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“Distinguir verdade de falsidade pode ser um desafio” – Merlyna Lim

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Vivemos um tempo em que parece ser inevitável que a mentira seja usada como arma política. Na realidade, é inegável que o uso da mentira se tem mostrado uma constante no discurso político ao longo da história da humanidade, mas é também indiscutível que a mentira assumiu uma forma particular no momento presente.

Hoje os meios digitais, os algoritmos, as redes sociais e plataformas, potencializam a profundidade e a dimensão dos efeitos da falsificação dos factos, inverdades e manipulações. São, portanto, uma nova forma sob a qual se reveste um velho conteúdo.

Vivemos uma espécie de pandemia de mentiras, amplificadas por poderosas plataformas de divulgação e massificação daquilo que, eufemisticamente, se convencionou chamar de fake news. Certo, os jornais já mentiam, a televisão mente, assim como a rádio e outros meios sempre mentiram, mas os meios digitais parecem ter uma vantagem sob seus antepassados na arte de mentir. É que a mensagem mentirosa encontra nesse mundo virtual muitos ouvidos recetivos. Já Maquiavel dizia que “aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar” e é aqui que reside o âmago da questão.

Pessoas minimamente esclarecidas não deveriam acreditar em tudo o que veem ou leem, mas para isso seria necessário que antes obedecessem a um conjunto de regras que Merlyna Lim, Ph.D. Canada Research Chair in Digital Media & Global Network Society e Director of ALiGN (Alternative Global Network) Media Lab School of Journalism & Communication, Carleton University, aqui partilha com todos os leitores do Milénio.

MerlynaLim - milenio stadiumMilénio Stadium: No jornalismo aprendemos que a verdade tem de estar acima de tudo – os factos devem ser comunicados de forma íntegra e correta. No caso concreto do mundo da política, com as estratégias de comunicação a servirem o interesse de determinada pessoa ou grupo, como podemos descobrir o que é verdade ou falsidade?
Merlyna Lim: Na política, onde as estratégias de comunicação servem frequentemente os interesses de indivíduos ou grupos específicos, discernir a verdade pode ser um desafio. No entanto, os princípios do jornalismo que enfatizam a integridade e a exatidão continuam a ser cruciais neste contexto; podem ser utilizados para diferenciar o que é verdadeiro ou falso. Eis algumas estratégias:

Pensamento crítico:

Esta é a competência mais essencial a ser alcançada por uma audiência pública: desenvolver capacidades de pensamento crítico para analisar a informação apresentada. Alguns exemplos de práticas baseadas no pensamento crítico:
– Fazer perguntas sobre a credibilidade da fonte, possíveis preconceitos e as provas fornecidas para apoiar uma afirmação,
– Prestar atenção ao contexto em que uma declaração é feita (por vezes, as declarações podem ser tecnicamente exatas, mas enganadoras devido à omissão de informações relevantes),
– Ter cuidado com a linguagem sensacionalista ou emocionalmente carregada na declaração/reclamação, uma vez que tal linguagem pode ser um sinal de parcialidade ou uma tentativa de manipular as emoções.

Diversificar as fontes e fazer referências cruzadas:

  • A prática da triangulação – utilização de mais do que uma fonte para confirmar dados empíricos/factuais específicos – deve fazer parte da rotina de consumo de informação política,
  • Confiar em várias fontes de notícias respeitáveis com um historial de exatidão e imparcialidade,
  • Verificar as afirmações ou declarações através da consulta de várias fontes; ter sempre cuidado com as afirmações que só são comunicadas por uma fonte única/similar.

Verificação dos factos:

Um esforço rápido para verificar os factos pode ser muito útil. Os sítios Web de verificação de factos, como o PolitiFact e o FactCheck.org, investigam e desmascaram regularmente alegações falsas feitas na política. Estes são recursos valiosos para verificar a informação.

MS: Que importância tem a estratégia de comunicação no mundo da política que sabemos estar cada vez mais descredibilizado aos olhos da opinião pública?
ML: A estratégia de comunicação é fundamental na política, especialmente numa época em que a confiança do público nas instituições e figuras políticas sofreu uma erosão em muitas democracias. As estratégias de comunicação eficazes são fundamentais para os políticos se ligarem/envolverem com o público, angariarem apoio (para avançar com políticas, para ganhar eleições, etc.), gerirem/navegarem crises e demonstrarem transparência e responsabilidade. Num clima em que a confiança do público é delicada, é crucial empregar estas estratégias de forma ponderada e ética para restaurar e manter a credibilidade.
Envolver o público: A comunicação política é fundamental para moldar e influenciar a perceção e a opinião públicas. Uma comunicação eficaz pode ajudar a apresentar uma imagem positiva e a obter o apoio do público; a comunicação política pode influenciar a opinião pública sobre várias questões. Entre os pontos de comunicação essenciais para os compromissos públicos, contam-se:
Defesa de políticas: defendendo mudanças políticas que precisam de uma comunicação eficaz das propostas, dos seus méritos e das agendas.
Campanha/mobilização dos eleitores: quer se trate de campanhas eleitorais ou de outros tipos de atividades de campanha, a comunicação é fundamental para o sucesso global da mobilização de apoiantes – para comunicar as plataformas, estabelecer uma ligação com os eleitores e persuadi-los a votar a seu favor.
Gestão de crises: Estratégias de comunicação eficazes e informativas são cruciais para gerir todos os tipos de crises.
Transparência e responsabilidade: As figuras públicas e os atores políticos demonstram as suas ações, decisões e intenções – para mostrar transparência e responsabilidade – através de práticas de comunicação pública. Isto é especialmente importante com a crescente desconfiança do público e num mundo onde a desinformação e as notícias falsas são predominantes.

MS: Recentemente aqui em Ontário temos o caso do Greenbelt em que o Governo de Ford parece ter sido forçado pela opinião pública a recuar em decisões que já estavam tomadas – considera que, neste caso, houve erros na comunicação de todo o processo?
ML: Em casos como o de Greenbelt, no Ontário, ou em situações semelhantes noutros locais, em que um governo reverte decisões devido à reação do público, a comunicação pode, de facto, desempenhar um papel fundamental. A confusão, a desconfiança e a indignação do público podem ter várias razões (as duas primeiras refletem consequências diretas da comunicação; as duas últimas são indiretas):
Falta de transparência e mensagens ineficazes: Se (a) as informações iniciais sobre as decisões e as razões subjacentes a essa ação não forem claras e transparentes e/ou (b) as mensagens não forem claras, incoerentes e/ou parecerem estar em contradição com as suas ações.
Falta de envolvimento do público e consulta inadequada: (a) falta de envolvimento ativo com o público e de resposta às suas preocupações b) falta de consulta das partes interessadas, incluindo as comunidades locais e os grupos ambientalistas – pode resultar em decisões que podem não corresponder aos desejos e necessidades do público.
Perceção de interesses especiais: se o público tiver a perceção de que o governo está a tomar decisões para beneficiar grupos de interesse ou indústrias específicas à custa do bem público.
Não praticar a tomada de decisões com base em provas: Desconsiderar os pareceres de peritos, as descobertas científicas ou as recomendações das agências relevantes pode minar a confiança do público e levantar questões sobre o empenhamento do governo na tomada de decisões com base em provas.

MS: A mentira ou inverdade são meios de sobrevivência política? Ou pelo contrário podem funcionar como meios de autodestruição?
ML: As mentiras ou inverdades podem ser utilizadas pelos políticos como meio de sobrevivência política a curto prazo, mas também comportam riscos significativos e potencial de autodestruição a longo prazo.
Meios de sobrevivência política a curto prazo: mentiras ou inverdades normalmente funcionam bem para: a)manipular a opinião pública, especialmente durante as campanhas eleitorais; b) pode ajudar os políticos a fugir à responsabilidade pelos seus atos e, em alguns casos; c) as mentiras podem ser utilizadas para manter/mostrar a lealdade dos membros do seu partido ou dos seus apoiantes financeiros (como é o caso de alguns membros republicanos que continuam a apoiar Trump), a fim de manter a sua posição no âmbito da política partidária.
Meios de autodestruição a longo prazo: o uso contínuo de mentiras ou inverdades pode: a) corroer a confiança do público e a sua reconstrução é muito difícil; b) minar confiança do público nas instituições democráticas e o processo político no seu conjunto; c) a exposição de mentiras (através do escrutínio dos media/público) pode prejudicar a reputação e, eventualmente, pôr termo à carreira, podendo ter algumas consequências legais.

MS: Sabemos como a falsidade domina muito a vida de todos nós – principalmente no mundo das redes sociais (terreno propício à criação de uma quase realidade paralela), também elas muito utilizadas para veicular muitas fake news. Como podemos então distinguir o que é verdadeiro ou falso?
ML: Distinguir entre verdade e falsidade, particularmente na era das redes sociais e das notícias falsas generalizadas, pode ser um desafio, mas é crucial para uma tomada de decisão informada. As estratégias que discuti anteriormente nas minhas perguntas nº 1, penso que também podem ser aplicadas aqui.
Eis algumas dicas rápidas/concisas para os utilizadores das redes sociais que lidam com inverdades e falsidades (isto é baseado na minha entrevista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=XsDDoHBacO8):
Fazer uma pausa e refletir: Antes de reagir, pare um momento para parar e refletir quando encontrar informações. As emoções conduzem frequentemente a reações imediatas, pelo que é importante dar um passo atrás.
Avalie a sua resposta: Pergunte a si próprio se a sua reação se baseia em pensamentos racionais ou em impulsos emocionais.
Diversifique as suas fontes: Saia da sua zona de conforto e consuma conteúdos de diversas fontes. A regra de três pode ajudar a garantir uma perspetiva mais alargada.
Abrande: Dê prioridade ao abrandamento no consumo de informação. Faça uma pausa, pense e reflita antes de comentar, reagir ou partilhar conteúdos.

Madalena Balça/MS

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