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Jogadas arriscadas

O jogo que circula à volta de uma mesa, as cartas que se batem revelando a arte e a mestria de quem joga, o dinheiro que circula de mão em mão. As vitórias e as derrotas. A adrenalina que alimenta o vício ou simplesmente o hobby.

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Créditos: DR.

Adriano nasceu e vive com outro nome, mas será Adriano nesta conversa que assim lhe assegura o anonimato e preserva a imagem. Adriano conhece bem o mundo do jogo. O póquer é para ele um hobby. Sério porque jogado a dinheiro, mas ainda assim um hobby. Com o seu testemunho percebemos melhor o que se joga na realidade tanto nas salas mais obscuras, como nos glamorosos salões de jogo dos casinos. Muitas vezes joga-se a vida. O futuro e até o passado. Ganha-se por vezes, mas são incomparavelmente mais as que se perde. E nesta equação o “deve/haver” são os principais fatores, que se devem conjugar sempre com o saber parar, quando tudo indica que o desfecho pode significar fim.

Milénio Stadium: Quando e como começou a apostar?

Adriano: Eu jogo e sempre joguei nos casinos – jogo poker.

Já quando estava em Portugal jogava. Apostava na lotaria, gostei sempre muito de jogos de apostas. Entretanto, desde que vim para o Canadá frequento regularmente os casinos, mas tudo mais ou menos equilibrado. Vou quando posso, quando tenho um dinheiro extra – que eu sei que se o perder não me fará falta. Nunca me deixei, até hoje, gastar aquilo que não devia.

MS: No seu caso então consegue fazer um controlo, não considera ter uma necessidade absoluta de jogar, é isso?

A: Não, não. Tive uma fase na vida que eu senti que estava a ficar viciado, mas consegui controlar e passou essa fase. Agora jogo mais em torneios – vou aos Estados Unidos, vou onde eu posso, gosto de viajar. Já tive grandes contactos profissionais nas mesas de jogo: conheci gente boa, mas também conheci gente que não interessa. Tive benefícios e também “não benefícios”. Com esse tipo de vida já desfrutei muito, mas ainda quero continuar a desfrutar mais, pelas experiências que são boas e conheci muitos lugares diferentes.

MS: Às vezes pode-se ganhar muito, mas também acontece perder-se muito dinheiro, certo?

A: O risco de ganhar muito é menor do que o de perder muito. O de perder é mais garantido do que o de ganhar. São 2%, no máximo 5% dos jogadores é que vivem disso – são os profissionais. Mas depois há muita gente que mete na cabeça que são profissionais e depois gastam o que têm e o que não têm. Sei que há muita gente assim e conheço casos muito tristes – há pessoas que perderam tudo: bens e família.

Conclusão, da experiência que eu tenho, se eu for a ver o saldo, tenho o saldo mais negativo do que positivo. Comparando aquilo que eu já ganhei até hoje e o que perdi, perdi muito mais do que aquilo que ganhei.

MS: Então o que é que o faz continuar a jogar?

A: É um hobby. Há pessoas que são viciados em álcool, outros em drogas, cada pessoa tem o seu hobby. A malta mais nova gosta de ir aos clubs, gastam 500 dólares numa noite se for preciso. No meu caso isto é um hobby.

MS: Como faz agora enquanto os casinos estão fechados devido à pandemia?

A: Eles têm as salas de jogo online. Eu ainda esta semana fui brincar no PokerStar, deve ser a maior cadeia de poker, e por acaso joguei num torneio: apostei 55 dólares e por acaso ganhei 450 dólares. Lá está, eu vou ganhando, mas é como eu digo, perco mais do que aquilo que ganho.

MS: E como é que é essa experiência online?

A: Muito diferente. Eu gosto mais de jogar ao vivo.

MS: Existe um mundo mais obscuro no Poker, nomeadamente de apostas ilegais?

A: Há em todas as apostas desportivas. O dinheiro manipula tudo.

MS: Como funciona esse mundo?

A: Há muitas formas. Há pessoas por exemplo que frequentam as salas de jogo e começam a conhecer os jogadores e depois sabem o background da pessoa (se têm bens ou não), e há pessoas q entram naquela fase que estão a perder X, pensam que vão recuperar e por isso começam a apostar mais e mais, até que chegam ao ponto de não terem acesso ao cash que eles precisam e aí surgem uns indivíduos por fora que perguntam “Quanto precisas? Empresto-te X, mas vais dar-me depois Y”… Às vezes esse Y é quase o dobro daquilo que eles emprestam. Há muitas maneiras realmente.

Aqui em Toronto, por exemplo, isto está minado de casas ilegais que vivem disso. Jogam às escondidas. Casas particulares que fazem esse tipo de jogo. Eles tiram X por cada aposta… fazem muito dinheiro! Há até alguns comércios portugueses aqui na nossa comunidade que fazem isso: alguns no basement, outros na parte de trás do estabelecimento.

MS: Alguma vez frequentou essas casas?

A: A uma certa altura eu cheguei a ir algumas vezes, mas depois desisti, porque eu pensava no risco que estava a correr e dizia para mim próprio “então, mas se eu estou a uma hora do casino, qual é a necessidade de eu estar aqui a arriscar a minha vida, sujeito a vir aqui a polícia ou acontecer alguma coisa”.

No casino estamos seguros. Lá não se passa nada: ganhámos ganhámos, perdemos perdemos. Mas pelo menos não corremos outros riscos que possa haver…

MS: A que riscos se refere especificamente?

A: Nessas casas privadas os jogos estão todos “set up” – Eles não podem perder, eles têm sempre que ganhar. As pessoas que organizam isso fazem muitas coisas falsas. Para alem disso, como é ilegal, se a polícia vai ali, ficamos cheios de problemas, o nosso registo criminal fica logo marcado. Ou então, como já aconteceu, há gangs que sabem que em determinado sítio estão a jogar e que possivelmente, entre os jogadores todos pode haver entre 50 a 100 mil dólares (tudo em cash!), e eles vêm armados e limpam o dinheiro todo às pessoas.

Catarina Balça/MS

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