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Da beira do abismo ao sonho da casa própria

DR.

Em 2019, o First Portuguese Canadian Cultural Centre, o clube português mais antigo do Ontário, esteve prestes a fechar portas. As contas não batiam certo e a direção teve a coragem de o dizer publicamente: sem ajuda, o First não sobreviveria. À frente dessa decisão difícil estavam Aurianne Fazendeiro e Carina Paradela, que tinham chegado à direção pouco tempo antes. Seguiram-se uma pandemia, cortes difíceis e um longo trabalho de reorganização financeira. Sete anos depois, o First celebra 70 anos com uma situação financeira estável, um Centro de Dia da Terceira Idade no coração da sua missão, a escola de português ainda de portas abertas e um sonho bem definido: ter casa própria. Hoje, Aurianne é Diretora Geral e Carina é Diretora de Operações do First e vestem literalmente a camisola em defesa do futuro da instituição que é a sua segunda casa. Nesta conversa com o Milénio, recordam a tormenta, falam do presente e deixam um apelo à comunidade para que, em conjunto, se construam os próximos 70 anos.

Milénio Stadium: Há uns anos, o First Portuguese esteve perto de fechar portas. Como é que se aperceberam da gravidade da situação, e o que vos levou a dizer “não vamos deixar isto acontecer”? 

Carina Paradela e Aurianne Fazendeiro. DR.

Aurianne Fazendeiro: Quando entrámos para a direção, em outubro de 2018, éramos novas na gestão de uma organização com a dimensão do First e, inicialmente, pensávamos que a situação financeira era mais estável do que realmente era. Pouco tempo depois, começámos a perceber que as despesas eram superiores às receitas e que não existiam fundos suficientes para continuar a funcionar daquela forma. Em 2019, depois de analisarmos seriamente a situação, chegámos ao ponto de anunciar à comunidade que, se não houvesse uma ajuda imediata, o First teria de fechar portas. Foi uma decisão muito difícil, mas não queríamos esconder a realidade. Era preciso dizer claramente às pessoas: a situação é esta e precisamos de ajuda para conseguir continuar.

Carina Paradela: E é importante dizer que não estamos a falar de falta de trabalho ou de dedicação das direções anteriores. Durante muitos anos, o First foi gerido essencialmente por voluntários, pessoas que deram o seu tempo e fizeram o melhor que podiam para manter esta instituição viva. Temos enorme respeito por isso. O que percebemos foi que uma organização desta dimensão precisava de uma gestão financeira e operacional mais permanente e estruturada. Na altura em que anunciámos que podíamos ter de fechar, não apareceu uma solução financeira que resolvesse o problema. Tivemos, sim, uma organização da comunidade que se disponibilizou para guardar os bens do First enquanto decidíamos o que fazer, e somos muito gratas por isso. E, curiosamente, cerca de seis meses depois, aconteceu a pandemia.

MS: Quais foram os momentos mais difíceis desse período? Houve alguma altura em que pensaram que não ia ser possível salvar o clube?

AF: Sem dúvida. Quando anunciámos que poderíamos fechar, estávamos realmente a preparar-nos para essa possibilidade. Não era uma ameaça, era uma realidade financeira. Depois veio a pandemia e, inicialmente, tudo ficou ainda mais incerto. Tivemos de fechar atividades e reduzir significativamente serviços e pessoal. Mas, de certa forma, a pandemia acabou por nos dar tempo para reorganizar a casa. Fomos retomando as atividades aos poucos e conseguimos beneficiar de alguns programas de apoio governamental, nomeadamente os apoios relacionados com a renda.

CP: E foi aí que começámos a dar uma reviravolta muito grande. Não foi uma coisa que aconteceu de um dia para o outro. Foi um processo de reorganização, de cortar onde era necessário, de controlar melhor as despesas e de perceber exatamente o que podíamos sustentar.

AF: A gestão financeira tornou-se uma prioridade absoluta.

Em pé – Carina Paradela e Nancy Viana Sentados – Elisa Nicolau, César Fernandes, Aurianne Fazendeiro e Ana Costa. DR.

MS: Que decisões foram determinantes para dar a volta à situação? E quem esteve ao vosso lado: sócios, voluntários, a comunidade, patrocinadores?

CP: A mudança mais importante foi, sem dúvida, a forma como começámos a gerir financeiramente a casa. A Aurianne teve um papel fundamental nessa reorganização financeira. Passámos a acompanhar as receitas e despesas de uma forma muito mais rigorosa e a tomar decisões com base naquilo que a casa realmente podia suportar.

AF: E também aprendemos a trabalhar com aquilo que temos, em vez de assumir compromissos que não conseguimos sustentar. Depois da pandemia, conseguimos estabelecer alguns apoios que hoje são fundamentais para a sobrevivência do First, nomeadamente através do OLG Charitable Gaming e do Second Harvest, que nos permite reduzir significativamente os custos associados à alimentação do nosso Centro de Dia da Terceira Idade. Mas queremos ser honestas: quando estivemos à beira de fechar, não houve uma grande campanha da comunidade que nos salvasse, a recuperação foi sobretudo resultado da nossa reorganização interna e das oportunidades que surgiram durante e depois da pandemia.

MS: Como está hoje o First Portuguese? O que mudou na forma de gerir o clube e na relação com os sócios e a comunidade?

AF: Hoje o First está numa situação financeira bastante mais estável. Temos uma estrutura pequena, mas temos uma direção executiva maravilhosa que nos deu a oportunidade de continuarmos ligadas à casa de uma forma diferente. Hoje somos funcionárias do First, e isso permite-nos dedicar o nosso trabalho diário à organização, manutenção e funcionamento da casa.

CP: A divisão de responsabilidades também está muito mais clara. A gestão do dia a dia está connosco; as decisões importantes e de governação estão com a direção. Isso permite-nos fazer aquilo que sabemos fazer melhor: estar aqui todos os dias, acompanhar os programas, resolver os problemas, falar com os membros e garantir que a casa funciona.

MS: Que atividades estão hoje a trazer mais gente ao clube? A escola de português, o apoio a idosos, os summer camps… continuam a ser o coração da casa?

CP: Hoje o nosso principal foco é o Centro de Dia da Terceira Idade. Como somos uma instituição de caridade registada, queremos que a vertente social esteja verdadeiramente no centro daquilo que fazemos. Temos muitos idosos portugueses que precisam de companhia, de atividades e, muitas vezes, simplesmente de um lugar onde possam falar português e estar com outras pessoas. O centro é uma parte muito importante da missão que queremos continuar a desenvolver.

AF: A escola de português é outra coisa que nos deixa muito orgulhosas. É uma tradição que vem praticamente dos primeiros anos do First e que temos todo o gosto em manter. É uma ligação direta à nossa história e à transmissão da língua e da cultura às novas gerações. E o Summer Camp tem também uma função muito importante: para além de servir as famílias e as crianças da comunidade, gera receitas que nos permitem continuar a financiar a missão do First.

MS: A Aurianne e a Carina assumem a direção de uma instituição com 70 anos de história. A responsabilidade de estarem à frente do clube português mais antigo de Ontário pesa no vosso dia a dia?

AF: A história pesa. E pesa bastante. Não apenas porque são 70 anos de história, mas porque estamos a falar de uma instituição que fez parte da construção da comunidade portuguesa no Canadá e que atravessou várias gerações.

CP: E há outra parte dessa responsabilidade que, infelizmente, também sentimos. O nome e a história de uma instituição tão antiga vêm acompanhados de coisas que aconteceram antes de nós fazermos parte do First, algumas até antes de eu ter nascido. E, por vezes, sentimos que isso influencia os apoios ou as respostas que recebemos quando procuramos ajuda. Não podemos mudar o passado. Podemos apenas fazer o nosso trabalho, todos os dias, e construir aquilo que queremos que seja o futuro do First.

AF: Mas, apesar desse peso, para nós o First tem sido uma verdadeira bênção. Foi uma casa que apareceu nas nossas vidas e que nos trouxe amizades, pessoas, experiências e uma ligação ainda mais forte à nossa portugalidade.

CP: É a nossa segunda casa. E somos eternamente gratas por isso.

MS: Como gostariam de ver o First Portuguese daqui a 10 anos?

CP: Queremos ver o First com casa própria. Esse é o nosso grande objetivo. E é para isso que trabalhamos todos os dias. Já temos algum dinheiro colocado de lado especificamente para esse objetivo e continuamos, pouco a pouco, a aumentar esse fundo.

AF: O nosso sonho é conseguir concretizá-lo antes dos dez anos. Talvez em cinco. Mas isso vai depender também da comunidade. Se houver pessoas e empresas dispostas a ajudar, podemos chegar lá muito mais depressa. Queremos uma casa que seja nossa, onde possamos garantir o futuro do Centro da Terceira Idade e oferecer aos nossos idosos uma casa melhor, mais estável e preparada para as necessidades deles.

MS: Que mensagem deixam à comunidade, e a quem ajudou a manter o clube de pé, neste aniversário tão especial?

CP: A nossa mensagem é, acima de tudo, uma mensagem de agradecimento a todos aqueles que continuam a acreditar no First e que nos apoiam. Mas é também um apelo. Por favor, ajudem-nos a construir uma casa onde os nossos idosos possam continuar a ter um lugar digno para estar, onde as nossas crianças possam aprender português e onde as próximas gerações possam continuar a ter uma ligação à nossa cultura.

AF: Somos profundamente gratas a quem nos apoia, a quem acredita em nós e a quem continua a entrar por esta porta. E a nossa porta está aberta a todos aqueles que querem o bem do First. O passado não podemos mudá-lo. Mas podemos decidir o que queremos construir para os próximos 70 anos. E é isso que queremos fazer: olhar para a frente.

MB/MS. Fotos: F.P.C.C.C

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