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O amor tem idade? O que diz a ciência?

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O amor tem idade? A resposta pode parecer simples, mas continua a gerar debate, especialmente quando se trata de relações em que um dos parceiros é significativamente mais velho do que o outro. Apesar de cada vez mais comuns, estes relacionamentos continuam a provocar reações sociais polarizadas. Se, por um lado, desafiam normas culturais rígidas, por outro, colocam questões legítimas sobre compatibilidade, poder e expectativas. Mas o que diz a ciência sobre tudo isto?

As relações com grande diferença de idade, tipicamente mais de 10 anos, continuam a enfrentar estigma social. Estudos demonstram que estas uniões são frequentemente vistas com desconfiança, sobretudo quando o homem é mais velho e a parceira significativamente mais nova, o que remete para dinâmicas históricas de poder, dependência económica e reprodução de papéis tradicionais de género. Curiosamente, quando os papéis se invertem, ou seja, quando é a mulher que é mais velha, o julgamento tende a ser ainda mais severo. Isto revela um preconceito persistente: a mulher é frequentemente valorizada pela juventude e atratividade, enquanto o homem é associado a estabilidade e estatuto. A inversão deste paradigma continua a ser encarada por muitos como “anormal” ou “interesseira”, ainda que sem qualquer base empírica que o comprove. Na realidade, se o elemento mais velho da relação for do género feminino, os comentários sarcásticos não se fazem esperar. “A sociedade aceita melhor as relações em que a mulher é mais nova do que o homem do que o inverso”, confirma a psicóloga e sexóloga Vânia Beliz. Os preconceitos são maiores, sim, mas alguém do sexo masculino que se apaixone por uma ou um jovem (ainda que maior de idade) também não escapa às críticas – frequentemente, mais dirigidas à mulher do que ao homem em questão. Nesse caso, a especialista nota que “a sociedade diz que tem de haver algum interesse por trás, que ela se quer aproveitar”. Quando as mulheres são mais velhas do que os(as) parceiros(as), geralmente, têm dificuldade em assumir essas relações. Vânia Beliz conta que “algumas acabam por castrar aquilo que sentem, com medo daquilo que as pessoas possam dizer”. O receio desse julgamento tanto pode levá-las a terminar um relacionamento amoroso ou a vivê-lo em segredo. Por muita autoconfiança e determinação que se tenha, ninguém vive numa bolha tal, que seja imune aos efeitos de observações como ‘o que é que faz uma mulher de 50 anos com um homem de 30?’. Todavia, infelizmente, a sociedade entende que é uma perda de tempo um jovem envolver-se romanticamente com alguém com mais idade do que ele. “Continua a associar-se charme aos homens com mais idade e velhice às mulheres da mesma faixa etária”, afirma a psicóloga e sexóloga.

Segundo a assistente social clínica Tara Denneny, quando olhamos além da idade “ideal” do parceiro de um indivíduo e, em vez disso, perguntamos o que ele considera aceitável, as coisas ficam mais interessantes. Por exemplo, um estudo de 2012 descobriu que os homens, em média, aceitam relações com mulheres até 10 anos mais jovens e 4,5 anos mais velhas. As mulheres, por outro lado, aceitam relações com homens até oito anos mais velhos e cinco anos mais novos.

A atração por parceiros mais velhos ou mais novos pode ter origens diversas. A psicologia evolutiva sugere que mulheres tendem a procurar estabilidade, proteção e recursos, enquanto os homens valorizam juventude e fertilidade — características associadas à reprodução. No entanto, estas explicações são frequentemente criticadas por não contemplarem fatores culturais e contextuais mais complexos. Outras teorias defendem que o que atrai nestes relacionamentos são as diferenças complementares. Parceiros mais velhos podem representar maturidade emocional, segurança e sabedoria, enquanto os mais jovens trazem vitalidade, espontaneidade e uma nova perspetiva sobre a vida. Esta complementaridade pode ser benéfica, mas também implica desafios — sobretudo se não houver uma base sólida de respeito e comunicação.

A investigação sobre casais com grande diferença de idade revela dados interessantes. Segundo um estudo publicado no Journal of Population Economics, casais com idades semelhantes reportam, em média, níveis mais altos de satisfação conjugal. No entanto, outras investigações indicam que, se a diferença etária não for acompanhada por desigualdade emocional ou económica, a qualidade da relação pode ser igualmente elevada.

Outro fator crucial é a perceção externa. Um estudo da Universidade de Colorado concluiu que a desvalorização social destes casais pode ter impacto direto na relação. A pressão, os comentários e a falta de aceitação familiar ou social podem gerar stress, afetando a autoestima e a estabilidade do casal. Assim, mais do que a idade em si, é a forma como o casal lida com a pressão externa que influencia a longevidade da relação. O contexto cultural também influencia as expectativas. Por exemplo, em muitos países do sul da Europa, como Portugal, ainda existe alguma resistência, especialmente quando a diferença é muito pronunciada. No entanto, entre as gerações mais jovens, nota-se uma abertura crescente, reflexo da globalização e da influência dos media e redes sociais.

Na realidade, a atração por pessoas com mais idade pode estar ligada a um desejo de se ser compreendido. “Os homens mais velhos têm outra maturidade”, o que pode ajudar a explicar o fenómeno, segundo a psicóloga e sexóloga Vânia Beliz. Inclusivamente, no que toca à sexualidade, parece haver sincronia e equilíbrio. “Normalmente, ainda que tenham mais idade, os homens têm tanto ou mais desejo sexual do que as jovens companheiras”, refere a especialista. Já o mesmo não pode ser dito em relação aos casais em que a mulher conta mais dígitos na sua cronologia. “Aí, pode haver um desfasamento do desejo”, afirma psicóloga e sexóloga.

Apesar dos desafios, muitas relações com grandes diferenças de idade são saudáveis, duradouras e satisfatórias. O segredo parece residir em fatores como comunicação clara e honesta, partilha de valores e objetivos de vida; respeito mútuo e ausência de julgamentos e apoio social ou, em caso de ausência, resiliência para enfrentar críticas externas. Estes ingredientes não são exclusivos de casais com idades diferentes, mas ganham uma importância redobrada neste contexto, precisamente por existirem mais obstáculos externos e internos a ultrapassar.

Com o aumento da esperança média de vida, a maior autonomia financeira das mulheres e a crescente valorização da individualidade, é provável que as relações com grande diferença de idade se tornem mais comuns e socialmente aceites. As fronteiras entre juventude e maturidade estão a tornar-se mais fluidas, e a idade cronológica já não determina, de forma rígida, comportamentos, desejos ou papéis sociais. À medida que estas relações se tornam mais visíveis nos media, na cultura popular e nas redes sociais, também se tornam menos “tabu”. Este fenómeno, por si só, é um sinal positivo: mostra que a sociedade está, gradualmente, a abrir espaço para formas de amar que fogem aos padrões convencionais.

De qualquer modo, a diferença de idade num relacionamento continua a ser um tema que provoca debate, divide opiniões e desafia normas sociais. A ciência mostra que, embora existam desafios reais, também há potencial para relações saudáveis e gratificantes. Talvez a questão-chave gire em torno da felicidade dos parceiros. Um estudo publicado na revista científica “Journal of Population Economics” descobriu que tanto os homens como as mulheres parecem ser mais felizes com cônjuges mais jovens. No entanto, esta vantagem pode durar pouco. “A satisfação conjugal diminui mais rapidamente com a duração do casamento, tanto para homens, como para mulheres em casais com idades diferentes relativamente aos casais com idades semelhantes. Estes declínios relativos apagam os níveis iniciais mais elevados de satisfação conjugal”, escrevem os autores. Para explicar isto, os investigadores sugerem que os casais com grandes diferenças de idades podem ser menos resilientes aos obstáculos. No entanto, outras pesquisas sugerem que, quando permanecem juntos, estes sentem menos ciúmes e exibem uma forma de amor mais altruísta do que casais com idades semelhantes.

A idade pode ser um número, mas o amor, esse, nunca se deixa prender por calendários.

MB/MS

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