Imigração, integração e diversidade

O Professor Howard Ramos, é presidente do Departamento de Sociologia e professor na Universidade de Western Ontario. Ramos é também um reconhecido sociólogo político especializado em questões de justiça social, equidade, mobilização indígena e integração de imigrantes. Com um vasto trabalho académico sobre movimentos sociais, direitos humanos e mudança urbana, Howard Ramos reflete, nesta entrevista, sobre os desafios e oportunidades da imigração contemporânea em sociedades multiculturais como o Canadá.
Milénio Stadium: A imigração contemporânea pode ser interpretada como uma nova forma de colonização cultural ou económica, ou essa perspetiva deturpa a realidade dos fluxos migratórios globais?

Howard Ramos: Nos países de colonização (settler countries), o colonialismo continua presente. Assim, a menos que exista um verdadeiro processo de reconciliação com os povos indígenas e que estes acolham os recém-chegados, a imigração é uma forma de colonização — e não é algo novo.
Dito isto, os fluxos migratórios globais, por si só, não são colonização. A maioria das pessoas migra em busca de uma vida melhor, e não para se impor a um novo país.
Só se pode falar em colonização quando há uma intenção deliberada de colonizar — e essa intenção costuma partir dos Estados, não dos migrantes.
MS: Qual é o equilíbrio justo entre o dever dos imigrantes de se integrarem nas sociedades de acolhimento e o respeito pela preservação das suas práticas culturais e religiosas?
HR: Em países multiculturais, a diversidade é uma força. Essas sociedades prosperam precisamente por não imporem a assimilação. No entanto, para ter sucesso num novo país, é necessário compromisso. Como se costuma dizer: “Em Roma, sê romano.” Respeitar a cultura e as práticas religiosas do país de acolhimento ajuda a criar um ambiente acolhedor e constrói pontes que beneficiam tanto os recém-chegados como a população local.
Os imigrantes trazem dinamismo, mudança, novas ideias e novas ligações a outras regiões do mundo.
MS: Como é que os imigrantes de hoje se percecionam no país de acolhimento: como convidados, cidadãos plenos ou comunidades em transição?
HR: No Canadá, o aumento da migração temporária mudou a forma como muitos migrantes encaram o país. Têm mais obstáculos à integração a longo prazo e, muitas vezes, nem sequer desejam fixar-se de forma permanente.
Também mudou o perfil dos migrantes económicos: a maioria dos novos imigrantes que chegam ao Canadá já vinha de estilos de vida de classe média ou alta, com elevados níveis de educação. São pessoas altamente procuradas por vários países. Quando enfrentam barreiras no emprego, discriminação ou outros obstáculos, sentem-se menos enraizados do que gerações anteriores de imigrantes.
MS: Quais são os caminhos possíveis para promover a convivência pacífica entre culturas e religiões diferentes em espaços públicos partilhados?
HR: A melhor forma de gerir a hiperdiversidade presente nas cidades canadianas é focar-nos nas grandes maiorias de pontos em comum que existem entre as pessoas, independentemente da sua origem ou crença. Em todos os grupos há uma grande variedade de experiências e perspetivas.
Focar-nos em objetivos comuns abre portas — e há muitas portas abertas. É extraordinário quando tanto os cidadãos nativos como os recém-chegados entram juntos por essas portas, experimentam coisas novas e tentam colocar-se no lugar do outro. É importante abordar tudo com humildade.
MS: Que fatores políticos, económicos ou mediáticos estão a alimentar o aumento da xenofobia e do racismo em várias sociedades ocidentais?
HR: As redes sociais facilitam muito a permanência em bolhas e câmaras de eco. Infelizmente, também tornam mais fácil do que nunca a disseminação da xenofobia e do racismo. É essencial não amplificar essas mensagens, denunciá-las e contestá-las sempre que possível. Os meios de comunicação tradicionais têm um papel importante nesse combate. Ao mesmo tempo, a pandemia trouxe grandes perturbações económicas — e, historicamente, os recém-chegados são muitas vezes os bodes expiatórios das dificuldades que todos enfrentam em tempos de crise.
É fundamental reconhecer que todos estamos a viver os mesmos altos e baixos.
MB/MS







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