Temas de Capa

Escassez de respeito e admiração

Temperaturas extremas, animais extintos, ondas que, em vez de água, são feitas de plásticos, solos destruídos, ar poluído – os sinais são muitos e mais do que evidentes. Vivemos num planeta que, em tempos, já foi pintado de azul mas que atualmente – e infelizmente – ganha cada vez mais tons negros, de absoluto desastre.

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Créditos: Rob Angelaar/ANP

Enquanto que de um lado do mundo morre, a cada 20 segundos, uma criança vítima de doenças provocadas essencialmente por acesso deficiente ou inexistente a água de qualidade, falta de saneamento ou ausência de políticas de higiene, do outro destrói-se o que se tem – na China, por exemplo, quase 60% das águas subterrâneas estão contaminadas. E isto é apenas uma pequena parte do problema.

Paulo Gil Cardoso, ambientalista, ativista político e colaborador do jornal Milénio Stadium aceitou partilhar connosco as suas opiniões e a sua visão acerca do presente e futuro do nosso planeta… se é que ainda podemos sequer falar em futuro. É que, segundo Paulo Gil Cardoso, há que saber “desfrutar da natureza com respeito e admiração” – mas será que até um conceito que parece tão óbvio enfrenta um “período de seca”?

Milénio Stadium: Temos assistido, particularmente nestas últimas semanas, a diversos fenómenos climáticos, um pouco por todo o mundo, que não só ceifam vidas humanas como causam um enorme rastro de destruição, matando animais e plantas. Esta semana, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, apontou as alterações climáticas e os conflitos como causa e consequência da pobreza, desigualdade de rendimentos e os preços da alimentação. Concorda?

Paulo Gil Cardoso: É por demais evidente que as comunidades mais pobres e menos desenvolvidas sofrem mais com o desequilíbrio ambiental. As débeis economias têm um maior esforço produtivo, sendo as suas indústrias proporcionalmente mais poluentes devido à falta de tecnologia que lhes permita competir com as mais desenvolvidas industrialmente e tecnologicamente. Estas frágeis economias são, na sua maior parte, dependentes da regularidade das estações do ano e do equilíbrio climático. Para conseguirem, por exemplo, alguma produção agrícola e pecuária, estão absolutamente dependentes das condições climatéricas. Sendo a produtividade baixa e com pouco retorno financeiro, consequentemente a aquisição de bens e tecnologia torna-se extremamente difícil. Com a falta de recursos financeiros, as comunidades não conseguem sustentar sistemas de educação, saúde, desenvolvimento e investigação tecnológica. Em muitos países e regiões do planeta as estruturas básicas de saneamento, abastecimento de água, edifícios, estradas são inexistentes, ou muito ineficientes e de má construção. Com vagas de calor, chuvas torrenciais, vagas de frio, furacões, secas extremas, e outros eventos climáticos extremos, as suas frágeis economias são incapazes de resistir ou de se reconstruir. Acontece, assim, uma espiral de definhamento e desestruturação social e civilizacional.

Em 2015 as Nações Unidas lançaram a Agenda 2030, com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

“A Agenda 2030 é uma agenda alargada e ambiciosa que aborda várias dimensões do desenvolvimento sustentável (sócio, económico, ambiental) e que promove a paz, a justiça e instituições eficazes. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável têm como base os progressos e lições aprendidas com os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, estabelecidos entre 2000 e 2015, e são fruto do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo. A Agenda 2030 e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são a visão comum para a Humanidade, um contrato entre os líderes mundiais e os povos e “uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”.”

“17 Objetivos para transformar o nosso mundo”

  1. Erradicar a pobreza
  2. Erradicar a fome
  3. Saúde de qualidade
  4. Educação de qualidade
  5. Igualdade de género
  6. Água potável e saneamento
  7. Energias renováveis e acessíveis
  8. Trabalho digno e crescimento económico
  9. Indústria, inovação e infraestruturas
  10. Reduzir as desigualdades
  11. Cidades e comunidades sustentáveis
  12. Produção e consumo sustentáveis
  13. Ação climática
  14. Proteger a vida marinha
  15. Proteger a vida terrestre
  16. Paz, justiça e instituições eficazes
  17. Parcerias para as implementações dos objetivos.

A lista está apresentada, os objetivos identificados, porém a ação tarda.

MS: Nove milhões de toneladas de lixo plástico terminam, todos os anos, nos oceanos. É assustador perceber que a produção em massa deste produto, que começou há cerca de seis décadas, criou mais de oito mil milhões de toneladas métricas de resíduos, na sua maioria descartáveis e que, por isso, terminam no lixo. Para além disso, desse total de resíduos, segundo um estudo da Science Advances,  6,3 mil milhões de toneladas métricas transformaram-se em resíduos de plástico e desse número apenas 9% foi reciclado. Significa isto que cerca de 80% ou se tem vindo a acumular em aterros, ou termina no que se tem tornado no maior contentor do mundo: os oceanos. Haverá fim à vista para este verdadeiro filme de terror?

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Paulo Gil Cardoso. Crédito: DR.

PGC: Não se vislumbra um final feliz para este filme. A imensa escala de produção de plásticos é aparentemente imparável. A atual linha de desenvolvimento de objetos, para todo o tipo de usos, é o plástico. Houve as idades do ferro, do cobre, do bronze, e outras…, a que vivemos atualmente é a idade do plástico, mais corretamente, a idade dos polímeros. Muito diferente de outras eras é a escala. A população humana é gigantesca, e por sua vez, os objetos que utiliza são de uma quantidade astronómica. Desde a simples garrafa ou saco de plástico, passando por todos os materiais (plásticos) que dão corpo a computadores, esferográficas, telemóveis, interiores de carros, cadeiras, mesas, um sem fim de objetos e construções…, vivemos rodeados de polímeros e aparentemente somos absolutamente dependentes destes materiais. A incomensurável produção resulta numa incomensurável quantidade de resíduos e desperdício, a falta de capacidade de reciclagem e reutilização, aliadas à irresponsabilidade e inconsciência humanas, levam ao descartar de qualquer maneira aquilo que já não serve ou não interessa. Apenas será possível inverter esta situação com cinco urgentes ações: educar, reduzir produção, aumentar reciclagem e reutilização, desenvolver materiais alternativos com menos impacto ambiental, recolher os resíduos que já foram despejados na natureza e reciclá-los.

MS: A Suécia é um excelente exemplo de um país onde se promove a consciência ambiental, sendo visíveis no dia a dia dos cidadãos boas práticas sustentáveis e que contribuem, na medida do possível, para um amanhã melhor. Tomando então como exemplo a Suécia, que tipo de iniciativas se poderiam replicar noutros países do mundo?

PGC: Vejamos quais os alicerces que permitem apresentar a Suécia como um bom exemplo: educação e conhecimento científico, educação cívica, a não existência de megalópoles. É essencial investir no conhecimento, e reordenar e diminuir excessivas concentrações populacionais. Na sequência destes dois pilares, surgirá com certeza uma multiplicidade de medidas e comportamentos ambientalmente conscientes.

Existem boas iniciativas um pouco por todo mundo, lembro aqui o movimento Limpar Portugal em 2010 (replicado de outros países europeus), em que a sociedade civil se mobilizou para retirar lixos existentes na natureza. Em Vagos, Aveiro, onde vivo, coordenei a ação concelhia desta iniciativa, que teve uma enorme adesão de toda a sociedade civil, autarcas, empresas e associações. Em oito horas, num só dia, mais de 400 voluntários recolheram 800 toneladas de lixo. As ações de consciencialização do Estado, dos meios de comunicação social, de todo o sistema de ensino, de cada um de nós, são essenciais à mudança.

MS: Por outro lado, existe sempre a outra face da moeda: os negacionistas e aqueles que tentam travar as iniciativas de quem quer, literalmente, salvar o planeta. Foi o caso, por exemplo, do assassinato da ambientalista Joannah Stutchburyno Quénia. Que razões estarão por detrás de atos como este?

PGC: Falta de conhecimento, ganância, sede de poder, fazer dinheiro a qualquer custo, estas são as razões que levam a atos bárbaros como o assassinato de Joannah. As vozes incómodas ou que não permitem que a ambição desmesurada progrida, são eliminadas, desacreditadas e perseguidas.

Existe de alguma forma uma semelhança entre a autodestruição da humanidade e o “suicídio” em massa dos Lemingues. Em anos em que se atingem níveis de superpopulação, os Lemingues encetam uma migração em larga escala em busca de alimento, encontrando os precipícios dos fiordes acabam por cair e morrer aos milhares. O que acontece realmente não é suicídio. A quantidade de animais em movimento é de tal ordem que os da frente da onda, mesmo apercebendo-se do precipício, nada conseguem fazer para rumar contra a enorme maré dos seus semelhantes, e acabam todos caindo no abismo. A grande quantidade dos que vêm atrás e não veem o perigo, acabam por levar tudo na sua frente, e quando se apercebem da desgraça iminente, já é tarde para eles mesmos…

MS: Olhando para o mundo hoje e fazendo um balanço daquilo que fomos perdendo ao longo dos últimos tempos ainda haverá alguma esperança de recuperarmos o que o Homem destruiu? Ou já estamos num ponto em que apenas podemos “minimizar os danos”?

PGC: Teme-se que o sistema climático da Terra possa já ter ultrapassado alguns limites de estabilidade, havendo pontos e alturas em que bolsas localizadas atingem picos de temperaturas elevadas ou de temperaturas baixas. Se assim for, ondas de calor, e também ondas de frio, passarão a ter uma maior frequência, e poderão estar já para além dos modelos climáticos atualmente considerados. Haverá cada vez mais fenómenos climáticos extremos.

Olhando para os planetas, nossos vizinhos e irmãos, verificamos quão diferentes as suas atmosferas são da nossa casa Terra. Mercúrio tem temperaturas máximas de cerca de 427ºC e mínimas de -173ºC, Marte, por sua vez, tem temperaturas máximas de 20ºC e mínimas de -140ºC.  Não são muito diferentes daquilo em que a Terra se pode tornar. O equilíbrio é extremamente frágil.

Num artigo publicado na revista Nature afirma-se que os níveis de CO2 são os mais elevados dos últimos 800.000 anos. Apenas entre 2004 e 2008 existe um aumento de cerca de 2,1% de partes por milhão de CO2 conforme valores apresentados pela NOAA (National Oceanic & Atmospheric Administration a equivalente norte americana para a Agência Portuguesa do Ambiente) corroborado pelo IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas).

A existência do Dióxido de Carbono na atmosfera terrestre é uma das principais condicionantes à vida no nosso planeta, a sua existência é imprescindível à regulação da temperatura na Terra, sem o Efeito Estufa provocado pela sua existência a Terra teria amplitudes térmicas muito maiores, a energia calorífica recebida do Sol perder-se-ia para o espaço, teoriza-se que haveria temperaturas muito mais elevadas durante o dia e temperaturas muito mais baixas durante a noite. Havendo maior amplitude térmica, os movimentos das massas de ar teriam um comportamento completamente diferente (por ex. ventos com centenas de km por hora) e possivelmente o nosso planeta tornar-se-ia inóspito, sendo incomportável a vida tal a conhecemos.

O equilíbrio, no entanto, é muito frágil, se a ausência de Dióxido de Carbono é nefasta para a atmosfera, a sua existência em excesso mais nefasta ainda se pode imaginar. A temperatura média na Terra aumentou no espaço de um século como nunca antes, devido à emissão exagerada de CO2 provocada pela atividade humana, essencialmente pela destruição de florestas e a queima diária incomensurável de combustíveis fósseis. As elevadas temperaturas em zonas de tundra, como na Sibéria, estão a provocar a destruição do permafrost levando a que enormes quantidades de Metano sejam libertadas na atmosfera, as condições de altas temperaturas e seca têm também provocado incêndios gigantescos que são capazes de lavrar durante várias semanas sem qualquer hipótese de controlo.

É impossível atualmente inverter este cenário, o que significa que o aquecimento global continuará durante muitos anos, mesmo que interrompamos de imediato as nossas emissões. É um comboio sem travões, porém, podemos evitar que acelere, e esperar que eventualmente vá perdendo velocidade. O aquecimento global está a provocar instabilidade climática por todo o globo, além da diminuição perfeitamente verificável das calotes polares e dos glaciares. A subida do nível médio das águas dos oceanos põe em causa a existência de alguns países, em que as cotas dos seus territórios estão muito próximas do nível do mar. Todos percebemos que o clima está alterado, vagas de frio, vagas de calor, secas extremas, chuvas em demasia, a Terra queixa-se e reclama.

As alterações climáticas sempre existiram ao longo de toda a vida da Terra. Pensarmos que o clima é um sistema estável é uma ilusão provocada pelo nosso curto período de vida, seja o tempo de vida de cada um de nós, seja o tempo da existência do homem neste planeta.

A Terra é um sistema dinâmico e sempre em constante variação. As alterações climáticas foram acontecendo ao longo dos 4,5 mil milhões de anos da sua existência, houve períodos de temperaturas elevadas e períodos glaciares, zonas onde muito chovia e com florestas luxuriantes que passaram a desertos áridos, zonas inóspitas de extremos climatéricos que passaram a ser paradisíacos, sempre aconteceu a mudança, seja globalmente ou localmente. Essas alterações tiveram diversos motivos, velocidades e amplitudes, desde a atividade vulcânica, passando pela variação da inclinação do eixo da Terra, da variação da atividade do Sol, impactos de meteoros, alteração da composição atmosférica provocada pela própria existência de vida, radiação cósmica, movimentos tectónicos e geomorfológicos, avanço e recuo dos oceanos, existência de mais água doce ou mais água salgada, alteração de correntes oceânicas, etc., etc..

Conhecemos locais que independentemente da atividade humana tiveram grandes variações, como é o caso do deserto do Sahara que anteriormente foi uma floresta tropical, ou do Deserto do Sal Uyuni na Bolívia com mais de 10.000 metros quadrados, que fica a 3.600 metros acima do nível do mar, que já foi um lago e começou a secar há mais de 40.000 anos.

As alterações climáticas até ao final do século XIX aconteceram sem o impacto da atividade humana, a partir daí, com a Revolução Industrial, tudo se alterou, e aqui é que está a diferença que nos deve preocupar.

A vida na Terra tal a conhecemos está a ser posta em causa pela nossa atividade, as gerações futuras da nossa própria espécie terão enormes dificuldades de sobrevivência.

No imediato sofremos já com fortes tempestades mais frequentes, períodos de calor ou de frio extremos. Até naquilo que move a nossa sociedade, que é o dinheiro, sofremos enormes impactos. Os gastos financeiros com as alterações climáticas são um facto real, desde os gastos com aquecimento, aos gastos com refrigeração passando pelos custos de destruição de cidades inteiras ou campos agrícolas.

Para podermos garantir a nossa existência e qualidade de vida temos de nos adaptarmos e perceber que o único caminho é saber desfrutar da natureza com respeito e admiração.

Inês Barbosa/MS

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