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Medo de um futuro sem liberdade

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O conceito de medo é extremamente interessante. Associamo-lo a coisas negativas quando, na realidade, ele serve um útil propósito: garantir a nossa sobrevivência. Há milhares de anos, o medo pressionava o gatilho para fugirmos ou lutarmos com predadores, mas agora já não é o caso. Não temos de enfrentar leōes, mamutes ou javalis – espero eu – no entanto continuamos a ter medos, e muitos. Parece-me que na pré-história temíamos mais os perigos imediatos, enquanto que nos dias modernos receamos maioritariamente o futuro. 

Temos medo de possibilidades e especulações formuladas pela nossa imaginação. Claro, também a mim me assolam diversas ansiedades, desde questões pessoais à sociedade e até o planeta, não fosse a atual conjuntura mundial capaz de nos pôr os cabelos em pé. 

Para nutrir os nossos medos, nada melhor do que ligar a televisão ou ver as redes sociais. Damos logo de caras com um refinado cardápio de medos coletivos, pronto a comer. Oh sim, os media adoram coisas medonhas. É o que vende, o que toca nos nossos sensores de adrenalina e cortisol e que nos mantém ali agarrados de manhã à noite. Por isso tento não alimentar demasiado os meus medos com este buffet de (des)informação. Ainda assim, claro, assusta-me a escalada da guerra, que um dia os nossos filhos e netos vivam numa Terra intoxicada e estéril ou que doenças estranhas varram o mapa. 

Mas há algo que me assusta particularmente: um futuro sem liberdade. Com a pandemia, insegurança económica e conflitos violentos, a democracia tem sofrido golpes profundos e o sistema está a perder o equilíbrio a favor de ideais autoritários. Assusta-me bastante esta recessão democrática. E não é só quando há tanques nas ruas que fico alarmada, porque a guerra é apenas um dos sintomas desta doença da sociedade. Também me assusta a perda de direitos civis, as legislações autocráticas, os ataques à liberdade de imprensa e o crescimento da desigualdade social. A Freedom House, uma organização que acompanha o progresso democrático global, aponta que estamos no 15º ano consecutivo de declínio da liberdade global. Há 71 países que sofreram declínios em direitos políticos e liberdades civis, com apenas 35 a registar ganhos. Por isso fica a pergunta, ou o medo: haverá um futuro livre para as próximas gerações?

Políticas à parte, tinha até recentemente dois medos gigantes. Aterrorizava-me ser operada e, como muitos de nós, a morte. O primeiro enfrentei-o quando precisei de fazer cirurgia de urgência. Pouco tempo depois, decidi não esperar mais pela “altura certa” para realizar os sonhos que andava a adiar há anos, e tem sido realmente libertador. De repente, a morte deixou de ser tenebrosa. Ah, e já agora: ser operado não é tão mau quanto parece! Vivam o vosso propósito, vivam com coragem e lembrem-se de que nem tudo está sob o nosso controlo, por isso é bom saber largar o comando ocasionalmente. Em último caso, é como canta o Miguel Araújo:

“Se América se lembrar

De carregar no tal botão,

Que o mundo dure ao menos até ao fim

Do dia da procissão”.

Telma Pinguelo/MS

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