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“É preciso haver ainda muita mudança”

Humberto Carolo é o diretor executivo da White Ribbon, o maior movimento mundial de homens que lutam pelo fim da violência contra as mulheres. Durante os últimos 14 anos, Humberto Carolo tem tido um papel fundamental no crescimento e impacto deste projeto que leva a qualquer parte do mundo a certeza de que é preciso haver igualdade de género, respeito pelo próximo, um mundo mais seguro e uma nova visão de masculinidade. A White Ribbon tem como foco a prevenção da violência baseada no género, tendo já espalhado esse alerta por mais de 60 países.
Tivemos a oportunidade de conversar com Humberto Carolo, com a intenção de ficarmos a perceber melhor o tipo de discriminação existente perante alguém que assume livremente a sua orientação sexual – sendo gay, lésbica, bissexual, etc. A ideia é entendermos esta problemática a partir do ponto de vista de alguém conhecedor da realidade na comunidade portuguesa no Canadá.

 

 

1 – Tendo em conta o caso Bruce McArthur – que impacto é que situações como esta podem ter na vida em sociedade? Por um lado, na própria comunidade LGBT – será que o receio de assumirem a sua sexualidade aumenta? Será que se fecham cada vez mais? Será que temem uma maior discriminação ou aumento da violência? Ou pelo contrário, será que lhes dá mais força? 

Os crimes do Bruce McArthur são mais um exemplo de violência, neste caso violência extrema, à comunidade LGBT. Não só violência, mas uma forma de ódio. Muitos dos homens que sofreram esses crimes por parte de McArthur, viviam uma espécie de vida dupla, eram até casados, o que faz com que outros homens em situações semelhantes sintam ainda mais receio de assumirem a sua sexualidade, até pela sua própria segurança. Isto faz com que homens, que ainda não conseguiram sair “do armário”, digamos assim, não o façam e tenham medo de assumir a sua orientação sexual. Este tipo de violência, esta discriminação, são formas de resistência contra a liberdade individual – liberdade no geral.

2 – Por outro lado, o que faz um homem matar outros homens só pela circunstância de serem gays?

Até ao momento não sabemos o que levou Bruce McArthur a cometer crimes deste género. Talvez um dia saibamos, mas para já ele não partilhou com as autoridades a razão pela qual cometeu tais crimes. Bruce McArthur é assumidamente gay – tinha a sua esposa e um filho, mas assumiu a sua sexualidade quando já estava na casa dos 50 anos. Ele procurava certos tipos de homens – aqueles que ainda não tinham tido a coragem de assumir a sua orientação sexual, por norma do sul da Ásia e também muçulmanos. A verdade é que não se sabe o porquê destes crimes, ainda por cima o que ele fez com os corpos a seguir – extremamente horrível. Não é, de facto, algo que uma pessoa “normal” faça. Com certeza que ele deve sofrer de algum tipo de psicose… Mas não sabemos.

3 – No caso particular da comunidade portuguesa, da sua experiência pessoal, qual é a sua opinião – os gays, bissexuais, transexuais, são já aceites de forma natural? Ou ainda há muita discriminação sexual ou homofobia?

Tudo depende. Depende muito da situação com os familiares, a zona onde a pessoa mora, o emprego que tem, etc. Em alguns casos sim, tem havido uma maior aceitação dentro da comunidade, mas ainda existem muitas formas de discriminação – é particularmente difícil para os jovens portugueses de assumirem a sua orientação sexual perante os seus próprios familiares porque ainda existe o receio de serem abandonados, descriminados e, por vezes, vítimas de violência. Mas talvez desde há 10 ou 15 anos para cá tem havido uma maior consciencialização por parte da nossa comunidade. O tabu já não é tão grande como era e tem havido bastantes progressos no que diz respeito aos direitos humanos na comunidade LGBT, tanto no Canadá como em Portugal, o que tem ajudado a mudar mentalidades e evitar as atitudes homofóbicas. Mas tudo isso leva o seu tempo e é preciso haver ainda muita mudança.

 4 – Presenciou ou conhece histórias recentes de manifesta discriminação de género ou até violência por razões que se prendem com a orientação sexual de cada um?

Existem muitos exemplos desses nas comunidades em geral. Como lhe disse, os jovens portugueses, ou de origem portuguesa, ainda têm dificuldade em sair do “armário”, devido à questão da aceitação por parte dos familiares e dos amigos, e muitos desses jovens acabam por ter medo de se envolverem com a comunidade com receio de serem discriminados. Portanto é muito importante que nós, dentro da comunidade, partilhemos uma mensagem de apoio. Porque cada vez que há uma notícia que mostra atos de violência perante alguém que assume livremente a sua sexualidade, o medo aumenta.

5 – Falava-me há pouco que ainda há muito trabalho de mudança de mentalidades a fazer. Como poderá ser feito?

Nós precisamos de continuar a falar abertamente sobre a comunidade LGBT, da discriminação, da aceitação, etc. Especialmente realçando os pontos positivos – a importância da diversidade, não só a diversidade sexual, mas diversidade étnica, etc. Falar de tópicos como a diversidade sexual e a identidade do género, incluindo-os nesse mosaico que é muito importante para todos nós. Não temos que ser todos necessariamente iguais e as nossas diferenças são uma forma de força – sobretudo num país como o Canadá, tão multicultural, tão diversificado. Até nós, portugueses, devemos pensar que se nos aceitaram aqui, num país diferente do nosso, com os nossos costumes, devemos também aceitar os outros e as suas diferenças.

Catarina Balça

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