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Identidade de género e orientação sexual começam a ser reconhecidas numa fase inicial pelas crianças

IGUALDADE GENERO - milenio stadium

 

A Pflag Canada é uma organização nacional sem fins lucrativos que disponibiliza apoio sobre questões relacionadas com orientação sexual, identidade de género e expressão de género que atua em todas as províncias e jurisdições canadianas. A organização tanto ajuda famílias como indivíduos a nível individual.

Kayla Christenson, diretora de Comunicação da Pflag Canada, disse ao Milénio Stadium que estas questões começam a ser levantadas pelas crianças numa fase muito inicial. “A investigação mostra que os jovens que mais tarde se identificam como transexuais ou de género diverso relataram primeiro reconhecer a sua identidade de género como diferente com uma idade média de 8,5 anos”, conta.

Para a Pflag Canada muitas destas crianças que não se identificam com os padrões predefinidos pela sociedade em matéria de sexo e identidade, sofrem com “problemas de saúde mental, tais como ansiedade e depressão” e uma das formas de ajudar a resolver o problema é mudar o currículo de educação sexual nas escolas. “Precisa de ser representativo de todas as identidades e expressões sexuais e de género”, diz Christenson.

Todas as pessoas têm uma identidade de género. Para algumas pessoas, a sua identidade de género corresponde ao género atribuído à nascença, mas para outras não. As identidades de género que diferem do sexo atribuído à nascença, incluindo as que estão para além do binário, bem como as formas como as expressamos, existem em todo o mundo desde sempre, mas apenas recentemente o tema começou a ganhar mais destaque.

A expressão de género refere-se às formas como uma pessoa escolhe apresentar o seu género ao mundo à sua volta. Isto pode incluir vestuário, pronomes, nomes, etc. Contudo, é importante notar que enquanto aspetos como nomes e vestuário podem ser uma parte intencional da expressão de género de uma pessoa, estes elementos também não precisam necessariamente de ter um género ligado a si. Isto quer dizer que a identidade de género de uma pessoa pode, por vezes, informar a expressão de género de uma pessoa, mas a perceção da expressão de género de uma pessoa não dita a sua identidade de género.

Kayla Christenson DR - milenio stadiumMilénio Stadium: Todos os pais querem o que é melhor para os seus filhos, mas dar apoio nem sempre é fácil – especialmente se for pai ou mãe de uma criança lésbica, gay, bissexual, transgénero, queer, intersexual, assexual (LGBTQIA+). Quais são as maiores preocupações destes pais que chegam à Pflag Canada?
Kayla Christenson: As preocupações mais comuns (e justificadas) que ouvimos dos pais são que as suas crianças 2SLGBTQIA+ vão sofrer preconceitos, intimidação, assédio, violência e discriminação, o que pode fazer com que os pais se sintam sobrecarregados e desamparados. Sabemos que esta é uma realidade para os nossos filhos, especificamente para os nossos jovens Trans, Dois Espíritos, e BIPOC LGBTQIA+ que sofrem discriminação e assédio desproporcionados nas escolas.

MS: Qual é o seu conselho para estes pais que navegarem nesta realidade?
KC: A melhor coisa que pode fazer pelo seu filho é dizer-lhe que o ama, que o vê e que o apoia. Como pais, somos uma das âncoras, se não a mais significativa, nos sistemas de apoio aos nossos filhos. A investigação indica que ter uma família de apoio é um dos mais importantes fatores de resiliência na vida de todos os jovens, pelo que ouvir e saber que são amados por nós pode ter um impacto na vida dos nossos jovens. Eduque-se sobre género e identidades sexuais para que tenha mais conhecimentos se quando o seu filho quiser confiar em si. E, procure a sua Pflag Canada local para estar educado e para estar ligado a um sistema de apoio de pais 2SLGBTQIA+.

MS: Existem muitos equívocos sobre género e orientação sexual. “Apenas uma fase”; “não há cura” e “não procurar a culpa” são expressões comuns que ouvimos por aí. Diria que este tipo de julgamento não ajuda os pais destas crianças?
KC: Grande parte da causa da discriminação, assédio e intimidação que as crianças 2SLGBTQIA+ experimentam está enraizada nestes estereótipos prejudiciais e na desinformação. Temos provas científicas de que estas declarações são enganosas e falsas. A investigação mostra que os jovens que mais tarde se identificam como transexuais ou de género diverso relataram primeiro reconhecer a sua identidade de género como diferente com uma idade média de 8,5 anos. A informação é avançada por Jason Rafferty em “Ensuring Comprehensive Care and Support for Transgender and Gender Diverse Children and Adolescents”. A orientação sexual também é identificada precocemente para muitos jovens. Em média, jovens lésbicas, gays ou bissexuais tomam consciência das suas diferentes orientações sexuais por volta dos 10 anos, mas muitas vezes não “assumem” e só partilham essa informação aos 15 ou 16 anos. As crianças relatam estar conscientes das suas diferenças de género em idades precoces. Ser 2SLGBTQIA+ não é uma fase nem é algo que precise de ser corrigido ou curado. Perpetuar conceitos errados como estes é incrivelmente prejudicial e só vai continuar a ser a causa de danos para toda a vida das nossas crianças e da comunidade 2SLGBTQIA+ em geral.

MS: Precisamos de uma educação sexual mais inclusiva nas escolas canadianas?
KC: O currículo de educação sexual no Canadá precisa de ser representativo de todas as identidades e expressões sexuais e de género – qualquer coisa menos que isso é inaceitável. É nosso dever como pais e educadores exigir uma melhor educação para os nossos filhos – uma educação baseada em provas e investigação, e livre de mitos, preconceitos e desinformação. As nossas crianças 2SLGBTQIA+ merecem ser acolhidas, celebradas e afirmadas em pleno pelo que são nas suas comunidades escolares e isso inclui um currículo de educação sexual inclusivo e afirmativo.

MS: Não são poucas as vezes que as crianças LGBTQIA+ enfrentam o bullying na escola. Como é que os pais podem identificar os sinais de perigo?
KC: Procurar sinais tais como: não querer ir à escola, sentir/estar afastado dos amigos e da família, medo da escola, pesadelos, atuar para evitar situações que envolvam outros jovens. Assegure-se de encorajar uma comunicação aberta com o seu filho. Deixe-o saber que é um espaço seguro e livre de julgamentos para partilharem o que se está a passar no seu mundo – bom ou mau.

MS: Até que ponto é que os problemas de saúde mental afetam as crianças LGBTQIA+?
KC: As nossas crianças 2SLGBTQIA+ sofrem de problemas de saúde mental a uma taxa exponencialmente mais elevada do as outras. Muitas vezes estes problemas de saúde mental, tais como ansiedade e depressão, são o resultado de medo, confusão, vergonha e raiva, por estarem expostos como parte da comunidade 2SLGBTQIA+ e as potenciais consequências disso.

Joana Leal/MS

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