“Estamos a ver famílias perderem as suas casas” – Manny Andrade

O mercado imobiliário da região de Toronto e GTA atravessa um dos períodos mais delicados das últimas décadas. O aumento acentuado das taxas de juro, a quebra no valor dos condomínios e a redução da imigração estão a criar um cenário difícil para milhares de proprietários que enfrentam dificuldades em refinanciar as suas hipotecas.
Em entrevista ao Milénio Stadium, Manny Andrade, Presidente do Royal LePage Supreme Realty, explica que o problema já é bem visível, sobretudo no sector dos condomínios comprados durante o auge do mercado imobiliário. O responsável acredita que as consequências poderão prolongar-se durante vários anos e alerta para o impacto profundo que esta situação poderá ter na economia da província de Ontário e do Canadá.
Segundo Manny Andrade, os casos mais problemáticos envolvem condomínios adquiridos há três ou quatro anos, quando os preços estavam no pico do mercado.
“Há apartamentos que foram comprados por cerca de um milhão de dólares e que hoje podem ter desvalorizado 30%. O problema é que os bancos não financiam hipotecas acima do valor atual da propriedade. Muitos compradores não conseguem obter o financiamento necessário para fechar o negócio e acabam por perder o imóvel”, explica.
O presidente da Royal LePage considera que esta crise resulta de vários fatores acumulados ao mesmo tempo. Entre eles, destaca o crescimento excessivo da construção durante os anos de maior procura, a forte subida das taxas de juro e a redução significativa da imigração e do número de estudantes internacionais.
“Em 2022 o Canadá recebeu cerca de 1,3 milhões de imigrantes. No ano passado o número caiu drasticamente. Ao mesmo tempo, continuaram a construir-se condomínios em grande escala. Hoje temos muito mais oferta e menos compradores”, refere.
Manny Andrade recorda ainda que o mercado já viveu uma situação semelhante durante os anos 90. “Quem se lembra dessa altura sabe que aconteceu praticamente o mesmo: construiu-se demasiado e depois faltaram compradores. Estamos novamente perante um ciclo semelhante.”
Os números demonstram a dimensão da desaceleração. Segundo Andrade, em 2021 registaram-se cerca de 121 mil vendas imobiliárias, enquanto no ano passado o número caiu para aproximadamente 60 mil. “É uma quebra enorme. Estamos a falar de metade das vendas. Isso mostra bem a fragilidade atual do mercado.”
Outro dos grandes problemas prende-se com a renovação das hipotecas. Muitos proprietários beneficiaram, durante anos, de taxas de juro historicamente baixas e agora enfrentam prestações muito mais elevadas.

Presidente da Royal LePage Supreme Realty. DR.
“Muitas famílias compraram casa quando os juros estavam a 1,4% ou 1,5%. Agora estão a renovar hipotecas a rondar os 4%. Para muita gente isso significa mais do dobro, ou quase o triplo, dos encargos mensais.”
O impacto de toda esta situação que afeta o setor imobiliário já começa a sentir-se em várias outras áreas da economia, especialmente na construção civil, que já tem neste momento muita gente no desemprego.
“Estamos a ver famílias perderem as suas casas. Há pessoas que simplesmente não conseguem suportar o aumento das prestações. Também já se sente uma quebra no emprego, principalmente na construção. Ontário enfrenta atualmente uma taxa de desemprego significativa e isso agrava ainda mais a situação.”
Questionado sobre a possibilidade de o sector imobiliário estar a abrir caminho para uma recessão económica mais profunda, Manny Andrade admite preocupação, embora tente manter algum otimismo.
“O mercado imobiliário é um dos motores económicos da província. Não estamos apenas a falar de compra e venda de casas. Há toda uma cadeia ligada ao sector: advogados, bancos, mortgage brokers, construção civil e muitos outros serviços. Quando o imobiliário abranda, toda a economia sente o impacto.”
Para além disto, o especialista alerta ainda para o efeito psicológico e financeiro da desvalorização das propriedades. “Quando uma família vê a sua casa perder 20% ou 30% do valor, isso representa uma perda enorme do património familiar. Não é apenas um número. Afeta a segurança financeira das pessoas.”
Perante este quadro e apesar do aumento gradual das vendas forçadas pelos bancos, Manny Andrade sublinha que as instituições financeiras tentam evitar despejos em massa. “Os bancos não têm interesse em ficar com as casas. Normalmente tentam encontrar soluções e dão tempo às famílias para reorganizarem a sua situação financeira. É por isso que não estamos a assistir a uma explosão de execuções hipotecárias, mas há claramente um aumento gradual desses casos.”
Apesar de tudo, Manny Andrade consegue vislumbrar uma “luz ao fundo do túnel” e acredita que a crise poderá criar oportunidades para uma nova geração de compradores e para os imigrantes recém-chegados ao Canadá. Isto para além do facto de “as rendas também começarem a estabilizar porque muitos condomínios que não foram vendidos estão agora a entrar no mercado de arrendamento. E se os preços continuarem a baixar, isso poderá abrir portas a jovens compradores que até agora não conseguiam entrar no mercado.”
Por tudo isto e por ser um “otimista por natureza”, Manny Andrade, apesar das dificuldades atuais, acredita que o ajustamento dos preços poderá tornar o mercado imobiliário mais acessível no futuro.
“Há males que vêm por bem. Durante anos era praticamente impossível para muitos jovens ou novos imigrantes comprarem casa em Toronto. Agora começa a haver oportunidades que não existiam há dois ou três anos.”
É o que se chama “ver o copo meio cheio” em vez de o considerar meio vazio.
MB/MS







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