português.

MB/MS. Fotos: F.P.C.C.C .

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