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“Comboio da Liberdade” – A visão dos partidos políticos

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Credito: DR

O movimento foi lançado com o intuito de defender e reivindicar a posição de determinada parcela, cerca de 10% dos caminhoneiros canadianos, que são contrários à política adotada pelo governo federal de exigência de vacinação para os trabalhadores dessa indústria que cruzam a fronteira Canadá-Estados Unidos. Como acontece com muitos outros movimentos, ao longo do caminho novas pessoas foram aderindo à ideia, juntando suas vozes e a conotação política das manifestações se fez, e faz, cada vez mais presente no ato que segue acontecendo em Otava. 

A manifestação passou a abranger mais pessoas e expandiu o seu conceito, se tornando uma espécie de grito contra as restrições adotadas pelos governos devido à Covid-19 e defende a liberdade de escolha dos cidadãos, sendo nomeado “Freedom Convoy”, em tradução livre algo como o “Comboio da Liberdade”. O auge do protesto, que reuniu milhares de participantes, aconteceu no passado final de semana (29 e 30 de janeiro), porém um considerável grupo continua concentrado na área do Parliament Hill e diz que só sai de lá assim que o governo atender a sua reinvindicação e derrubar as restrições pandêmicas. 

O primeiro-ministro Justin Trudeau já veio a público dizer que não pretende se reunir com os manifestantes e criticou severamente os atos de desrespeito a comerciantes locais e moradores, de vandalismo contra símbolos nacionais e o comportamento das pessoas que empunhavam bandeiras nazistas ou com conotação racista. “Quero ser muito claro: não somos intimidados por aqueles que insultam e ofendem trabalhadores de pequenas empresas e roubam comida dos sem-teto. Não vamos ceder àqueles que hasteiam bandeiras racistas. Não cederemos àqueles que praticam vandalismo ou desonram a memória de nossos veteranos”, destacou Trudeau. Mais de uma vez o primeiro-ministro fez questão de defender a política adotada pelo seu governo Liberal de obrigatoriedade de vacinas para trabalhadores de determinados grupos que prestam serviços essenciais, tal como os caminhoneiros, e disse que a grande maioria, 90%, estão vacinados. Diante da repercussão e tamanho que o movimento atingiu, os demais partidos políticos também se posicionaram e direcionaram seus comentários acerca do protesto. Do lado liberal vários ministros e MP’s classificaram de desserviço a postura dos Conservadores, que dizem apoiar as manifestações e “alimentar” o medo dos canadianos de que a paralisação de parte da categoria levasse a falta de abastecimento de alimentos nos supermercados, por exemplo. 

A oposição, na figura do seu então líder, Erin O’Toole, de fato aproveitou o momento de tensão nacional e em diversas declarações acusou o governo Liberal de “dividir” o país com as medidas de vacinas obrigatórias. O’Toole se encontrou com representantes do comboio, algo que Trudeau não fez, e dessa forma, segundo análises de especialistas em política, quis se mostrar um líder acessível e que compreende as frustrações coletivas, já que dois anos se passaram desde o início das restrições pandêmicas. Particularmente, a defesa dele era de que a melhor solução para o impasse seria incentivar as vacinações, mas disponibilizar a realização de testes rápidos para os que preferem não se vacinar e garantir assim o trabalho desse grupo e a segurança da comunidade. Condenou os atos de vandalismo e desrespeito a monumentos dizendo que são provocadas por pessoas infiltradas. Outras vozes do mesmo partido se mostraram mais radicais e o ex-líder Andrew Scheer, a vice-líder Candice Bergen, o crítico financeiro Pierre Poilievre, os parlamentares Leslyn Lewis e Mark Strahl e vários outros declararam sua solidariedade aos manifestantes. Essa diferença de posturas é um pouco acentuada pela própria disputa interna de poder que acontece no partido Conservador, já que diversos membros não estavam satisfeitos com a liderança de Erin O’Toole, que depois de uma votação interna do Caucus na quarta-feira (02 de fevereiro), acabou perdendo o posto de líder do PC. 

Já o partido NDP está mais alinhado ao governo federal em relação ao assunto, já que defende que o comboio que está em Otava não representa a maioria dos caminhoneiros, que está vacinada, e numa nota a imprensa o líder Jagmeet Singh escreveu: “Estou profundamente consternado com os parlamentares conservadores que apoiam este comboio e, com isso, adicionam seu apoio aos extremistas que desejam subverter o processo democrático, incitar a violência e espalhar informações erradas sobre recomendações de especialistas em saúde pública” e acrescentou que o melhor que todos têm a fazer é se vacinarem. Os demais partidos de oposição, como Green Party e Bloc Québécois, também não se alinharam com os caminhoneiros e defendem a vacinação obrigatória.

Vale lembrar que disputas e posicionamentos políticos à parte, os Estados Unidos também adotaram desde o dia 22 de janeiro deste ano a mesma lei para caminhoneiros que cruzam a fronteira Canadá-EUA, por isso os trabalhadores canadianos desse setor também precisam comprovar que estão vacinados para entrar no país vizinho. 

No debate da Câmara dos Comuns que marcou o regresso dos parlamentares depois das férias foi aceso esta semana justamente por causa das manifestações dos caminhoneiros na capital canadiana. A imprensa internacional também deu destaque aos protestos que obrigaram o PM Justin Trudeau a ser retirado da sua residência oficial. 

Lizandra Ongaratto/MS

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