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Canadá declara Proud Boys como grupo terrorista

Os perigos da extrema-direita no Canadá

O Canadá declarou na quarta-feira (3 de fevereiro) os Proud Boys como uma organização terrorista e acrescentou o grupo de extrema-direita a uma lista que inclui Al-Qaeda, ISIS e Al-Shabab como parte de um esforço para travar o que altos funcionários do Governo chamam de uma das “ameaças mais sérias”.

O anúncio do ministro da Segurança Pública, Bill Blair, foi feito menos de um mês depois de membros dos Proud Boys terem invadido o Capitólio em Washington DC nos EUA. O ataque fez cinco vítimas mortais, incluindo um polícia, e o Canadá apurou que o grupo desempenhou um “papel central” no ataque ao símbolo da democracia americana.

A designação como grupo terrorista acarreta consequências financeiras e jurídicas. A polícia pode apreender a propriedade do grupo ou dos seus membros; os bancos podem confiscar os seus ativos e passa a ser crime fornecer, de forma consciente, assistência a um grupo designado para facilitar ou realizar ataques. O Canadá pode também negar a entrada de membros do grupo no país.

 

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Crédito: DR

 

Ao todo são 13 novas organizações que passam agora a ser consideradas como grupos terroristas pelo Governo canadiano. Os grupos defendem essencialmente a supremacia branca e o neonazismo. O Governo esclareceu que a decisão foi tomada com base numa avaliação “extremamente rigorosa”. Um investigador de contraterrorismo do Maddonald-Laurier Institute classifica a decisão do Governo como “um movimento que envia um sinal claro de que o Canadá está a levar o extremismo da extrema-direita de forma muito séria”.

A partir de agora não é proibido pertencer a este grupo, mas quem comprar merchandising do grupo ou pagar uma quota de sócio incorre numa pena de prisão que pode ser superior a 10 anos.

Otava diz que o extremismo violento com motivação ideológica é “impulsionado por uma série de queixas e ideias de todo o espectro ideológico tradicional” e concentra-se na “disposição de um extremista de incitar, permitir ou mobilizar para a violência”.

Os Proud Boys são um grupo de extrema-direita, exclusivamente masculino, de membros autodenominados “chauvinistas ocidentais”, que têm uma história de violência nas ruas, inclusive contra manifestantes do movimento Black Lives Matter e defensores dos indígenas. O Canadá foi o primeiro país do mundo a designar os Proud Boys como grupo terrorista.

Na semana passada o Canadá assinalou o 4.º aniversário do ataque à mesquita do Quebec que fez seis mortos e 19 feridos em 2017. O primeiro-ministro Justin Trudeau condenou na altura este ataque terrorista contra a comunidade muçulmana. Mais tarde veio a saber-se que o autor do atentado, Alexandre Bissonnette, um estudante da Universidade de Laval nascido no Quebec, simpatizava com as ideias da extrema-direita, que apoiava políticos como Marie Le Penn e Donald Trump e que partilhava nas suas redes sociais mensagens contra refugiados e feministas. 

Este ano Trudeau designou o dia 29 de janeiro como o Dia Nacional contra a Islamofobia. Mas acontece que esta não a única face da extrema-direita que ameaça a democracia canadiana. Segundo um relatório divulgado no ano passado, o Canadá está entre os países com mais grupos de extrema-direita online. Grupos que instigam o racismo e defendem a supremacia branca com recurso a violência sobre os outros grupos étnico-raciais.

O estudo foi desenvolvido pelo Institute for Strategic Dialogue (ISD), um instituto com sede no Reino Unido, em Londres, identificou mais de 6.600 canais online, incluindo páginas, contas e grupos, onde os canadianos estavam envolvidos na divulgação da supremacia branca, misógina ou noutras visões radicais. Em algumas destas páginas os canadianos são mais ativos que os usuários dos EUA e da Grã-Bretanha. Para além do número de páginas, contas e grupos o estudo britânico conclui ainda que o país lidera na produção deste tipo de conteúdo quando comparado com os EUA e a Grã-Bretanha. O estudo tem quase 50 páginas, foi financiado pela Public Safety Canada e é uma das análises mais abrangentes que foi feita até hoje no país sobre a extrema-direita.

O estudo analisou mais de 6.300 contas no Twitter, 130 contas pública no Facebook, 32 canais de YouTube e 42 contas no Gab. O etnonacionalismo, a doutrina que se opõe aos imigrantes e que defende o direito de uma determinada etnia se afirmar como nação, representa a maior comunidade extremista a operar no Twitter (60%), Facebook (53%) e YouTube (46%) no Canadá. Os autores do estudo dizem que encontraram nestes grupos mensagens alusivas a teorias de conspiração, ideias anti-imigração e islamofóbicas. Os grupos de supremacia branca têm mais prevalência em plataformas como a 4chan e a Gab, que ganharam mais notoriedade entre os utilizadores para promover o racismo e o antissemitismo.

O estudo também encontrou mais de 120 contas canadianas nos fóruns fascistas Iron March e Fascist Forge que, entretanto, já foram extintos. Os investigadores identificaram uma ligeira diminuição da atividade extremista em 2019 no Facebook e no YouTube e um aumento no Twitter e no 4chan.

Os investigadores antecipam que a pandemia vai agravar a atividade da extrema-direita no Canadá, uma vez que as manifestações violentas e a disseminação de desinformação e de discurso de ódio online vão continuar. Algumas das conversas online nestas páginas respeitam a Canadian Charter of Rights and Freedoms, mas alguns dos utilizadores defendem a ideia de supremacia branca.

Antes do aniversário do ataque à Mesquita do Quebec a Câmara dos Comuns aprovou em janeiro uma moção que pediu ao Governo que “usasse todas as ferramentas disponíveis para enfrentar a proliferação de grupos de supremacia branca e ódio”. A moção apresentada pelo líder do NDP pedia a Otava que classificasse os Proud Boys como “grupo terrorista”, o que acabou por acontecer esta semana.

O Facebook e o Twitter já tinham banido os Proud Boys das suas redes sociais, mas este e outros grupos de supremacia branca comunicam através de outras plataformas como o 4Chan, Parler e Telegram. Os Proud Boys foram fundados em 2016 por Gavin Mclnnes. Gavin nasceu em Inglaterra e emigrou para o Canadá quando tinha quatro anos. A família acabou por fixar-se em Otava e hoje o fundador da Vice Media reside em Nova Iorque.

Antes da classificação do grupo, a principal ameaça terrorista para o Canadá era representada por pessoas ou grupos islamofóbicos. Muitas das organizações listadas são grupos terroristas de motivação religiosa, como Al-Qaeda, Boko Haram, Hezbollah e ISIS, mas dois grupos de extrema direita – Blood & Honor, uma rede neonazi internacional e seu braço armado, o Combat 18 – foram adicionados em junho de 2019. A lista de entidades terroristas é revista a cada dois anos.

Mas em matéria de grupos supremacistas e neonazis ativos no Canadá, os investigadores tinham identificado em 2015 cerca de 100 grupos. Em 2018, estes grupos tinham aumentado mais de 25%. Agora acredita-se que existam pelo menos 300 grupos desta natureza espalhadas por todo o país.

Alguns dos piores assassinatos em massa da história recente do Canadá foram feitos por pessoas influenciadas pelo pensamento da extrema-direita. Para além do ataque à mesquita do Quebec que fez seis mortos e 19 feridos, Alek Minassian matou 10 pessoas em 2018 num ataque com uma van na Yong Street no centro de Toronto. Minassian atropelou pessoas ao longo de um quilómetro e para além das vítimas mortais cerca de 15 pessoas ficaram feridas. As verdadeiras razões do crime ainda não foram apuradas e o processo judicial continua a decorrer.

Segundo a Statistics Canada, os crimes de ódio contra minorias religiosas, sobretudo judeus e muçulmanos, têm aumentado nos últimos três anos no país. No mês em que o país comemora o Black History Mouth os crimes de ódio continuam a ser praticados no país e em Ontário existe uma grande incidência deste tipo de crime quando comparado com o resto do país.

Em 2017, segundo a Statistics Canada, entre 34 regiões metropolitanas que lideram os crimes de ódio a nível nacional, Thunder Bay e Kitchener-Waterloo-Cambridge lideravam o ranking. Thunder Bay estava à frente com 22,3% por cada 100.000 pessoas e Kitchener-Waterloo-Cambridge tinha uma percentagem de 9.4%.

Em junho de 2017, pela primeira vez na história canadiana do pós-guerra, um partido que defende a retórica neonazi – o Canadian Nationalist Party – recebeu o estatuto de partido político. O partido foi fundado por Travis Patron em Redvers, a sua cidade natal em Saskatchewan. A afirmação da supremacia branca, o controlo no acesso ao aborto e cancelamento de financiamento público para “pride parades” são algumas das ideias que este partido defende.

Em setembro de 2018 surgiu um outro partido de extrema-direita no Quebec – o People’s Party of Canada(PPC). O fundador foi Maxime Bernier, um antigo membro do Partido Conservador. O partido concorreu às últimas eleições federais de 2019, mas não conseguiu eleger nenhum candidato. A “imigração em massa” e o “controlo islâmico” eram algumas das ideias que o partido defendia na altura. Mais de 300.000 pessoas votaram no PPC e o partido afirma ter 40.000 militantes.

Em julho de 2018, cerca de 25.000 eleitores votaram em Faith Goldy e noutros candidatos da extrema-direita para venceram a corrida a presidente da Câmara Municipal de Toronto. Recentemente Derek Sloan, que foi eleito em 2019 para representar Hastings-Lennox e Addington na Câmara dos Comuns, foi expulso do caucus do Partido Conservador. A expulsão aconteceu depois de ter sido tornado público que Paul Fromm, um defensor da supremacia branca, financiou a sua campanha quando concorreu à liderança nacional do partido. Sloan é conhecido pelas suas ideias anti-LGBTQ e comentários racistas. O atual líder do partido, Erin O’Toole, explicou que a decisão de afastar Sloan do caucus se deveu a um “padrão de comportamento destrutivo”.

Razões de sobra para perceber que o carácter multicultural da sociedade canadiana é ameaçado pelos movimentos de extrema direita diariamente.

Joana Leal/MS

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