Temas de Capa

Conversas pouco doces, mas com cheiro a morango

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É uma forma de ganhar a vida, mas é também, muito, um modo de estar na vida. Vivem na e da natureza, usufruem da calma de quem tem espaço para respirar ar puro. Quase todos vivem a vida que escolheram. Preferem a agitação (e porque não dizer o stress) que sentem diariamente com o trabalho de amanhar as terras, preparando-as para receber sementes ou plantas, e a responsabilidade de garantir a sobrevivência dos animais que vivem na quinta. Sem folgas e com pouco descanso. Alimentando com o produto do seu trabalho muitas famílias, garantem o sustento das suas. São agricultores e vivem nas quintas que rodeiam a GTHA.

De vez em quando, alguns semanalmente, vêm às cidades com carrinhas carregadas de frutas, legumes, ovos, mel, maple syrup, pão, flores e vegetais. Antes que chegue o frio do outono, os Farmers Markets, que as cidades acolhem, são pontos de paragem obrigatórios para muitos, que se deleitam com o sabor, o cheiro e até a beleza que chega das quintas.

Foi numa bela manhã de domingo, com o cheiro de pêssegos e morangos a dominar o ambiente, que tive oportunidade de conversar com quem vive e trabalha no chamado Greenbelt – a área de proteção ambiental que circunda a GTHA. Falei com muitas pessoas e ninguém quis partilhar a sua identificação, preferindo falar a coberto da garantia de anonimato. Uma posição, que sendo de respeitar, me deixou a pensar no porquê. O que será que temem? O que estamos a fazer à liberdade de expressão, que nos permite, com respeito, mas sem medos, dizer o que pensamos?

Quis saber a opinião de quem vive e trabalha na zona até agora protegida, o que pensam sobre o plano de Doug Ford para o Greenbelt. E a perceção de que o processo não foi conduzido de forma clara, transparente e honesta surgiu, de forma transversal, no discurso de quase todos.

O que vos deixo aqui são os testemunhos reais de pessoas simples que apenas querem continuar a “alimentar o Ontário”, como afirmaram alguns. Estas são pessoas sem rosto e sem nome, por vontade dos próprios.


Obviamente, sou contra a abertura do Greenbelt ao desenvolvimento, especialmente da forma como estão a fazer. O que é que eu acho da forma como ele está a fazer isto é que parece que há por aí um pouco de corrupção, uma palavra demasiado forte. Parece que não há razão para mexer no Greenbelt, porque há terra suficiente disponível para desenvolvimento que já está aberta. Por isso, fazê-lo quase exclusivamente para pessoas com quem Doug Ford tem algum tipo de relação… isto não passa no teste do olfato e vai contra o que é suposto o Greenbelt fazer. E demonstra que, quando ele estava a angariar fundos e a tentar concorrer às eleições pela primeira vez, queria que os promotores imobiliários lhe fizessem donativos e prometeu-lhes que ia fazer isso e depois disse que não o ia fazer. Isto sugere que ele está a cumprir a sua palavra para com eles, mas não para com o povo.


Isto prejudica os agricultores e as pessoas que apoiam os alimentos locais, porque nós, enquanto pequenas explorações agrícolas, vemos que as pessoas que apoiam os alimentos locais têm um grande impacto numa pequena exploração agrícola como a nossa. Por isso, gostamos de espaços abertos. Gostamos do estilo de vida e isso ajuda as pequenas quintas como a nossa. Caso contrário, são apenas as grandes quintas a lucrar e tudo o que ganham vai para os promotores e eles lucram. Portanto, não há meio-termo. E o argumento de que precisamos de construção de casas para a imigração que está a chegar… sim, mas também precisamos de espaços verdes, porque no futuro podemos ter selvas de arranha-céus por todo o lado.


A minha opinião não vai agradar, mas paciência. O problema é que a maior parte das pessoas não sabe o que é o Greenbelt, não fazem ideia da sua extensão. Estamos a falar de uma área que vai das Cataratas do Niagara até Peterborough. 810 000 hectares. E muitos terrenos estão vazios, não produzem nada, apenas têm erva. Ora, se sabemos que é preciso casas para tanta gente que já cá está e para os que hão-de vir, o que querem fazer? Transformar Toronto e as outras cidades em muitas Nova Iorque, onde quase nem se vê o sol com tantos arranha-céus? Não se pode travar o desenvolvimento. Temos que aceitar que há mudanças que são necessárias. O processo pode não estar a ser o melhor, mas isso é outra questão.


Penso que há muita corrupção e que ele (Ford) é desonesto e que não está a liderar o povo. Não está a fazer o que o povo quer. A minha opinião é que 83% do Ontário diz “não, não queremos isso” e ele não está a pensar no futuro. Quando alguém diz “vou destruir o ecossistema, mas vou recriá-lo noutro lugar”, não faz a mínima ideia do que está a falar, porque foram precisos cerca de 20000 anos para criar esse ecossistema. Por isso, não acho que ele seja adequado para ser Premier. Claro que sei que as pessoas têm de viver em algum lado e não sei quantos somos no Canadá, atualmente… talvez 40 milhões. Temos que acolher os que chegam agora ou vão chegar no futuro, não nos podemos esquecer que toda a gente aqui, à exceção de um indígena, é um imigrante no Canadá. Embora eu não tenha vindo para o Canadá, os meus pais vieram para o Canadá, etc., etc. Mas as pessoas não precisam de viver em casas de 4000 pés quadrados. Isto é consumo, consumo demais e mais e mais, e estou apenas a supor que os promotores (e não sei porque lhes chamam promotores porque eles realmente destroem muito) recebem mais dinheiro pelas casas maiores. Esperemos que as pessoas se envolvam e cheguem ao fundo da questão. Eu acho que há espaço suficiente para construir sem ser preciso mexer no Greenbelt.


Sou totalmente contra isso. Porque a razão de ser do Greenbelt foi manter os aquíferos e tudo aquilo de que precisamos por causa da costa. E, para além disso, temos todas as quintas no local. Estão a livrar-se de todas as quintas. Hoje, temos que conduzir várias horas para chegar a este mercado. Agora estou a alugar este mercado há sete anos. Por isso, conheço todos os problemas que os agricultores têm e oponho-me totalmente a que mexam no Greenbelt. Sei que as pessoas do Greenbelt não vão gostar do que estou a dizer porque vão perder a oportunidade. Mas esquecem-se que podem até fazer muito dinheiro, mas vão perder muito mais. Não há forma de recuperar o Greenbelt. Uma vez vai, para sempre vai. Não vão cortar todos os carros da cidade por causa da poluição, da animação e de todas essas desculpas que estão a inventar. O que interessa é ganhar dinheiro. É só isso que está em causa. Não tem nada a ver com emissões ou ajuda ou qualquer coisa para alguém. Não, de todo. É tudo: “como é que eu posso encher o meu bolso?”. Sei que se nos juntarmos podemos fazer muita coisa, mas é muito difícil porque toda a gente está a lutar, a tentar fazer face às despesas. Não têm tempo para pensar em todas estas e outras coisas que estão a acontecer.


Não estou muito satisfeito com isto, mas muitos agricultores também não gostam do Greenbelt, porque uma vez que o Greenbelt é aberto à construção, a sua propriedade valoriza-se imenso. Quando o Ford a abriu, disse para mim mesmo – isto é muito suspeito. Se pensarmos que as pessoas da indústria do desenvolvimento imobiliário e as pessoas do setor da construção sabiam que aquilo ia acontecer. Mais ninguém sabia que isso ia acontecer. Porque é que essas pessoas sabiam que isso ia acontecer? Quer dizer, se eu quisesse cortar um pedaço de propriedade na minha quinta para os meus filhos viverem ou para os meus avós viverem, não o podia fazer. Mas agora ele está a torná-la livre para virem outros e viverem lá. Alguém está a lucrar com tudo isto. Quer dizer, esta é a minha opinião.


Sinto que o Ford está a trabalhar diretamente com estes tipos. Está tudo preparado para eles, de certeza que ele mete algo bom no bolso por isso. Esta é a terra mais fértil perto do lago. Mesmo aqui, onde estamos, esta era uma das terras mais férteis, agora está toda pavimentada, com todo este betão, onde costumavam estar as vacas. Quando os nossos pais viviam nesta zona, colocaram este espaço protegido para que pudéssemos manter os cursos de água naturais, para que pudessem manter as terras agrícolas verdes com todo o solo fértil e exuberante. Muito bem, quem é que vai fazer a vossa comida? Quem é que vai fazer a vossa comida como deve ser? Vocês querem comida americana? Sabem que tipo de spray é que eles podem usar? Sabes que isto é? Este é um tipo corrupto que está a vender a nossa província. E o facto de ele fazer todas estas reversões, exceto a que prejudica os seus amigos, com quem está a fazer negócios desonestos, é a prova da sua corrupção. Muito bem, é preciso criar habitações, mas pode-se criar habitações em qualquer lado. Construam habitações em Grey County, como sabem, lá em cima é tudo rochas. Não estamos a plantar batatas lá em cima. Não estamos a plantar milho lá em cima. Não estamos a pastar gado lá em cima. Certo? Estamos a cultivar alimentos aqui em baixo com um solo fértil. Como é que estes tipos planeiam o futuro? Enfim, eu sou apenas um tipo simples que cultiva boa comida para boas pessoas. Mas sem quintas, não há comida. É tão fácil quanto isso, certo. O que vais comer?

Madalena Balça/MS

 

 

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