Temas de Capa

Entre a crise e a esperança: O trabalho do Centro Abrigo no apoio à vulnerabilidade

Photo: @copyright

Numa altura em que a insegurança alimentar, a crise habitacional e o aumento do custo de vida afetam milhares de pessoas no Canadá, instituições comunitárias desempenham um papel cada vez mais crucial no apoio às populações mais vulneráveis. O Centro Abrigo, com décadas de serviço, tem estado na linha da frente deste trabalho, oferecendo não apenas assistência imediata, mas também programas que visam devolver autonomia, segurança e dignidade a quem procura ajuda. 

Nesta entrevista, Lena Barreto, Board Chair do Centro Abrigo, partilha a sua visão sobre o crescimento da procura por apoio, os desafios humanos e operacionais enfrentados pela organização e o papel fundamental da comunidade na resposta a estas necessidades. Fala ainda sobre as mudanças estruturais necessárias para reduzir a dependência de abrigos e bancos alimentares, e explica como o programa Pathway to Income Empowerment tem sido essencial no acompanhamento e capacitação dos clientes.

Milénio Stadium: Como tem evoluído o número de pessoas que recorrem ao abrigo nos últimos anos e que fatores, na sua visão, mais contribuíram para esse aumento?

Lena Barreto. Photo: @copyright

Lena Barreto: O Centro Abrigo é uma organização que apoia necessidades diversas; dedicamos sobretudo os nossos serviços à Violência Baseada no Género (VBG). Contudo, ao longo dos anos percebemos que a VBG não é um fenómeno isolado e que muitas vezes exige apoio e serviços adicionais. No ano passado, o Abrigo atendeu 7.292 clientes; deste total, 2.809 solicitaram apoio através do nosso Programa Pathway to Income Empowerment, que se dedica a ajudar clientes no acesso à habitação, emprego e alimentação. No Canadá, registámos um aumento de cerca de 87% no número de pessoas que recorrem a bancos alimentares e outras organizações de apoio alimentar desde 2020. Estes números alarmantes podem ser atribuídos a vários fatores, sobretudo: o elevado custo da habitação; um aumento significativo da inflação, especialmente nos preços dos alimentos; salários estagnados que não acompanham o aumento do custo de vida; e, por fim, a deterioração da saúde mental e a dificuldade em aceder ao apoio adequado, que frequentemente afeta o bem-estar de indivíduos e famílias.

MS: Quais são os maiores desafios operacionais e humanos que o centro enfrenta para conseguir responder às necessidades básicas de quem procura ajuda?

LB: O Centro Abrigo é uma organização sem fins lucrativos com mais de 35 anos de serviço à comunidade. Somos uma instituição reconhecida na nossa área de atuação e esforçamo-nos por nunca deixar ninguém sem apoio. Embora procuremos todos os recursos possíveis em termos de financiamento, também nós sentimos o impacto da inflação no custo de bens essenciais, como renda, seguros e salários. Ainda assim, fazemos todos os esforços para estender os nossos recursos e maximizar o impacto do nosso trabalho. Dependemos fortemente de voluntários que ajudam em diversas tarefas para reduzir alguns custos. Temos parcerias com a Rama & Delta Bingo, que partilham os seus lucros líquidos com instituições de caridade parceiras. Organizamos ainda vários eventos de angariação de fundos ao longo do ano, sendo o mais importante a Gala Anual – a próxima terá lugar a 28 de março de 2026. Estas iniciativas exigem muito tempo e, como qualquer pessoa ligada ao setor social sabe, são extremamente desafiantes. Todos os dias persiste a preocupação: conseguiremos continuar a ajudar? Vamos conseguir manter-nos?

MS: De que formas os cidadãos comuns podem contribuir de forma mais eficaz, seja com doações, voluntariado ou sensibilização, para aliviar a pressão sobre o abrigo e apoiar as pessoas em situação de fome ou vulnerabilidade?

LB: Acredito que, para mobilizar apoio, precisamos de contar a nossa história. As nossas comunidades precisam de saber que existe necessidade, que há pessoas que podem beneficiar da sua ajuda e generosidade. Também acredito que qualquer pessoa pode ajudar. Muitas vezes pensamos que a única forma de contribuir é através de donativos monetários, mas quero lembrar que existem muitas outras maneiras. Tal como referido na pergunta: sim, voluntariem-se; sim, informem-se; sim, partilhem a vossa história se já utilizaram os nossos serviços. Para apoiar o Abrigo e os nossos clientes, é possível fazer um donativo, qualquer valor é bem-vindo, entregar alimentos não perecíveis, organizar uma recolha de alimentos em nosso nome, como já fazem vários clubes e grupos luso-canadianos da comunidade. Paralelamente, o Abrigo continua a colaborar com organizações irmãs enquanto apelamos ao governo para implementar mudanças que aumentem a disponibilidade de habitação acessível, melhorem o acesso a cuidados de saúde consistentes e muitos outros serviços que beneficiarão a comunidade.

MS: Na sua experiência, que mudanças estruturais (sociais, económicas ou políticas) considera essenciais para reduzir a insegurança alimentar e evitar que mais pessoas dependam de abrigos e bancos alimentares?

LB: Não existe uma resposta simples ou imediata. Sinto que os nossos governos têm falhado os cidadãos mais vulneráveis, seja com cortes em financiamentos essenciais, seja por não aumentarem os apoios para acompanhar o crescimento das necessidades. Também acredito que os governos se habituaram ao facto de a diferença estar a ser colmatada por donativos individuais. Temos visto cada vez mais organizações e instituições de solidariedade a procurar novas formas de financiar os seus programas, dando prioridade estratégica à angariação de fundos e ao contacto constante com as comunidades locais. Embora isto tenha algum efeito, é também extremamente exigente, levando algumas instituições a recorrer a angariadores de fundos profissionais para suprir as suas dificuldades financeiras. Quanto ao que deve ser feito, todos os níveis de governo precisam de implementar políticas que aumentem e melhorem o acesso aos serviços sociais, indexando os apoios ao custo de vida; ampliar a oferta de habitação a preços acessíveis; criar mais programas de apoio ao rendimento; apostar na educação; e reforçar o compromisso com a saúde. Estas mudanças permitiriam um maior apoio aos cidadãos vulneráveis, garantindo que ninguém passa fome ou vive sem abrigo no Canadá.

MS: Que tipo de trabalho o Centro Abrigo faz nesta área?

LB: O programa Pathway to Income Empowerment (PIE) do Abrigo, como referi anteriormente, é uma das formas através das quais trabalhamos com os nossos clientes. O programa permite-lhes aceder a um conselheiro que identifica os serviços mais adequados para responder às suas necessidades. O objetivo é facilitar o acesso à habitação, à manutenção de rendimento através do Ontario Works, do Programa de Apoio à Deficiência de Ontário, do subsídio de desemprego, da pensão do Canadá, da Segurança na Velhice, do Subsídio para Cônjuges, dos programas de alívio de impostos municipais e de água, entre outros. O PIE também fornece informação e encaminhamento para outros serviços, como apoio jurídico, saúde mental, apoio ao emprego, educação, etc. O Abrigo conta com alguns dos conselheiros mais competentes nesta área, altamente respeitados e com grande conhecimento para apoiar e orientar muitas famílias nestes tempos difíceis.

RMA/MS

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button

 

O Facebook/Instagram bloqueou os orgão de comunicação social no Canadá.

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER