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Mariza: Gente da nossa terra em Toronto

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E porque o Tempo não Pára, nem mesmo nos dias em que a Chuva de emoções nos abala os sentimentos, é com o Meu Fado Meu que Mariza vai deixando, em todos os que a ouvem, um Quem me Dera ouvi-la de novo. E no fim fica a certeza de que O Melhor de Mim há-de chegar. Porque na ternura do Ó Gente da Minha Terra sentimos renascer a Primavera carregada de esperança, que têm todos os que estando longe da sua Terra querem continuar a senti-la perto do coração. Como uma Mãe que nunca deixa de ser próxima, nem mesmo quando os oceanos teimam em separar. Porque, como todos sabemos, a noite sempre se tornará dia e o brilho que o sol irradia há-de sempre iluminar.

Ainda nem sabia ler quando começou a cantar fado. Mariza vivia na Mouraria e por lá o fado preenchia as ruas, as casas e tocava a alma. Dos residentes e dos que vindos de fora se perdiam nas noites dessa Lisboa fadista. O destino da sua vida até poderia estar marcado, pelo ambiente que sempre a envolveu, pela paixão pela música que os pais ouviam e enchia a casa, mas foi a sua voz incomparável, a sua forma de cantar e de estar em palco que a tornaram a cantadeira/embaixadora de Portugal pelo mundo fora, que é hoje.

África corre-lhe nas veias (nasceu em Moçambique – terra da mãe) e os ritmos africanos acabam por envolver-se com a alma fadista, sem esquecer a batida do Brasil, por onde passou parte da sua vida. Tudo isto molda aquilo que Mariza é hoje – uma encantadora mistura de estilos e influências. Talvez seja essa mesmo a verdadeira marca de diferença do seu percurso.

Quando o fado ainda não estava na moda, quando produzir e editar fado não era atrativo para as produtoras discográficas porque “não se vendia”, surge esta mulher e o seu Fado em Mim. E o Fado nunca mais foi olhado da mesma forma, porque ganhou novos contornos, mais luz e cor, sem que em nenhum momento se sentisse desrespeito pela sua essência. E a vida de Mariza mudou.

De então para cá, Mariza nunca desiludiu quem a segue e ouve. Sempre surpreendente, mesmo quando canta os temas que lhe temos ouvido desde sempre. A forma como canta varia conforme a circunstância em que canta e para quem canta e isso traz sempre algo novo. “O público é o centro de tudo” diz-nos Mariza nesta conversa e nós acreditamos. E é este permitir que o seu público faça parte da construção do seu caminho na música que torna tudo ainda mais encantador e fascinante. E diferente.

No próximo dia 13 de maio faz 70 anos que chegaram ao Canadá os primeiros portugueses imigrantes. Gente de coragem que partiu do seu país à procura de uma vida melhor. Homens e mulheres que trabalharam muito, passaram as maiores provações, mas venceram. Mostraram a sua força, a sua resiliência e abriram caminho para tantos outros.

Mariza estará com a comunidade portuguesa residente na Grande Área de Toronto, precisamente 70 anos depois da atracagem do navio Saturnia em Halifax. Faz todo o sentido que esteja. Uma portuguesa que se afirmou no mundo, que é respeitada pelo seu desempenho profissional, que é uma mulher de fibra, resiliente nesta sua caminhada pelo Fado e pela música de uma forma geral. Uma portuguesa como nós, mas uma artista de excelência. Única. Gente da nossa terra que nos enche de orgulho e emoção.

Milénio Stadium: O seu pai ao dar-lhe o nome Mariza (com z), porque era fã de uma cantora brasileira chamada Mariza Gata Mansa, fez também uma promessa de que a filha seria cantora. Podemos dizer que, em grande medida, devemos ao seu pai, e à promessa feita, termos hoje a Mariza como uma das maiores cantoras portuguesas?
Mariza: Definitivamente o meu pai sempre se esforçou bastante para me ajudar no meu caminho artístico, desde muito nova. Não sei se teve a ver com a escolha do nome mas, certamente, teve muito a ver com a quantidade (e qualidade) de música que se ouvia lá em casa. Desde fado, passando por música africana, cubana e brasileira. Sou, sem dúvida, um resultado de toda essa mistura de sons e ritmos.

MS: Também o facto de ter vivido desde os 3 anos na Mouraria, num tempo em que a música e o fado em particular enchiam as ruas do bairro, contribuiu de forma decisiva para se ter transformado na fadista/cantora que é hoje. Sente que o seu destino poderia ter sido outro se não tivesse vivido nesse ambiente tão fadista e tão tradicional?
M: Obviamente, que ter crescido na Mouraria me fez estar muito mais próxima do Fado. No entanto, como disse acima, os meus pais sempre ouviram música e o meu pai sempre gostou muito de Fado, pelo que não sei se teria sido diferente nascer noutro qualquer local. É sempre a Deus que o Destino pertence.

MS: No entanto, a sua forma de cantar e de interpretar, trouxe ao fado uma marca de diferença que muitos descrevem como um toque de modernidade aliado ao respeito pela tradição, que sempre garante nas suas interpretações. Sendo difícil fazer um julgamento em causa própria… considera que, de facto, a Mariza contribuiu para a transformação do Fado, numa música de projeção mundial?
M: Há 23 anos, quando gravei o meu primeiro disco, não havia uma única editora que se interessasse por este tipo de música e os que já tinham artistas deste género não queriam mais artistas porque o Fado era uma canção que não vendia.
Quando apareceu o meu primeiro álbum houve uma receção completamente diferente por parte do público português e internacional. Só em Portugal, o disco obteve seis platinas e deu lugar a uma nova geração de fadistas e músicos de Fado.

MS: Que papel poderão ter as suas raízes africanas nesta marca de diferença da sua interpretação?
M: Como disse anteriormente, tudo deverá ter contribuído para isso, sou uma consequência dessa mistura.

MS: Para além disso, o facto de ter passado grande parte da sua adolescência a cantar um pouco de tudo (pop, blues, jazz…), de ter vivido algum tempo no Brasil… tudo isto lhe trouxe uma outra forma de abordar o Fado?
M: Sempre estive muito rodeada de música, participei em muitas jam sessions com músicos africanos, ouvia muita música de vários géneros e estilos. Tudo isso fez com que automaticamente fosse moldando quem sou hoje enquanto artista.

MS: Sei que cada música que faz parte do seu repertório é escolhida por si e as palavras têm que tocar a sua alma. Inclusive disse já que sabe exatamente quando e por que razão escolheu cantar determinado tema. É um processo fundamental para si – sentir profundamente o que está a cantar?
M: Sim. Canto diferentes temas e todos eles de forma diferente todos os dias. O público influencia não só o reportório que escolho cantar mas também a forma como o canto. O público é o centro de tudo.

MS: Sendo certo que para um cantor não há álbuns ou músicas preferidos, a verdade é que o seu primeiro disco “Fado em Mim”, é o grande responsável pela sua projeção internacional e, também, em Portugal. Este álbum é especial para si?
M: Sim, o “Fado em Mim” representa algo muito especial principalmente porque fazer um disco era terreno desconhecido para mim. Achei mesmo que só o meu pai ia ouvir e, no entanto, transformou-se nesta avalanche que viria a transformar por completo a minha vida. No entanto, sou apaixonada de formas diferentes por todos os meus discos. Cada um tem a sua história, cada um tem as suas vivências, cada um tem o seu significado especial.

MS: Depois do lançamento do Fado em Mim em 32 países, a Mariza começou a cantar nas maiores salas de espetáculos do mundo. Chegou a dar bem mais do que 200 concertos num ano. Sentia o reconhecimento internacional, mas li que até acontecer o célebre concerto ao vivo junto à Torre de Belém (com cerca de 25 mil pessoas a assistir), não sabia que Portugal também gostava de a ouvir. Foi essa perceção de que “afinal também gostam de mim” que a emocionou quando estava a cantar o “Ó gente da minha terra”?
M: Algo próximo disso. Na verdade, esse momento foi uma reação natural por olhar nos olhos das pessoas que estavam a ver o concerto e perceber que essas pessoas, a gente da minha terra, iria estar lá por mim, por muitos e muitos anos. Não foi propriamente a perceção do reconhecimento mas a energia de amor que senti naquele momento.

MS: O Martim nasceu e anos mais tarde a Mariza lançou “O tempo não pára”. A sua forma de viver e a sua relação com o trabalho mudou desde o nascimento do seu filho?
M: Obviamente com a maternidade veio a responsabilidade, mas felizmente, tenho conseguido organizar a minha agenda de forma a passar o mais e melhor tempo possível com o meu filho.

MS: O Martim nasceu prematuro e a Mariza, mais tarde, partilhou a sua vivência e sofrimento e, mais recentemente, falou dos problemas de aprendizagem que o seu filho tem tido, devido a um elevado défice de atenção, hiperatividade e dislexia. Sente que, desse modo, está a cumprir uma função social que tem por ser figura pública, alertando ou confortando outros que possam estar a passar por situações semelhantes?
M: Quando fiz essa partilha, fi-lo de coração aberto, sem pensar em mais nada. Fi-lo apenas como mãe. Se serviu os propósitos que enumera, fico feliz.

MS: Sei que faz questão de voltar a Moçambique com frequência, já que é lá que vive a família da sua mãe. E leva o Martim consigo. É fundamental essa ligação ao sítio e às pessoas, às raízes, afinal?
M: É, sim. É como um recarregar de baterias para mim. A imagem de ver o meu filho brincar naquele lugar fascinante é, para mim, já por si só, um momento extraordinário.

MS: Apesar de ter tantos anos de carreira e de já ter pisado os maiores palcos do mundo continua a ficar nervosa antes de começar o concerto. É o peso da responsabilidade de ser considerada uma das melhores cantoras portuguesas da atualidade?
M: Pensar que os mais de 20 de carreira tornam todo o processo mais fácil não é bem verdade.
Se algumas coisas se tornam mais fluidas ou até um pouco mecânicas, a verdade é que há coisas que nunca mudam e aquele nervosismo antes da entrada em palco é algo que não desaparece e que se tem sempre mantido e que tem, obviamente, a ver com a responsabilidade para com o público que tão generosamente me vem ouvir ao longo de todos estes anos.

MS: Em breve estará em Toronto para integrar o programa de comemorações dos 70 anos de imigração portuguesa no Canadá. Este concerto tem um significado especial para si?
M: É sempre bom voltar onde fomos e somos bem recebidos.

MS: Falámos muito do passado, mas é também essencial pensar o futuro. Que projetos tem em carteira? Alguma novidade que possa ser desvendada?
M: Acabei de gravar um novo álbum com jovens produtores e compositores portugueses. Comoveu-me muito a forma como me veem enquanto artista e as propostas que me apresentaram. É curioso o que nos faz olhar para dentro de nós e refletir sobre a nossa história e percurso, pessoas com uma visão externa, especialmente quando se trata de pessoas jovens e que estão no início das suas carreiras. Tem sido uma aventura muito especial que espero dar a conhecer muito em breve, em princípio antes do final do ano.

MS: Em breve estará com a comunidade portuguesa residente na grande área de Toronto. Quer deixar uma mensagem para todos os portugueses que aqui vivem?
M:Espero conseguir proporcionar uma noite inesquecível, cheia de música, amor, alegria e amizade, levando um pouco de Portugal até todos.
Até dia 13 de maio, Mariza. Será um espetáculo inesquecível, onde não faltará até uma ou outra Lágrima, mas de alegria.
Madalena Balça/MS

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