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E se?… A pergunta sem resposta

milenio stadium - pergunta reposta aborto

 

Interromper uma gravidez é uma decisão da mulher – este é o grande argumento de quem defende o princípio da liberdade no momento de se determinar a opção de se abortar ou não. Acrescentando que o corpo é da mulher e por isso este ser um assunto exclusivamente seu.

Os fatores que levam à ponderação desta tomada de decisão são vários e para lá dos que se prendem com questões de saúde, da mãe ou do bebé, há muitos outros que podem pesar para um ou para outro lado. Os testemunhos de mulheres de todo o mundo que, por circunstâncias várias, abortaram, transmitem uma ideia clara da dificuldade que envolve esta decisão – o sentimento de culpa sobrepõe-se, demasiadas vezes, à racionalidade e atormenta a mente da mulher o resto da vida. O “e se…” aparece e faz reviver tudo, mesmo quando se sente que a decisão foi a mais acertada atendendo ao contexto em que foi tomada. Depois há o medo, a vergonha de partilhar o que se fez, muito induzidos por uma sociedade alicerçada num ambiente de punição imposta por regras religiosas. E o apoio que muitas vezes não chega dos mais próximos, acaba por se encontrar junto de instituições que nasceram exatamente para dizer a cada mulher que não está sozinha.

No Canadá, tal como em muitos outros países, há muitas organizações que desenvolvem trabalho nesta área. É o caso da NAF – National Abortion Federation que promove, melhora e assegura acesso a cuidados de saúde de qualidade na realização de um aborto. Jill Doctoroff, Diretora Executiva da NAF Canada explicou-nos que esta instituição tenta atingir os seus objetivos “oferecendo formação e educação aos profissionais de saúde envolvidos na prestação de cuidados no momento do aborto, bem como àqueles que estão interessados em incorporá-la na sua prática. Somos uma fonte de informação precisa, imparcial e sem julgamentos relacionada com a assistência ao aborto. Temos também o Dr. Morgentaler Fundo de Assistência ao Paciente e a linha de informação. Ainda prestamos apoio às pessoas com barreiras informativas, logísticas, e/ou financeiras para aceder aos cuidados abortivos de que necessitam”. Jill Doctoroff sublinha ainda que, no seu entender, “o acesso a todo o espectro dos cuidados de saúde, incluindo os cuidados abortivos, faz parte dos direitos humanos das pessoas”.

Perante o que está a acontecer nos Estados Unidos da América, onde está iminente um retrocesso de décadas no quadro legal relacionado com o aborto, a Diretora Executiva da National Abortion Federation, salienta que não teme que esta situação venha a refletir-se de alguma maneira no Canadá afirmando que aqui “não temos uma lei relacionada com o aborto, ela está incorporada nos sistemas de saúde”. No entanto, Jill Doctoroff alerta que “temos de nos manter diligentes para que a assistência ao aborto continue disponível para as mulheres e outras pessoas grávidas que dela necessitem”.

Num polo oposto ao trabalho desenvolvido pela NAF Canada, há muitas outras organizações, muitas deles ligadas a movimentos religiosos, que tentam demover as mulheres de optarem pelo aborto, usando para isso argumentos muito ancorados em conceitos que transportam o ato de abortar para o campo do crime, do pecado. Quisemos saber como uma organização pró-aborto encara as campanhas algumas delas bastante agressivas em termos de imagem, que existem e impressionam muitas mulheres. Jill Doctoroff foi muito clara “se uma pessoa acede aos cuidados abortivos essa tem de ser uma decisão sua. É a melhor pessoa para decidir se e quando continua uma gravidez”, apontando de forma taxativa para a questão da liberdade individual de escolha da mulher que decide abortar. E quando o argumento dos que advogam o antiaborto é a defesa da vida humana, a Diretora executiva da NAF é ainda mais perentória: “muitas pessoas que prestam cuidados abortivos e que apoiam as mulheres e outras pessoas grávidas no seu direito de acesso aos cuidados abortivos, estão a defender a vida da pessoa grávida” – numa alusão clara às consequências do chamado aborto ilegal, realizado sem os mínimos cuidados de saúde e que um pouco por todo o mundo põe em causa a vida da mulher.

Deixamos aqui alguns testemunhos dos muitos encontrados numa página de internet a Women on Web que mais não é do que um serviço internacional de aborto online. – www.womenonweb.org – que garante às pessoas que necessitam de aborto seguro ou contraceção uma consulta online e, depois de serem revistas por médicos, as pílulas de aborto médico ou contracetivos são fornecidas via correio.

São testemunhos de vidas reais, de mulheres que por muitos anos que passem continuarão a perguntar a si próprias – “e se?…”.

Catarina Balça/MS

 


 

“Even though it was legal I had to go through many appointments and referrals. Every time I had to explain and defend my reasons for wanting this. It was hard but it could have been so much worse. I was so relieved that the hospital and clinic were so supportive, kind, and understanding. I couldn’t help thinking how much worse it could have been for me.”
Ella – New Zealand

“Me senti culpada, egoísta. Me senti um monstro! Porque sabia que não ia poder ter, e mesmo sabendo disso, ficava tentando arrumar jeitos que no fundo eram impossíveis, sofri demais… sempre foi meu sonho ser mãe, e aquele sonho mexeu muito comigo quando descobri. Mas passado os primeiros dias, soube que tinha que ser racional e fazer o melhor: o melhor pra mim, para a minha família, paro o meu namorado, para família dele e para bebê!”
Sofia S. – Brasil

“Fiquei sem chão, fiquei em desespero, não falei pra ninguém só eu e meu ‘namorido’ sabia, mas eu sabia o que eu queria , tinha acabado de entrar no trabalho que eu sempre quis, tinha planos, estava certa que não queria ter essa criança, eu não tenho parentes próximos a mim então não teria ninguém pra me ajudar se eu tivesse essa criança, não me vejo mãe tão cedo, não tenho jeito com criança, não responsabilidade suficiente para cuidar de outra pessoa… coloquei tudo isso na balança e cheguei à conclusão do que eu queria.”
Priscilla S. – Brasil

“Yo aborte con cinco semanas de gestación…. En el mi corazón siempre vivirás.”
Jezzi – Argentina

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