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“O amor é o vetor de força para tudo” – Rod Silva

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Sem muito esforço, conseguiríamos elaborar uma lista de palavras que podem definir a parentalidade – na realidade, uma lista grande demais para caber neste artigo. Mas entre elas há uma que sobressai e que pode, com toda a certeza, resumi-la, sem a reduzir: amor. Criar uma criança é dar e receber amor, no seu estado mais puro e verdadeiro.

E se desde os primórdios da história humana as relações interpessoais se estabeleceram, acima de tudo, por uma questão de sobrevivência, fica fácil perceber a importância dos laços afetivos que nos ligam uns aos outros. E essa ligação, quando falamos em parentalidade, acontece quando é vivida: ou seja, precisa de ser experienciada para ser aprendida. Nesse sentido, o papel de mãe ou pai pode de facto ser desempenhado por alguém que tão simplesmente tenha a vontade e disponibilidade de criar e educar uma criança: que lhe dedique o seu tempo, cuidado, carinho e atenção.

Rod Silva, de 52 anos, vive uma relação homoafetiva. O seu companheiro, na altura em que o casal se conheceu, fez-lhe saber ter um filho de um relacionamento anterior. Rod, que sempre teve o desejo de ser pai, sentiu no abraço que a criança lhe deu a confirmação de que, ainda que o caminho nem sempre seja fácil (e não raras vezes repleto de – ainda mais e maiores – desafios), o amor é e sempre será “o vetor de força para tudo”.

Milénio Stadium: Sei que, no vosso caso, o vosso filho é fruto de um anterior relacionamento de um de vós. Como é que foi o processo de adaptação?
Rod Silva: Quando eu conheci o meu companheiro, ele me informou sobre a existência do filho dele. Eu sempre quis ser pai e, portanto, a informação culminou por fomentar o nosso conhecimento e posteriormente, na consolidação do mesmo. O processo de adaptação foi meio que por osmose, pois assim que eu conheci o nosso filho pessoalmente, o abraço que o miúdo me deu funcionou como uma certidão de pai e a partir daquele momento eu passei a amá-lo como meu filho e nada mais me importa.

MS: Sentiram, em algum momento, algum tipo de discriminação por serem um casal homossexual com um filho?
RS: Sentimos um certo receio por parte de uma escola católica, na qual estávamos tentando matricular o nosso filho. Eles não se expressaram de forma explícita, mas criaram vários empecilhos burocráticos, os quais nos fizeram desistir daquela escola. Contudo, de um modo geral, não sofremos nenhum tipo de preconceito. Pelo contrário, somos muito bem recebidos onde quer que cheguemos e o nosso filho é sempre bem visto por todos.

MS: Foram – ou continuam a ser – confrontados com perguntas incómodas de pessoas mais curiosas?
RS: O nosso filho não foi adotado. Ele é filho biológico do meu companheiro e que passou a ser meu também. Às vezes, nos incomoda o fato de as pessoas perguntarem quando ele foi adotado e como o processo se deu. Mas de forma educada respondemos a todos com presteza, pois as pessoas não são obrigadas a saber sobre o que não conhecem.

MS: Têm o desejo de, enquanto casal, ter um outro filho? Se sim, têm algum receio dos desafios que tal decisão poderia acarretar?
RS: Nós dois temos uma vontade muito grande de adotarmos uma menina. Assim, teríamos um casal. No entanto, ainda estamos pensando e ponderando os prós e os contras, pois o meu companheiro tem 48 anos e eu tenho 52. Isso poderia afetar na criação da criança, pois já não temos tanta motivação como tínhamos aos 30 anos. E fazendo os cálculos cronológicos, ao adotarmos uma criança com pelo menos 5 anos de idade, quando a mesma tiver 15 anos eu, por exemplo, terei 67 anos. E isso certamente me faria não curtir a juventude da criança como ela merece.

MS: Como veem, atualmente, as condições que são dadas aos pais para educarem os seus filhos? Entre eles os apoios (federais e provinciais) que são dados, o tempo e disponibilidade que temos nos dias de hoje, a existência ou não de uma rede de apoio, etc…
RS: Aqui no Canadá, sempre recebemos todo o tipo de apoio (federal e provincial) e de forma irrestrita, pois a lei no Canadá é igual para todos, independentemente da orientação sexual. O nosso filho está sempre recebendo apoio da escola onde estuda (escola pública), assim como tem participado dos demais programas governamentais que apoiam os pais e seus filhos. Nós nos sentimos completamente incluídos.

MS: São muitos os desafios que a decisão de ter filhos acarreta – mas consideram que no caso das famílias homoparentais eles são ainda mais e maiores?
RS: Consideramos que os desafios são maiores, porque as cobranças que giram em torno de um casal homoafetivo são muitas, uma vez que somos sempre vistos como dois homens cuidando de uma criança e isso traz, de forma intrínseca, a desconfiança daqueles imbecis e mal informados, os quais não sabem e não procuram se informar a respeito do amor que existe dentro de uma família homoafetiva. A informação ainda é o melhor remédio.

MS: O número de crianças adotadas por casais homossexuais tem registado um considerável aumento – muito também por consequência das alterações às leis que têm vindo a ser conquistadas ao longo dos anos. Ainda assim, consideram haver, ainda nos dias de hoje, um longo caminho a percorrer?
RS: No Canadá, ao contrário de outros países, o processo de adoção se torna mais fácil, mas não menos exigente. Porém, desde que o casal em questão cumpra o que determinam as leis, o processo corre de forma razoavelmente tranquila. Com relação ao aumento no número de crianças sendo adotadas por casais homoafetivos, se dá pelo simples fato de que nós criamos os filhos que são abandonados ou rejeitados pelos heterossexuais. Seria como uma espécie de conserto social. A criança só tem a ganhar, e muito, quando ela passar a fazer parte de uma família afetiva, pois o amor é o vetor de força para tudo.

Inês Barbosa/MS

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