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“É possível conciliar e manter uma amizade genuína no mundo do poder, da política, dos negócios e, diria até, do desporto” – Paulo Freitas

Credito: DR

Num tempo em que grande parte das nossas relações é filtrada por ecrãs e plataformas digitais e onde os algoritmos parecem saber mais sobre os nossos hábitos do que os nossos próprios amigos, falar de amizade genuína pode parecer, para alguns, um exercício nostálgico. No entanto, há quem acredite, com convicção e experiência de vida, que a verdadeira amizade continua viva e bem presente, mesmo num mundo cada vez mais digitalizado.

Paulo Freitas, natural de São Roque do Pico, nos Açores, é uma dessas pessoas. Licenciado em Gestão de Transportes Marítimo e Portuários e com uma carreira sólida no sector desde 2008, atualmente como Gestor Portuário e também Formador de Náutica de Recreio, Paulo concilia o mundo profissional com uma paixão antiga: o desporto e, acima de tudo, as pessoas. Com mais de duas décadas dedicadas à prática desportiva e à liderança de uma empresa de consultoria na área, tem-se afirmado igualmente como um atento observador das dinâmicas sociais e das relações humanas.

Nesta conversa, Paulo Freitas reflete sobre o valor da amizade nos dias de hoje, no trabalho, no desporto, no mundo digital ou nos bastidores do poder e como ela pode (ou não) resistir às pressões da performance e do individualismo moderno. Questiona os limites entre a convivência e a confiança, e propõe uma visão humana e sensata sobre a forma como os laços afetivos continuam a ser essenciais para o equilíbrio emocional, a saúde e a felicidade. Afinal, como diz o próprio, “a amizade verdadeira e saudável alimenta-se da confiança, do companheirismo, do respeito” e é isso que, no fim de contas, faz toda a diferença.

Milénio Stadium: Ainda podemos falar em amizades genuínas num mundo cada vez mais mediado por ecrãs e algoritmos?

Paulo Freitas. Créditos: DR.

Paulo Freitas: Mesmo com o tremendo avanço da tecnologia e inteligência artificial, temos de perceber que há sempre um mundo fora dos ecrãs. Por razões óbvias e lógicas, ambas as realidades se cruzam impreterivelmente. Não há com dissociá-las pois estão interligadas. Quanto à questão em si, acredito que sim! As amizades genuínas sempre existiram, continuam a existir e sempre continuarão a existir. Não podemos associar constantemente a tecnologia ou inteligência artificial ao negativo pois também nos traz muitas coisas positivas, tal como o mundo real. Se por um lado, o avanço tecnológico nos deu a possibilidade de fomentar e consolidar amizades genuínas de pessoas que, por motivos de vida, viram-se afastadas e sem contato por muitos anos, também permitiu que amizades (e até amores!) se iniciassem no mundo virtual com posterior transição para o mundo real. Não existem amizades melhores ou piores que sejam definidas pela sua génese. Infelizmente também existe o reverso da medalha onde os ecrãs serviram para estragar amizades que se achavam genuínas. Resumindo, a bondade ou a crueldade das novas tecnologias estão no uso que lhe damos.

MS: A investigadora canadiana Susan Pinker, defende que os laços sociais têm um impacto direto na saúde e na longevidade. Qual é a sua opinião sobre esta perspetiva?

PF: Confesso que nunca havia refletido antes sobre isso. Mas sim, faz todo o sentido. As pessoas com quem socialmente nos envolvemos acabam por contribuir para a constante construção e mutação do nosso eu! Sejam as mutações positivas ou negativas. Temos é de ter a capacidade de ir selecionando e filtrando aquilo que achamos que podemos levar para nós, sem nunca antes tentar perceber o que vem do outro lado. Ou seja, se num grupo social alguém começa a ter, ou aparenta ter, posturas e/ou comportamentos diferentes do que aquilo que apresentava, acho que temos o dever de tentar perceber a possível origem daquela postura/comportamento para nos ser possível ajudar. Se não conseguirmos, sou da opinião que quem está a ter esses comportamentos terá de se afastar do grupo social para não alastrar o seu comportamento aos demais, afetando assim uma dinâmica de grupo social que se quer saudável e salutar. Caso a pessoa não se afaste, devemos ser nós a nos afastar para mantermos a nossa saúde e equilíbrio mental. No fundo, acredito igualmente que o ambiente que advém do nosso grupo social tem, de facto, impacto na nossa saúde e longevidade.

MS: No mundo do poder, da política ou dos negócios — como no caso de Musk e Trump — será possível falar em amizades genuínas ou estamos perante alianças estratégicas disfarçadas de amizade?

PF: Acima de tudo, é importante frisar que, no meu entendimento, é possível conciliar e manter uma amizade genuína no mundo do poder, da política, dos negócios e, diria até, do desporto. O que tem de existir é a consciência de que as amizades não devem interferir no mundo profissional. Como se diz na gíria futebolística: ‘dentro do campo não há amigos’. Na política ainda não estive, mas nos negócios e no desporto é possível ter amigos que, ao mesmo tempo, são concorrentes ou adversários. Quando estamos no ‘modo profissional’ (digamos assim), não existem (ou não deveriam existir) amizades: sempre no respeito mútuo, mas cada um defende afincadamente o seu lado, ou, se ambos do mesmo lado, devem colocar os interesses comuns acima dos interesses individuais. Por outro lado, sempre existiu e sempre existirá a amizade por conveniência, que não é mais do que aquilo que descreves como ‘aliança estratégica disfarçada de amizade’.

“não estou no meu trabalho para fazer amigos. Estou para fazer o meu trabalho o melhor que sei”

MS: O que diferencia um amigo de um “companheiro de copos” ou de um colega com quem temos afinidade ocasional?

PF: Como costumo dizer, não estou no meu trabalho para fazer amigos. Estou para fazer o meu trabalho o melhor que sei. Se conseguir levar colegas de trabalho (ou mesmo companheiro de copos) para amigos, ótimo. Se não, ótimo na mesma. Na nossa convivência há espaço para todos estes lugares comuns: amigo vs companheiro de copos vs colegas. Por exemplo, posso almoçar todos os dias com colegas meus e eles não serem meus amigos fora do trabalho, tal como posso passar anos sem almoçar com um amigo e ele ser sempre um amigo! Há que distinguir as coisas. Indo de encontro à pergunta, acho que aquilo que diferencia um amigo de um ‘companheiro de copos’ ou colega de trabalho é a confiança e o saber que o amigo está sempre lá quando precisares, sem interesses escondidos. Como diz o ditado: ‘antes poucos, mas bons’.

MS: As amizades mudam com a idade? É mais difícil fazer amigos verdadeiros na vida adulta do que na infância ou juventude? Porquê?

PF: Não tenho dúvidas nenhumas de que as amizades mudam com a idade, com tempo. Quer seja pelo facto dos caminhos das nossas vidas que nos tenha afastado, ou mesmo por que razões diversas tenham levado a esse afastamento. A vida é feita de ciclos, mas sempre lembrando que cada novo ciclo se abre quando um outro de fecha. Na infância ou juventude todos os que falam conosco são nossos amigos, pois nessa altura da vida não há interesses escondidos, há mais sinceridade, estamos mais abertos a isso. Quando na vida adulta, começam as seleções naturais e tudo já é diferente e tendemos a selecionar aqueles que nos possam acrescentar algo e serem amigos de verdade. Felizmente posso dizer que tenho amigos verdadeiros feitos na infância/juventude e também na vida adulta. Sou afortunado em ter os amigos que tenho.

MS: Como podemos cultivar amizades saudáveis e duradouras num mundo que valoriza cada vez mais a performance individual e o sucesso pessoal?

PF: A amizade é tanto maior quanto menos nos focarmos na performance e no sucesso pessoal. Estes itens estão em lados opostos da balança: quanto maior amizade, menor foco na performance e sucesso individual. O contrário também é certo. Isso não significa que não fique feliz com o sucesso pessoal dos meus amigos, bem pelo contrário. O que mais quero é que sejam bem-sucedidos na sua vida. Mas sei que eles sabem que, se por algum motivo se depararem com o insucesso, eu estarei lá para os apoiar a ajudar. E também sei que posso esperar o mesmo de qualquer um dos meus amigos: estarão lá quando eu precisar. A amizade verdadeira e saudável alimenta-se da confiança, do companheirismo, do respeito. Se isso existir, podemos estar longos meses sem nos vermos ou falar, mas sei que quando nos encontrarmos ou quando precisarmos, estaremos lá uns para os outros.

MB/RMA/MS

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