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Equilíbrio – A palavra de ordem

 

Podemos afirmar que a dependência de telemóveis atinge já níveis preocupantes? A psicóloga Natalia Russo não hesita na resposta – sim. E explica que o oncologista e presidente do Instituto de Pesquisa Rafaël, localizado em Levallois-Perret, França, Dr. Alain Toledano, afirma que embora o smartphone não seja uma “droga”, provoca “condução aditiva” e “usos problemáticos”. Natalia Russo sublinha ainda que numa pesquisa com mais de 20.000 pessoas, 70% afirmaram que não conseguem desligar-se do aparelho e sentem ansiedade quando estão longe dele. Além disso, mais de 50% usam o telefone logo ao acordar e 30% até na casa de banho. O uso abusivo é perigoso, aumentando em 23 vezes os acidentes ao volante.

São inúmeros os dados e sinais de que os telemóveis são causadores de situações altamente preocupantes no âmbito da saúde mental, por isso se tornou preciosa esta conversa com uma profissional qualificada. Natalia Russo é membro da Ordem do Psicologos no Brasil, mas também integra a Ordre des psychologues du Québec. Tem mais de 20 anos de experiência e entre outras áreas especializou-se na área da educação e aceitou despender tempo para nos ajudar a entender o alcance e a dimensão deste verdadeiro problema social do nosso tempo.

Ninguém no seu perfeito juízo deseja um retrocesso tecnológico, um regressar ao tempo das cartas e dos telefones fixos, mas todos podemos facilmente admitir que nesta situação, como em tantas outras da vida, o equilíbrio é fundamental.

Milénio Stadium: Que sinais que podem indiciar um nível de dependência preocupante?
Natalia Russo: Considero que pelo menos quatro dos seguintes sinais e sintomas podem indicar a presença de uma possível dependência de celular:

  • Tolerância: Necessidade crescente de utilizar o celular com maior frequência para alcançar o mesmo efeito desejado.
  • Abstinência: Manifestação de sintomas como raiva, tensão, depressão, irritabilidade e inquietação quando o celular ou a conexão não estão disponíveis.
  • Dificuldade em reduzir o uso: Fracasso persistente em diminuir o tempo de uso do celular, apesar das tentativas.
  • Preocupação excessiva: Foco desproporcional no uso do smartphone em detrimento de outras atividades e responsabilidades.
  • Utilização como mecanismo de enfrentamento: Recorrer ao celular para lidar com emoções indesejadas, como ansiedade ou depressão.
  • Uso excessivo: Percepção da perda da noção do tempo devido ao tempo prolongado de uso do celular. –
    Impacto nos relacionamentos e no trabalho: Colocação em risco de relacionamentos interpessoais e desempenho no trabalho devido ao uso excessivo do celular.
  • Necessidade de novas tecnologias: Necessidade crescente de adquirir dispositivos mais recentes, instalar mais aplicativos ou aumentar a frequência e duração do uso.

MS: O que torna o telemóvel um objeto perigoso, quando se fala de dependência?
NR:
Potencial de dependência: O uso excessivo pode levar à dependência, contribuindo para problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade.

  • Aumento do stress: A necessidade constante de verificar o telefone aumenta os níveis de stress. A resposta contínua a notificações coloca o corpo em estado de alerta.
  • Atenção prejudicada: Sons e vibrações de notificações distraem e reduzem a concentração. Mesmo a presença de um telefone pode diminuir a atenção durante tarefas complexas.
  • Mudanças na memória: O uso frequente de smartphones pode alterar a forma como armazenamos informações, diminuindo a retenção de experiências pessoais.
  • Perturbações do sono: O uso de smartphones na cama prejudica o sono, causando insônia e dificuldades para adormecer. Especialistas do sono recomendam evitar dispositivos eletrônicos 30 minutos antes de dormir.
    Fadiga ocular e dores de cabeça: A exposição prolongada aos ecrãs pode causar fadiga ocular, visão dupla, dificuldades de foco, dores de cabeça e secura nos olhos, devido à luz azul e à proximidade do telefone.
  • Dores na nuca, costas e ombros: Segundo uma pesquisa (não lembro bem a fonte) realizada em 2022 com estudantes universitários, o uso excessivo de smartphones está associado a dores na nuca, costas e ombros, devido à má postura. Um exemplo é a “síndrome do pescoço de texto” (text neck), uma lesão por esforço repetitivo no pescoço causada por longos períodos com a cabeça inclinada para baixo.
  • Dores nas mãos e pulsos: O uso excessivo de smartphones pode causar síndrome do dedo em gatilho, artrite no polegar e dores no pulso.

MS: Os pais, muitos deles também já com níveis elevados de dependência, têm autoridade moral para educar os seus filhos no sentido da não utilização excessiva de dispositivos móveis?
NR: Como profissional que atende tanto pacientes online no Brasil, quanto em meu consultório em Montreal, por meio do meu fellowship em psicologia clínica, posso compartilhar insights valiosos extraídos de uma pesquisa conduzida por Caroline Fitzpatrick, Elizabeth Harvey da Universidade de Sainte-Anne e a estudante Alexa Johnson. Essa pesquisa, realizada ao longo de três anos com cerca de 200 famílias na Nova Escócia, teve como objetivo investigar o impacto do uso de dispositivos móveis pelos pais no desenvolvimento de seus filhos. Utilizando o questionário Ages & Stages, o estudo avaliou o progresso das crianças em diversas áreas de desenvolvimento. Os resultados revelaram uma associação entre o tempo que os pais passavam diante das telas e o desempenho das crianças em termos de desenvolvimento global, abrangendo aspetos como desenvolvimento motor, comunicação, resolução de problemas e habilidades sociais. Pais que relataram maior tempo de exposição a dispositivos eletrônicos tiveram filhos com pontuações mais baixas nessas áreas. Esses achados enfatizam a importância da qualidade das interações entre pais e filhos para um desenvolvimento saudável das crianças. Interrupções constantes causadas pelo uso excessivo de telas foram associadas a uma menor qualidade dessas interações e possíveis impactos negativos no bem-estar emocional das crianças. Com base em minha experiência clínica, observo que estabelecer regras claras em relação ao uso de dispositivos eletrônicos pode contribuir significativamente para um ambiente familiar mais saudável e promover interações mais enriquecedoras entre pais e filhos. Portanto, recomendo aos pais que reflitam sobre seus próprios hábitos midiáticos e busquem alternativas para promover uma relação equilibrada com a tecnologia em suas famílias.

MS: Até que ponto as relações interpessoais, no interior da família nuclear e fora dela, estão a ser afetadas por este tipo de dependência?
NR: Observo em meus atendimentos como psicóloga que as relações interpessoais estão sendo profundamente afetadas pela dependência de dispositivos móveis, tanto dentro quanto fora da família nuclear. Pesquisas, como o artigo recente que li na The Atlantic, evidenciam os impactos negativos substanciais do uso excessivo de smartphones por crianças e adolescentes em seu desenvolvimento emocional e social. Esses estudos ressaltam que o aumento do tempo dedicado às telas está gradualmente substituindo as interações presenciais, resultando em uma diminuição da qualidade do tempo gasto com familiares e amigos. Essa falta de conexão genuína pode gerar sentimentos de isolamento, escassez de apoio emocional e até distúrbios de saúde mental, como ansiedade e depressão. A ausência de interações face a face e a crescente dependência de dispositivos móveis podem prejudicar a capacidade das crianças e adolescentes de desenvolver habilidades sociais cruciais, como empatia, comunicação interpessoal e resolução de conflitos. Além disso, a exposição constante às redes sociais e conteúdos online pode criar uma ilusória sensação de conexão, quando na verdade contribui para sentimentos de solidão e desconexão emocional. Essa dinâmica complexa ressalta a necessidade urgente de abordar de forma consciente e proativa o equilíbrio entre o uso de tecnologia e as interações pessoais, visando preservar o bem-estar emocional e fortalecer os laços sociais e familiares.

MB/MS

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