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Maior a fome, pior o futuro

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Dizem que a verdadeira crise ainda está para chegar. Mas o presente já é assustador o suficiente: o mundo já havia levado um primeiro golpe dado pela pandemia e, já “no chão”, é novamente atacado por uma guerra. Isto já para não falar do enorme – e tão desvalorizado por tantos – problema da seca. Portugal não é exceção a esta realidade: esta combinação explosiva de fatores está a conduzir o país para uma possível escassez de matérias-primas e alimentos, que obrigará à necessidade de racionamentos em Portugal, conforme alertam os especialistas.

 

TROCAR MÓVEIS PARA COMER

A CNN Portugal revelou recentemente a história de um português que, como tantos outros, também tem passado dificuldades – dificuldades essas que já se fazem sentir na quantidade e qualidade de alimentos que coloca na mesa.

“Eu não vou roubar para dar de comer aos meus filhos. Prefiro passar por isto a roubar!”, afirmou Filipe – e quando diz “isto” refere-se a trocar artigos de mobiliário, decoração e artigos para bebé por alimentos essenciais como massa, arroz, leite, fruta, legumes, pão ou produtos de higiene para os filhos gémeos, um deles com trissomia 21 e diversos problemas respiratórios. Eduardo é uma criança com necessidades educativas especiais e que precisa de realizar terapias – mais uma despesa que coloca (ainda) mais pressão no orçamento familiar. A mãe, Ana Cristina, deixou de trabalhar por conta de problemas de saúde e, assim sendo, a vida faz-se – ou vai-se fazendo… – com o salário de Filipe, o abono das crianças e o complemento de deficiência de Eduardo. Infelizmente esta história não é caso único e repete-se em muitos lares espalhados por todo o território português.

 

GUERRA AGRAVOU UM PROBLEMA JÁ EXISTENTE

Ainda que o aumento generalizado dos preços seja um dos principais motivos para que muitas famílias portuguesas tenham que fazer “ginástica” de forma a conseguir colocar comida na mesa, podemos constatar, analisando os números do Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza, relativos a 2021, que já antes da guerra os indicadores de pobreza (pobreza monetária, intensidade laboral e privação material e social severa) tinham registado um agravamento, ainda que com intensidade diferente entre grupos.

Sabe-se que as mulheres, os desempregados, as famílias com filhos e aqueles com mais de 65 anos de idade são os mais afetados, mesmo tendo em conta os apoios sociais que lhes são dirigidos, tais como pensões de velhice ou subsídios de desemprego e/ou habitação. Também a população estrangeira registou um aumento no que a vulnerabilidade social e económica diz respeito.

E SE QUISERMOS RECUAR AINDA MAIS…

Segundo um outro relatório, este divulgado pela Pordata, em 2020 registou-se um aumento (12,5%) do número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social – tal não acontecia desde 2014. O relatório adianta ainda que aumentou o número de famílias no escalão mínimo de IRS e que ganham até cinco mil euros anuais… que é o mesmo que dizer 416 euros mensais. De lembrar que o limiar de pobreza se situa nos 554 euros mensais.
Em relação a 2019, existiam em 2020 mais 58 mil famílias no escalão mais baixo, o que se traduz num aumento de 8,5%. Ainda ao que ao IRS diz respeito, dos 5,5 milhões declarados pelos agregados, quase 40% recebiam cerca de 830 euros.

Mais ainda, registou-se um aumento na desigualdade de rendimentos entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos no país – um claro, entre muitos outros, indicador da insuficiência das medidas de combate à desigualdade. Concluindo, em 2020, primeiro ano de pandemia, a pobreza estendia-se a 18,4% da população portuguesa, o que fez com que o país caísse vários lugares nos indicadores de pobreza: é, neste momento e a título de exemplo, o segundo com mais pessoas a viver em más condições materiais e o quinto com mais pessoas incapazes de aquecer a própria habitação.

 

INSTITUIÇÕES PROCURAM BANCO ALIMENTAR

Atualmente, face ao já referido aumento dos encargos relacionados à compra de alimentos e também das despesas com gás e eletricidade, as instituições de solidariedade social veem o seu trabalho – que já era pouco facilitado, convenhamos – tornar-se ainda mais desafiante.

O número crescente de famílias que solicitam apoio “obriga” estas instituições a recorrer ao Banco Alimentar, de forma a conseguirem fazer face não só a esta realidade como também para obterem mais fundos para cobrirem as despesas das suas próprias cozinhas, já que muitas delas não só entregam cabazes com alimentos como também confecionam refeições.

Ainda que durante este ano a Segurança Social tenha atualizado o valor das comparticipações pagas às instituições e reforçado a verba que é paga para os acolhimentos residenciais, como forma de fazer face ao aumento generalizado do custo de vida, estas instituições garantem que tal não é suficiente.

AUMENTO DOS PEDIDOS DE AJUDA, MAS LONGE DE 2020

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA), diz que os pedidos de ajuda por parte das famílias portuguesas têm também aumentado, mas a situação “não tem sequer comparação” com aquela que se viveu, por exemplo, no início da pandemia.

“Na pandemia, as pessoas ficaram sem dinheiro, porque ficaram sem trabalho ou em lay off”, afirmou. Hoje em dia, acrescenta, com o aumento gradual da inflação as pessoas acabam por se ir adaptando: “Bens que habitualmente consumiam, agora não consomem. Quase não consomem vaca, consomem pouco porco e peixe fresco é cada vez menos”.

 

BANCO ALIMENTAR MANTÉM NÚMERO DE DOAÇÕES

A presidente do BA adiantou ainda, em declarações à imprensa, que apesar de existirem mais pedidos de ajuda, ainda não se registou uma redução no número de doações. Para além disso, o volume de bens doados pela indústria e agricultura manteve-se inalterado, o que, segundo Jonet, poderá significar que estes ajustaram a produção ou mantiveram o volume de vendas.

 

DESPERDÍCIO DE COMIDA

Se é uma realidade que os bens começam a escassear ou que se tornam, para muitos, mais difíceis de adquirir, também acontece aquilo que parece um enorme contrassenso: Portugal é o quarto país da União Europeia que mais desperdiça comida. Em 2020, por exemplo, e segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat, cada português desperdiçou, em média, 184 quilos de comida – um valor que está 60 quilos acima da média europeia. Já os restaurantes desperdiçaram 23 quilos por habitante e a agricultura e pesca registaram desperdícios de 10 quilos de comida por pessoa.

Tudo isto se traduziu em 237 mil toneladas desperdiçadas no setor da restauração, 214 mil toneladas em comércio de distribuição, mais de 101 mil toneladas em produção primária e cerca de 61 mil toneladas na indústria alimentar.

 

PROBLEMAS ANTIGOS, O “APERTO” ATUAL E O TEMIDO FUTURO

Se é verdade que vemos a inflação bater recordes, também quem contratou empréstimos bancários treme sempre que se dá conta de um novo aumento nas taxas de juro. Para este mês de novembro as simulações apontam para agravamentos entre os 15% e os 50%.

Sabe-se, no entanto, que o Governo irá anunciar em breve um conjunto de medidas que têm como objetivo ajudar as famílias mais afetadas por este aumento dos encargos com o empréstimo da casa.

De salientar que as taxas Euribor têm sofrido, mês após mês, subidas significativas, naquela que é uma estratégia do Banco Central Europeu para tentar contrair a escalada da inflação.

A Pordata alerta também para o facto da taxa de inflação estar a subir, mas o salário mínimo nacional e as pensões de velhice e invalidez não acompanharem esse aumento. Mais uma vez, este também já é um problema “com barbas” em Portugal: desde 1978 (primeiro ano a partir do qual há registos) até 2021 o aumento da inflação superou o aumento no salário mínimo nacional em 16 anos.

Segundo a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística (INE) a taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor (IPC) terá aumentado de 9,28% em setembro para 10,2% em outubro – a mais elevada desde maio de 1992 – tornando a perda de poder de compra cada vez mais evidente: alguém que aufere o salário mínimo, 705 euros, passa a ter na carteira menos 71,29 euros do que em relação ao ano passado. O mesmo acontece a um pensionista, que vê serem “retirados” à sua pensão de velhice ou invalidez de 278,05 euros cerca de 28,4 euros.

Com cerca de 2 milhões de portugueses a viver com pouco mais do que 500 euros mensais, multiplicam-se os casos de furtos em superfícies comerciais – o que levou a que algumas delas chegassem mesmo a colocar alarmes em latas de atum e outros alimentos de baixo ou médio valor como garrafas de azeite, latas de atum, salmão congelado ou bacalhau.

A Deco Proteste, organização de defesa do consumidor, elaborou um cabaz de 63 produtos essenciais, entre os quais frango, esparguete, banana, arroz, leite, queijo ou manteiga, chegando à conclusão que entre janeiro e outubro de 2022, o preço do mesmo aumentou 26,60€, ou seja, 14,17%.

O produto que registou o maior aumento de preço foi a farinha para bolos (0,60€, cerca de 50%), seguida dos brócolos, couve coração e açúcar branco, com aumentos de 48%, 46% e 42%, respetivamente.

Com tudo isto é fácil perceber que as expectativas para o futuro estão longe de ser otimistas. Marcelo Rebelo de Sousa afirma que o combate à pobreza em Portugal tem de ser uma prioridade… mas as políticas de apoio social veem-se obrigadas a coexistir com as “contas certas” e com a redução da dívida pública previstas no Orçamento de Estado para 2023. Até melhores dias chegarem, a fome vai-se matando da maneira que se pode – muitas vezes de forma envergonhada ou num bolso que sai mais pesado de um supermercado. Uma fome silenciosa mas que se torna ensurdecedora de tão injusta que é.

Inês Barbosa/MS

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