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O fim do ensino integrado de Línguas Internacionais: um retrocesso para a diversidade em Ontário

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A decisão do Toronto Catholic District School Board de terminar o ensino integrado das Línguas Internacionais está a gerar preocupação entre vários agentes educativos. Mais do que uma mudança organizacional, é vista como um retrocesso na promoção da diversidade, inclusão e valorização cultural, com possíveis impactos no desenvolvimento académico e identitário dos alunos, especialmente os de origem portuguesa.

Maria Rosário Gaspar, Coordenadora de Ensino Português – Canadá  (Camões, I.P. Instituto da Cooperação e da Língua)

Como recebeu a decisão do TCDSB de terminar o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais no horário regular?

Recebi a decisão com profundo desagrado e preocupação, uma vez que esta medida interrompe um modelo de ensino integrado que tem sido fundamental para a promoção das línguas e culturas Internacionais no horário regular.

Na sua opinião, que impacto esta medida terá no desenvolvimento linguístico e cultural dos alunos, especialmente os de origem portuguesa?

Esta medida representa um retrocesso significativo e terá impactos profundos, e a meu ver bastante negativos, no percurso formativo dos alunos. Ao retirar as Línguas Internacionais, do horário regular, quebram-se os pilares de um ensino que se pretendia inclusivo, dinâmico e verdadeiramente integrado na vida escolar. Para os alunos de origem portuguesa, mas não só, a presença da língua no currículo regular confere uma validação institucional à sua herança cultural. Ao remeter o ensino da Língua para o regime extracurricular , transmite-se a mensagem implícita de que a língua é “secundária” ou menos importante que as disciplinas core. Isso afeta a autoestima linguística e o orgulho de pertença à comunidade.

Considera que as alternativas propostas (como aulas fora do horário escolar) são suficientes para garantir a continuidade da aprendizagem da língua portuguesa? Porquê?

O ensino integrado garantia que todos os alunos, independentemente da disponibilidade logística dos pais, tivessem acesso à língua. Com esta alteração muitos alunos deixarão de frequentar as aulas por dificuldades de transporte ou por as aulas  passarem  a competir com atividades desportivas ou outras, o que inevitavelmente levará a uma redução no número de alunos. Por outro lado, a aprendizagem de uma língua exige consistência e imersão. No modelo integrado, a aprendizagem do Português, ou outra Língua Internacional,  faz parte do ecossistema da escola. No modelo extracurricular a carga horária tende a ser menos orgânica.Perde-se a oportunidade de criar pontes interdisciplinares com outras matérias que ocorrem durante o dia, limitando o desenvolvimento do “português académico”, no caso concreto, em favor de um conhecimento apenas rudimentar ou familiar.

Que mensagem gostaria de deixar ao Toronto Catholic District School Board e ao Governo Provincial sobre a importância deste programa?

O Programa de Línguas Internacionais em regime integrado não é apenas um “complemento” curricular; é um pilar de equidade educativa e um motor de valorização cultural que define a identidade de Ontário.  A ciência é inequívoca: alunos bilingues desenvolvem capacidades cognitivas superiores, como maior flexibilidade mental e capacidade de resolução de problemas. Ao desintegrar o ensino das Línguas Internacionais do horário regular, está-se a retirar aos alunos uma ferramenta competitiva no mercado de trabalho global. A Língua Portuguesa, em particular, é uma das línguas mais faladas no mundo e um ativo estratégico para o Canadá e o modelo integrado garantia o acesso universal. Remeter o ensino das Línguas Internacionais para o regime extracurricular é criar uma barreira. Nem todas as famílias têm disponibilidade para levar os filhos à escola no horário extra-curricular, para que  possam continuar a estudar a sua língua de herança. Esta decisão promove a desigualdade e contradiz as políticas de inclusão e diversidade que caracterizam o Ontário. Por outro lado as comunidades da diáspora, e a  comunidade portuguesa em particular,  tem sido, historicamente, um dos pilares da construção desta província.Esta medida é recebida como um sinal de desinvestimento e de desvalorização de uma comunidade que sempre apoiou as escolas locais. O ensino integrado é um direito cultural que não deve ser sacrificado.Manter o ensino integrado é investir no sucesso escolar, na saúde mental dos alunos (através do reforço da sua identidade) e na vitalidade do tecido multicultural de Ontário. As Línguas Internacionais não devem ser um “extra” após o toque de saída; devem continuar a ser parte do coração da escola.


Teresa Luiz, Professora 

Como recebeu a decisão do TCDSB de terminar o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais no horário regular?

Recebi a notícia do fim do programa com uma tristeza profunda — foi como perder algo de imenso valor, uma parte essencial da minha carreira que jamais poderá ser substituída.

Na sua opinião, que impacto esta medida terá no desenvolvimento linguístico e cultural dos alunos, especialmente os de origem portuguesa?

Como é evidente, o impacto desta medida nos nossos alunos não será imediato — afinal, durante anos, este programa fez parte do seu quotidiano. No entanto, serão as gerações mais novas as mais afetadas: deixarão de ter contacto direto com a língua e a cultura portuguesas.

Toda essa responsabilidade passa agora a recair sobre pais e educadores. Para alguns, esse legado continuará vivo; para outros, perder-se-á por completo.

Considera que as alternativas propostas (como aulas fora do horário escolar) são suficientes para garantir a continuidade da aprendizagem da língua portuguesa? Porquê?

Tudo dependerá da forma como o programa vier a ser implementado. Neste momento, ainda não há informação clara. Se forem criadas muitas turmas mistas — com crianças de diferentes idades e níveis de aprendizagem — será mais difícil garantir a continuidade e a qualidade do ensino.

A distância até às escolas onde estas turmas poderão ser oferecidas também terá um impacto significativo. No entanto, é ainda demasiado cedo para formar uma opinião concreta, uma vez que nada foi efetivamente implementado até agora.

Que mensagem gostaria de deixar ao Toronto Catholic District School Board e ao Governo Provincial sobre a importância deste programa?

Ficamos todos mais pobres — cultural e humanamente. As línguas aproximam-nos, constroem pontes entre pessoas e comunidades, e promovem o entendimento mútuo. Num mundo cada vez mais dividido, preservar e valorizar a diversidade linguística não é apenas importante — é essencial. As línguas trazem paz porque nos ensinam a ouvir, a compreender e a respeitar o outro.


Tina M. Neto, Professora

Como recebeu a decisão do TCDSB de terminar o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais no horário regular?

Eu recebi a decisão do TCDSB através de uma colega, embora há anos eu ouvisse que o programa não tinha condições para continuar.

Na sua opinião, que impacto esta medida terá no desenvolvimento linguístico e cultural dos alunos, especialmente os de origem portuguesa?

Considero que as alternativas propostas, como aulas fora do horário escolar, são suficientes para assegurar a continuidade da aprendizagem da língua portuguesa.

Considera que as alternativas propostas (como aulas fora do horário escolar) são suficientes para garantir a continuidade da aprendizagem da língua portuguesa? Porquê?

Frequentei igualmente o First Portuguese Cultural Centre na juventude, onde assistia a aulas de português após o horário escolar regular, durante duas horas diárias, de segunda a sexta-feira. Os meus pais suportavam as propinas e escolheram privilegiar a aprendizagem da língua portuguesa em detrimento de atividades como dança ou futebol.

Que mensagem gostaria de deixar ao Toronto Catholic District School Board e ao Governo Provincial sobre a importância deste programa?

O programa é importante e deveria ser oferecido após o horário das aulas do ensino regular (das 16h00 às 17h00) e também aos sábados. Existe apenas uma minoria de alunos com um aproveitamento mais elevado em português. Para muitos alunos, trinta minutos diários no ensino regular não são suficientes. Os pais também desempenham um papel fundamental na promoção e valorização da nossa cultura em casa.


João Silva, Pai de aluno

Como é que a decisão do Toronto Catholic District School Board de terminar o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais vai afetar o seu filho e a vossa família?
Vai afetar bastante. O meu filho estava a aprender português na escola, de forma natural, com os colegas. Era algo integrado na rotina dele. Agora, vamos ter de encontrar alternativas fora do horário escolar, o que nem sempre é fácil com horários de trabalho. Sinto que estamos a perder uma oportunidade importante.

Qual é a importância da aprendizagem da língua portuguesa para si e para o desenvolvimento cultural e identidade do seu filho?

É fundamental. A língua é uma ligação direta às nossas raízes, à família e à cultura. Sem o português, o meu filho perde uma parte importante da identidade dele.

Consideraria inscrever o seu filho em programas alternativos fora do horário escolar para continuar a aprender português? Porquê?

Sim, consideraria, mas com dificuldades. Entre trabalho e outras atividades, pode ser complicado. Ainda assim, acho importante tentar manter o contacto com a língua.

Que medidas gostaria de ver por parte do governo ou das escolas para garantir a continuidade do ensino da língua portuguesa?

Gostaria de ver mais apoio aos programas de línguas, talvez financiamento ou integração parcial no currículo. Não devia ser algo descartado tão facilmente.


Débora de Melo, Mãe de aluno

Como é que a decisão do Toronto Catholic District School Board de terminar o ensino integrado do Programa de Línguas Internacionais vai afetar o seu filho e a vossa família?

Para nós, é uma grande perda. A escola era um espaço acessível e inclusivo para manter a língua viva. Sem esse apoio, vai ser mais difícil garantir essa continuidade em casa, especialmente porque vivemos num ambiente maioritariamente “inglês”.

Qual é a importância da aprendizagem da língua portuguesa para si e para o desenvolvimento cultural e identidade do seu filho?

Mais do que uma língua, é uma herança. Quero que o meu filho consiga comunicar com os avós, entender as tradições e sentir orgulho nas origens. Isso ajuda muito no desenvolvimento pessoal e no sentido de pertença.

Consideraria inscrever o seu filho em programas alternativos fora do horário escolar para continuar a aprender português? Porquê?

Sim, sem dúvida. Mesmo que seja mais exigente, vou procurar opções como escolas comunitárias ou aulas ao fim de semana. Não quero que ele perca essa ligação.

Que medidas gostaria de ver por parte do governo ou das escolas para garantir a continuidade do ensino da língua portuguesa?

As escolas deviam trabalhar com as comunidades para manter estes programas. Também seria importante haver mais investimento e reconhecimento da importância das línguas internacionais no desenvolvimento das crianças.

 Romulo M. Ávila/MS

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