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Estar presente nunca foi tão importante

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É um tema que não gera consenso: se para alguns ter um filho – ou vários – é sinónimo de uma vida preenchida, para outros é um encargo muitas vezes próximo de insuportável e uma inquietação constante. E, entre muitas outras razões, são muitas as pessoas que hoje em dia simplesmente optam por não os ter.

Mas nesta edição do jornal Milénio Stadium, onde tentamos perceber quais são as reais condições que existem no Ontário para se poder aumentar e manter – seja financeiramente ou em termos de disponibilidade – uma família, quisemos saber junto do psicoterapeuta Tiago Souza como é que, realisticamente, estão a ser educadas as crianças nos dias de hoje. Estará o “corre-corre” dos nossos dias a retirar-nos a oportunidade de acompanhar as nossas crianças? Estará esta falta de disponibilidade por trás de comportamentos errantes dos jovens? Ou será, por outro lado, que nos deixamos controlar pelas expectativas que o mundo tem sobre “o que é ser um bom/boa pai/mãe”?

Tiago Souza afirma que “os pais estão apenas a aprender a viver as novas exigências do mundo” – e essas, como bem sabemos, estão em constante mudança. A tecnologia, por exemplo, vem muitas das vezes preencher o vazio deixado pela falta de uma rede de suporte, que muitos – senão a maioria – imigrantes não possuem neste país que os acolheu. Também essa “solução” – quando precisam de um tempo para organizar algo em casa, resolver uma questão ou simplesmente “descansar” – é um “dedo apontado” frequentemente aos pais. Estarão, assim, as crianças cada vez mais entregues a si próprias? E que consequências podem advir desta “nova forma de educar”?

TIAGO SOUZA - MILEWNIO STADIUMMilénio Stadium: É um desejo/sonho de grande parte da população ter filhos: mas como fica a disponibilidade e atenção que as crianças necessitam num mundo cada vez mais acelerado e “sem tempo para nada”? Que condições é que os pais têm, realisticamente e nos dias de hoje, para educar os seus filhos?
Tiago Souza: Estamos evoluindo como sociedade, em um ritmo mais rápido do que nunca. Com essa evolução, mais está disponível para muitos: tecnologia, acesso à informação, interconectividade, para citar alguns dos dispositivos atuais disponíveis para nós, para melhorar nossas vidas e nos dar mais conforto. Dito isto, há também novas demandas. Vivemos mais longe de nossos locais de trabalho, os deslocamentos são mais longos, os turnos não são tão estáveis e previsíveis e há expectativas diferentes sobre as crianças, para realizar e se envolver em atividades extraescolares. Minha pergunta é: não temos tempo, ou estamos entregando o controle de nossas vidas a tendências e expectativas? Os pais sempre têm a chance de tomar decisões que irão beneficiar o relacionamento com seus filhos, mas sentimos que não temos esse poder ou controle. Problemas derivam de não usarmos o tempo e os recursos disponíveis para estar com nossos filhos. Pode não ser a reflexão mais atraente, mas ainda estamos aprendendo a lamentar a perda dos “velhos tempos” de nossa infância, mas os pais estão apenas aprendendo a viver as novas exigências do mundo. Trabalho com os pais para apoiá-los a aprender a recuperar o controle de suas vidas e a “purificá-los” da perspectiva negativa que parecemos compartilhar nos tempos atuais, permitindo-lhes descobrir o tempo, a energia e o entusiasmo para serem pais e usar bem o seu tempo.

MS: Até que ponto é que a sociedade hoje, nomeadamente na GTA, está já a sofrer as consequências dos casais terem filhos e de os deixarem, de certa forma, “entregues a eles próprios” – entretidos com tablets, telemóveis, jogos de computador?
TS: Isso é preocupante, pois as famílias modernas são compostas por dois parentes e filhos, sem muito apoio e presença constante dos parentes mais distantes. As famílias nucleares são menores, as relações familiares estão em transição e muitas famílias de imigrantes não têm outros membros da família por perto. Como profissional de desenvolvimento e saúde mental, continuo a ver uma tendência de pais substituindo os antigos suportes por tecnologia, e também ficando cada vez mais ansiosos em navegar no desenvolvimento normal de seus filhos. Os tablets como “babás” é uma questão de crenças dos pais: eles acreditam não serem capazes de dar conta das demandas parentais, pois já sofrem por serem arrastados para um mundo de cobranças e expectativas, como se não houvesse escolha. Na verdade, não podemos controlar as demandas do mundo, mas podemos controlar como respondemos a elas. A questão é: como ser pai e mãe hoje e não esperar que seus filhos tenham a mesma vida e educação que seus pais tiveram.

MS: Podemos ver, por exemplo, alguns dos recentes episódios de violência levados a cabo por crianças e jovens – em contexto escolar sobre educadores e professores ou até o caso das duas jovens de 13 e 16 anos que assassinaram um homem para roubarem uma garrafa de bebida, perto da Union Station – como o resultado da falta de disponibilidade ou até mesmo de competência de educação por parte dos pais?
TS: Sim, pode haver um paralelo muito próximo entre a falta de educação, instrução, amor e afeição dos pais e instrução adequada por parte do sistema educacional, e os eventos recentes de violência juvenil. Esta é uma lacuna grave, do modelo educacional atual e dos estilos parentais – ou a falta deles. E quando falamos de educação, devemos considerar a qualidade do tempo juntos, o nível de vínculo afetivo com os filhos, os valores nutridos pelos pais e as expectativas depositadas nos jovens. O foco no desempenho, nas notas e no sucesso está se tornando o discurso dominante, deixando de lado a importância de estarmos presentes quando estamos juntos, ouvindo as necessidades das crianças, nutrindo valores relacionados à cidadania, alteridade, generosidade e empatia. Os assuntos do coração estão sendo negligenciados.

MS: Em 2021 foi realizado um estudo (Índice de Parentalidade) em 16 países, de onde se retiraram diversas conclusões: entre elas, a intensa pressão social que pais e mães dizem sentir na forma de criar os filhos, a sensação de isolamento e solidão e o facto de mais de metade da população inquirida dizer que necessitou de fazer “demasiadas cedências” na sua vida pessoal. Apesar das diferenças sociais, económicas e profissionais, alguns receios e consequências da parentalidade são comuns a famílias espalhadas por todo o mundo?
TS: Certamente. As questões do nosso mundo estão sendo compartilhadas globalmente, pois se relacionam com a desconexão em um mundo interconectado. Estamos criando poluição intelectual e tecnológica ao nosso redor, e isso tem um impacto direto nas relações que mantemos com filhos, parceiros, famílias, amigos e sociedade como um todo. Estamos perdendo a capacidade de tomar decisões de forma autônoma, estamos sendo arrastados para uma armadilha de performance, e arrastando nossos filhos para esse caminho. A paternidade e a maternidade nunca foram sobre quantidade, mas qualidade. Ser pai e mãe é dar exemplo. Se pesquisarmos os pais e famílias mais felizes, ficaria curioso para saber o que os torna felizes. Pela minha própria experiência clínica, resistir às tentações de ter que cumprir as exigências da sociedade é uma grande parte disso. Estar presente quando possível, usar o tempo e os recursos para atender às nossas necessidades reais e saber que estamos presentes um para o outro nunca foi tão importante.

MS: Ter filhos é uma decisão vista, cada vez mais, como ou 8 ou 80? Ou seja, para uns é o seu grande propósito de vida e para outros é uma “inquietação” para a vida toda?
TS: Estamos em transição da norma familiar antiga de “crescei e multiplicai-vos” dos séculos passados, para ouvir nossas próprias necessidades e desejos além dessas normas sociais e familiares do passado. Em meio a essa transição, enfrentamos uma crise de valores: qual é a norma para as famílias? Existe um único modelo a ser seguido? As preocupações e dúvidas são o efeito de uma mudança de valores em nosso mundo. Ainda se espera que os pais sejam perfeitos, indivíduos que não desejam ter filhos são tristemente criticados e julgados, e pode não ser o maior propósito da vida para muitos. Devemos ouvir nossos desejos e necessidades, colocar em perspectiva as expectativas que não se alinham conosco e, se decidirmos ser pais e mães, devemos encarar esta tarefa com seriedade. Mas apenas se realmente desejarmos.

Inês Barbosa/MS

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