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Com o custo dos seus medicamentos, não podia dar-se ao luxo de viver

intravenous line - milenio stadium
woman’s hand with intravenous line in hospital room

 

Muitos canadianos apoiam a eutanásia e os grupos de defesa desta prática argumentam que o procedimento é impulsionado pela compaixão, pelo fim do sofrimento, da discriminação e desejo de autonomia pessoal. Mas os defensores dos direitos humanos dizem que as leis e regulamentações do país carecem de salvaguardas essenciais, desvalorizam a vida das pessoas com deficiência e estão a levar médicos e profissionais de saúde a sugerir o procedimento para aqueles que, de outra forma, não consideravam a hipótese. Do lado de quem se opõe à eutanasia, contam-se casos em que as pessoas tentaram ser mortas porque não conseguiram receber apoio adequado do governo e do sistema de saúde para viver. Aprofundamos o tópico junto de Alex Schadenberg, diretor executivo da Euthanasia Prevention Coalition.

Milénio Stadium: Como organização que luta pela prevenção da eutanásia, quais são alguns dos aspetos da morte assistida para os quais tenta sensibilizar?
Alex Schadenberg: A Euthanasia Prevention Coalition opõe-se a todas as formas de eutanásia e suicídio assistido porque nos opomos a dar aos médicos o direito legal de matar os seus pacientes. Quando você examina a linguagem das leis que permitem a eutanásia, elas de facto estão a dar aos médicos o direito de decidir quem vive e quem morre.

MS: As estatísticas de 2021 da Health Canada mostram um aumento nas mortes assistidas em quase 33%, para 10.064. Qual é a sua opinião sobre esses números?
AS: Desde o início argumentamos que, uma vez legalizada, a prática iria expandir, e é exatamente isso que temos visto em jurisdições em todo o mundo. No Canadá, em 5 anos de legalização da eutanásia, o Canadá abandonou a exigência de doença terminal, eliminou o período de espera e aprovou a eutanásia para doenças mentais. No Canadá, vimos um crescimento maciço no número de mortes e um crescimento significativo nos tipos de casos para os quais a eutanásia é aprovada. O que preocupa nos recentes dados canadianos que indicavam que 10.064 pessoas morreram por eutanásia em 2021 é a falta de fiscalização da lei. Os dados essencialmente dizem-nos a idade e a condição médica daqueles que morreram, mas não nos dão nenhuma informação sobre as razões pelas quais as pessoas morreram por eutanásia. Na Holanda o governo financia estudos que avaliam honestamente a lei da eutanásia. Os estudos da Holanda indicam que há mortes por eutanásia sem solicitação ou consentimento e aproximadamente 20% de todas as mortes por eutanásia são subnotificadas. Os dados canadianos não fornecem informações sobre as razões e o funcionamento da lei. O outro ponto preocupante é que o Canadá legalizou a eutanásia em 2016 e em poucos anos a percentagem de mortes por eutanásia é semelhante à da Holanda, que legalizou a eutanásia em 2002.

MS: Houve vários casos que levantaram questões sobre as “salvaguardas” desta prática. Quais são os possiveis perigos da legalização da eutanásia?
AS: Recentemente, a Euthanasia Prevention Coalition tem trabalhado com uma mãe que queria evitar a morte por eutanásia de seu filho de 23 anos que é diabético. Era muito preocupante que um jovem que vive com uma condição crónica medicamente gerenciável pudesse ser aprovado para morte por injeção letal. Tem tambem havido muitos casos de eutanásia de pessoas com deficiência. Pessoas que não estão a morrer, mas que vivem com condições crónicas, foram aprovadas para eutanásia por muitas razões, mas na maioria das vezes a pessoa que está a pedir para ser morta está a fazer isso com base na pobreza. Uma mulher de 51 anos com Múltiplas Sensibilidades Químicas (SMC) solicitou e faleceu por eutanásia. O tratamento para MCS é ter um lugar limpo para viver. Ela pediu eutanásia porque a sua deficiência deixou-a a viver em condições precárias que inflamaram o seu MCS. Um homem com deficiência de Alberta solicitou e foi aprovado para eutanásia. Ele disse que na verdade não queria morrer, mas com o custo dos seus medicamentos, ele não podia dar-se ao luxo de viver. Uma mulher com Covid prolongado estava tão doente que não podia trabalhar e foi aprovada para eutanásia. Ela disse aos media que estava a falir e que iria perder tudo, então decidiu pedir a eutanásia.

MS: Em que parte desta questão entram os seguros, interesses financeiros e os grupos vulneráveis?
AS: O lobby pró-eutanásia argumenta que a pobreza e a deficiência não são razões para a eutanásia, mas como a deficiência é um fator qualificador para a eutanásia, não é de surpreender que a pobreza leve as pessoas com deficiência a pedir para serem mortas. Como o Canadá tem um sistema de saúde universal, o governo é o guardião dos custos médicos. O sistema de saúde do Canadá está em crise devido à falta de funcionários e de dinheiro. Estamos a trabalhar com uma mulher que solicitou a eutanásia porque não teve sucesso em obter o tratamento médico de que precisava. Há algumas semanas fomos contactados por um homem de 61 anos que foi aprovado para a eutanásia. Ele disse que não foi aprovado para cirurgia nas costas, mas a sua dor é tão severa que mesmo com analgésicos ele não pode continuar a viver dessa maneira. Ele disse-me: “eu não quero morrer, mas não posso mais viver assim”. Ele perguntou-se por que não tinha recebido o tratamento médico necessário, enquanto outros tiveram mais sorte.

MS: Que soluções a Euthanasia Prevention Coalition Canada sugere como abordagens alternativas à morte medicamente assistida?
AS: Nós apoiamos medidas que levem a uma sociedade solidária, não a uma sociedade assassina. Reconhecemos que muitas pessoas vivem com condições de saúde difíceis, mas uma vez que a eutanásia se torna uma opção, as pessoas podem ser “abandonadas” pelo sistema médico até a morte. As pessoas vão pedir para serem mortas porque estão a achar difícil viver. Esta não é uma vitória “progressista”, mas sim uma rejeição de uma sociedade solidária. Reconhecemos também que muitas pessoas que convivem com condições de saúde difíceis também estão a sentir isolamento social. Não é incomum que alguém solitário e em condições crónicas ou terminais também esteja deprimido, a conviver com sentimentos de desespero e com pensamentos suicidas. A resposta é cuidar e estar com as pessoas no seu momento de necessidade. Somos todos humanos. Precisamos de defender a vida dos outros criando uma sociedade de inclusão, que reconheça a realidade do isolamento e responda estando com o outro.Matar elimina quem sofre. Cuidar leva a uma sociedade de igualdade e respeito.

Telma Pinguelo/MS

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