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“É uma emergência e nós queremos que o governo atue como tal” Gideon Forman – Fundação David Suzuki

Crise climática

Temos o planeta em risco. Chegou a hora de tratar as questões climáticas com outros olhos – mais atentos, mais preocupados, mais ativos. Basta prestar atenção ao que tem acontecido em todo o mundo: tornados, calor extremo, incêndios descontrolados, inundações catastróficas. São milhares de pessoas a perder tudo: se por sorte salvarem a vida, muitas vezes é só mesmo isso que lhes resta, porque no meio dos desastres ambientais de que são vítimas, perdem-se familiares ou amigos, desfazem-se casas e nos destroços perdem-se as memórias de uma vida.

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Credit: David Ganhão

A emergência climática e ambiental tem provocado o aumento dos desastres provocados pelo desequilíbrio ecológico e por isso é cada vez mais crucial falarmos sobre esta problemática. Por isso, nesta edição do jornal Milénio Stadium dedicada a este tema, estivemos à conversa com Gideon Forman, analista de mudanças climáticas e políticas de transporte da Fundação David Suzuki, uma organização ambiental de base científica sem fins lucrativos, fundada em 1990, que surgiu com o propósito de trabalhar para conservar e proteger o meio ambiente e ajudar a criar um Canadá sustentável.

Milénio Stadium: Perante os acontecimentos recentes – um pouco por todo o mundo – sente que o cumprimento da “missão” da David Suzuki Foundation “capacitar as pessoas a agirem nas suas comunidades em relação aos desafios ambientais que enfrentamos coletivamente” – ainda se torna mais urgente?

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Gideon Forman, analista de mudanças climáticas e políticas de transporte da Fundação David Suzuki. Créditos: DR

Gideon Forman: Sim, penso que a resposta mais curta será “sim”. Há uma série de eventos à escala global – aqui, no Canadá, temos tido incêndios a queimar várias zonas de algumas províncias, entre elas Columbia Britânica e Ontário. Na Europa tem sido terrível também, com alguns países com cheias a destruírem tudo.

MS: E que tipo de trabalho desenvolvem para ajudar as comunidades a olhar para o ambiente e a natureza de forma diferente?

GF: A primeira coisa é a nossa filosofia: não há separação entre a vida humana e a natureza. O nosso slogan diz “One Nature”, e penso que o David Suzuki quer dizer com isso é que o que nós fazemos à natureza, fazemos a nós próprios. Se poluirmos a água e vamos bebê-la assim vamos ficar doentes; se poluirmos o ar, então quando respirarmos vamos ficar doentes. Isto porque o ar é parte de nós, a água é parte de nós e a natureza é parte de nós. A primeira coisa que tentamos fazer é tentar falar com as pessoas sobre a interdependência entre o mundo humano e a natureza. Nós também encorajamos os canadianos a sair para espaços ao ar livre, procurar a natureza, passar algum tempo numa floresta por exemplo, ou num campo, ou numa ravina caso vivam numa cidade. Tentamos também ajudar as pessoas a fazerem com que as cidades sejam mais naturais. Outra coisa que fazemos é encorajar as pessoas a ter o que chamamos de plantas que atraiam polinizadores e plantá-las – estas são plantas que atraem abelhas e borboletas para os jardins!

Estas são algumas coisas que fazemos. Queremos que as pessoas percebam que nós fazemos parte do ambiente, nós precisamos do ambiente e queremos que as pessoas saiam e aproveitem a natureza.

MS: E o que podem fazer as pessoas, individualmente, para contrariar estes fenómenos extremos – inundações, incêndios, temperaturas extremamente elevadas… ? Que tipo de comportamentos têm que ser mudados?

GF: No nosso dia a dia, enquanto indivíduos, há uma série de coisas que podemos fazer. Podemos fazer algumas alterações no nosso estilo de vida – nós, por exemplo, pedimos às pessoas que conduzam o seu carro o menos possível, optando por andar, usar os transportes públicos ou usar uma bicicleta. Isto porque os transportes são uma das grandes fontes de gases do efeito de estufa – a maioria provenientes de carros e camiões. Em Ontário, por exemplo, a maior fonte de gases de efeito de estufa, que estão a criar uma emergência climática, são os transportes. Por isso pedimos às pessoas que encontrem soluções. Se puderem tirar umas férias e ir de autocarro ou comboio em vez de irem de avião, por exemplo, já é melhor. Nós também pedimos às pessoas que tenham em atenção à dieta que fazem: podem comer menos carne? Porque produzir carne, particularmente carne de vaca, é sinónimo de uma intensa produção de gases de efeito de estufa. Outro exemplo tem que ver com a casa de cada um: poderemos ter uma casa mais eficiente no que à energia diz respeito? Conseguimos isolar a casa melhor, de forma a que se use menos combustível? Estes são alguns exemplos do que fazemos no nosso dia a dia para chamar à atenção das pessoas acerca da  emergência climática.

MS: Para além do indivíduo, há também a questão importante de tomada de decisões políticas que podem realmente alterar o estado de coisas. Que esperança têm que, por exemplo no Canadá, essa componente seja garantida?

GF: Não tenho a certeza se pode ser garantida, mas certamente concordo que temos que fazer com que os nossos governos façam mais. Há coisas que podemos fazer no nosso dia a dia, mas também precisamos que o nosso governo faça mais. Nós precisamos que o governo, por exemplo, construa mais transportes públicos. Se vamos ter pessoas que vão usar menos os seus carros, temos que providenciar mais autocarros, mais elétricos etc., para que as pessoas tenham alternativas. Não podemos apenas dizer “deixem o carro em casa” e depois não apresentar alternativas para que isso possa acontecer. E isso é algo que o governo pode fazer. Precisamos que o governo invista mais em energia renovável. Em algumas partes do Canadá, em Alberta e Saskatchewan, ainda queimam carvão para produzir energia. O governo poderia parar essa situação – eles estão a fazer com que isso desapareça, mas nós acreditamos que esse processo devia ser mais acelerado. Além disso, o governo também poderia dar mais incentivos para que as pessoas optem por comprar carros elétricos – o governo federal providencia alguma coisa para essa área, a província de Ontário fazia isso antes e nós defendemos que o governo todo devia dar realmente incentivos.

MS: A Fundação David Suzuki defende também que o modelo económico que domina o mundo não está a resultar e acreditam que é necessário apostar na chamada economia do bem-estar. O que querem dizer com isso concretamente?

GF: O modelo antigo da economia defende que “mais é melhor”, quanto mais a economia crescer, melhor. O que se quer é que a economia cresça, que haja mais produto interno bruto. O ideal é que se venda mais, que as pessoas comprem mais carros, que se cortem mais árvores e tudo isso se adiciona ao crescimento da economia. Por outro lado, o que nós defendemos na David Suzuki Foundation é que esse antigo modelo de economia que cresce continuamente pode ser muito prejudicial. Se continuarmos a cortar mais árvores, vamos continuar a fazer a economia crescer, mas nós vamos precisar delas para nos providenciarem oxigénio, por exemplo. Se nos focarmos apenas nesse crescimento económico, deixamos para trás uma peça essencial: a felicidade das pessoas e a proteção da natureza. Temos que nos focar no nosso bem-estar e não no crescimento económico. Portanto o que nós gostaríamos que existisse é um modelo económico que se questione: como é que vamos ter o melhor bem-estar possível? Como é que vamos fazer as pessoas felizes, satisfeitas, saudáveis… ao mesmo tempo que protegemos o meio ambiente? É isso que queremos dizer quando nos referimos ao “well-being economy”: a saúde das pessoas e meio ambiente.

MS: Acha que estes fenómenos meteorológicos extremos podem “ajudar” a criar a consciência coletiva de que é preciso agir para mudar?

GF: Sim. Estes eventos climáticos extremos têm causado mortes. Temos vistos centenas de mortes na Columbia Britânica por causa do calor e várias outras partes do mundo com inundações. São tragédias. Nós sentimo-nos muito mal por ver estas pessoas a perderem a vida por causa destes desastres.

MS: Mesmo que não morram, há muitas pessoas a perder tudo, como podemos ver a acontecer nas cheias na Alemanha, na Bélgica por exemplo…

GF: Exatamente, as inundações têm provocado estragos imensuráveis e as pessoas têm perdidos as suas casas. Portanto isto são tragédias. Também é o caso que estas tragédias aumentam a conscientização, é muito triste, mas de facto fazem com que as pessoas prestem atenção à crise climática. Por isso esperamos que as pessoas olhem para estas tragédias e se tornem mais ativas, mais conscientes, que façam mais no seu dia a dia para que a crise climática seja falada e que também pressionem o governo a fazer algo em relação a esta situação. A crise climática é uma emergência e nós queremos que o governo atue como tal.

Catarina Balça/MS

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