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“Não vamos fazer os homens passarem pelo mesmo só para podermos subir”

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Créditos: DR.

Ainda há muito caminho a percorrer para alcançar uma igualdade profissional, social e cultural homogénea, mas o certo é que, em número, as mulheres são mais do que os homens e têm conquistado território nas mais diversas áreas. Do desporto à educação vemos cada vez mais mulheres a ocupar cargos de topo. A contribuir para esta luta, as redes sociais revelaram-se também uma ferramenta indispensável ao empoderamento feminino e à exposição das crises vividas pelas mulheres de todo o mundo, como a #MeToo. Como está a acontecer o ascender desta relevância e que responsabilidades ela acarreta? Esta semana reunimos Ema Dantas – empresária e fundadora da Peaks For Change Foundation, Jessica Pacheco – profissional de educação com crianças e jovens, e Kalista Kayle – presidente da Associação Portuguesa da Universidade de Toronto para debatermos este tema.

MS: Que balanço fazem da presença e destaque feminino nos diversos setores sociais atualmente, tendo em conta as estatísticas demográficas?

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Emma Dantas. Créditos: DR.

Ema Dantas: Nós, a nível de população, somos mais do que os homens. Mas eu acho que ainda temos muito trabalho para fazer para estarmos em igualdade, em várias áreas. Mesmo em certas profissões, a nível de remuneração, não há igualdade, principalmente quando é uma profissão com presença maioritariamente masculina. Eles são mais bem pagos quando comparamos os seus salários com o das mulheres. Então nesta área eu acho que nós ainda temos muito trabalho para fazer, e temos de continuar a lutar.

Jessica Pacheco: Eu concordo. Sei perfeitamente que no mundo dos negócios o homem é sempre muito mais presente. A mulher e o homem podem ter a mesma posição e muitas vezes a mulher ganha menos. Mas agora eu noto muito mais mulheres presentes. Muito mais mulheres a estudar, a serem psicólogas, professoras. Agora, no setor da educação, a mulher é muito mais presente. Eu trabalho nesse ramo e, nas reuniões de pais, a mulher é uma voz hoje em dia realmente muito destacada no que diz respeito à educação dos seus filhos, como mães. Isso é muito importante para mim. Na escola falamos muito com os alunos sobre essa situação. Mas principalmente no setor dos negócios é muito mais difícil para uma mulher chegar à direção de uma empresa do que um homem. E toda a gente sabe que a mulher é profissional, sabe lutar, então não faz sentido essa diferença. E na escola, como é que se explica a um jovem: “vais ter de lutar mais por seres mulher”?. É muito difícil. Não podemos olhar só para as nossas conquistas, temos de continuar a lutar.

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Kalista Kayle. Créditos: DR.

Kalista Kayle: Quando eu era mais nova, lembro-me que todos os professores da escola eram homens. E, para mim, é muito bom hoje ter esses exemplos de mulheres fortes, trabalhadoras. Mas ainda falta presença de mulheres em algumas áreas. Por exemplo, quando eu entrei na faculdade há dois anos, no meu curso só havia umas cinco mulheres. E eu me perguntei “será que é suposto eu estar aqui nesta sala, mesmo?” Mas eu acreditei e continuei porque eu quero muito ser médica no futuro e também inspirar outras meninas. Agora também há muitos apoios e bolsas de estudo. Na associação de estudantes queremos mostrar que qualquer coisa é possível. Temos uma mulher que faz faculdade de medicina, temos exemplos e estamos a dar passos na direção certa. E outras meninas podem ver que é possível, mesmo se não tiverem muitos exemplos. 

MS: A mulher hoje está mais empoderada graças ao trabalho dos movimentos feministas ao longo dos tempos?

ED: Eu acho que foi o trabalho, sim, se calhar das nossas mães e avós. Eu sei, pela minha avó, que ela tomava conta da casa e conduzia porque o meu avô estava no Brasil e depois em França como imigrante. E se calhar foi isso que nós fomos aprendendo. Temos a autonomia de gerir uma casa, então também somos capazes de tratar de outras coisas. Vemos outras mulheres aqui no Canadá em posições de liderança e vemos que se elas conseguem, nós também conseguimos. E então, como a Kalista disse, quando fomos meninas começámos a ver uma esperança noutras mulheres, mesmo que fosse pouca. Houve uma esperança de conseguirmos fazer e não nos importarmos com o que as outras pessoas iam dizer ou o que os homens iam pensar.

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Jessica Pacheco. Créditos: DR.

JP: Eu acho que as mulheres tiveram de lutar, sim. No tempo da minha mãe, quando ela emigrou para aqui, muitas mulheres que emigraram eram só donas de casa. Mas porque eles estavam num novo país, porque os homens não ganhavam o suficiente, elas tinham de ir trabalhar. Além disso, as mulheres canadianas já nessa altura trabalhavam. Não ganhavam tanto como os homens, nem tinham tantas oportunidades de trabalho, mas trabalhavam. A minha mãe também teve de aprender a falar a língua… e teve de lutar mais. Os nossos pais e avós, quando vieram para aqui, abriram caminhos para nós sem saberem. Foram uns modelos a seguir. E nós temos de trabalhar e continuar a ir para a frente. Nós aprendemos com eles a enfrentar os nossos medos.

KK: Eu tive uma experiência igual. A minha avó não estudou, veio para o Canadá sem inglês, sem nada. Eu sou a primeira mulher da minha família a entrar na universidade e vejo na minha avó que ela se sente muito orgulhosa, porque ela não teve essa oportunidade. Eu penso que tenho muita sorte em ter essa oportunidade, em ganhar bolsas de estudo para conseguir pagar os estudos. Ainda mais sendo uma mulher. Quando eu digo às pessoas que eu estudo Ciências, elas pensam que eu quero ser enfermeira. O que é um trabalho ótimo, mas parece que quando as pessoas ouvem que uma mulher quer ser médica, não bate certo na cabeça delas. Mas eu acho que a cada dia estamos a chegar mais perto, estamos a lutar, e muitas mulheres que nunca tiveram oportunidades agora estão a ter.

MS: Como pensam que os homens ficam neste cenário em que a mulher está cada vez mais presente e empoderada?

ED: Esta é uma pergunta muito boa e é uma discussão que nós vamos precisar de ter. Eu acho que nós temos a responsabilidade de mostrar compaixão e temos de ter respeito ao mesmo tempo. Porque se nós queremos ter compaixão e respeito e estar nesse nível, então também temos de mostrar que damos esse respeito de volta. Torna-se difícil… se lutámos para estar ao mesmo nível, agora também não vamos rebaixar o homem para nós podermos subir. Então, para podermos continuar a progredir temos de manter, ambos, os mesmos valores. Temos de ter cuidado com a forma como expressamos as nossas preocupações, porque não vamos querer virar as coisas ao contrário. Não vamos fazer os homens passarem pelo mesmo que nós passámos só para podermos subir. A igualdade não é minimizar um ao outro, é ter respeito e trabalharmos para termos uma sociedade igual.

JP: Como eu trabalho com homens, este é um tópico sobre o qual nós estamos todos os dias a conversar. Agora a mulher tem mais poder, e a forma como olham para ela é diferente. São mais empoderadas, têm mais liberdade de expressar as suas ideias. E é um tópico que é difícil ser aberto na nossa mente, porque cada um tem opiniões individuais do que é certo e do que é errado. É um tópico ao qual temos de ser sensíveis. Temos de pensar bem antes de falarmos. Porque o homem também se sente intimidado. Não digo que toda a gente está contra o homem, mas a mulher quanto mais poder tem, mais consciência precisa de ter. Então não vamos formar uma ideia de que todos os homens vão assediar, violar as mulheres ou vão discriminar… temos de ser muito cuidadosos com a forma como estamos a ensinar os mais novos sobre este tópico e como estamos a abordá-lo como sociedade.

KK: Eu acho que para conseguirmos chegar nesse nível de igualdade temos de ter respeito um para com os outros. Não atendendo ao sexo, raça, etc. Eu acho também que as mulheres de cor sofrem mais, porque tem o fator do racismo em cima disso. Temos de lutar, porque merecemos direitos iguais e oportunidades iguais. É bom que esse assunto no século XXI esteja a receber mais atenção. Então vamos começar a lutar por todas as mulheres e dar respeito para cada um.

Telma Pinguelo/MS

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