Cada visita a um banco alimentar representa uma falha das políticas públicas

A insegurança alimentar deixou há muito de ser uma realidade distante ou pontual em Toronto e no Canadá. Aquilo que outrora era visto como uma resposta de emergência para situações temporárias transformou-se, nos últimos anos, numa crise estrutural e persistente. Em 2025, os números atingiram níveis históricos: mais de um em cada dez residentes de Toronto depende atualmente de bancos alimentares para conseguir alimentar-se a si próprio e à sua família. Este dado, por si só, revela a profundidade de uma crise que atravessa gerações, classes sociais e níveis de escolaridade.
O aumento do custo de vida, a crise da habitação, os salários que não acompanham a inflação, a precarização do trabalho e as falhas nos sistemas de apoio social criaram uma tempestade perfeita que empurrou milhares de pessoas para a insegurança alimentar. Hoje, recorrer a um banco alimentar já não é sinónimo apenas de desemprego ou exclusão extrema. Muitos dos que pedem ajuda trabalham a tempo inteiro, possuem formação superior, sustentam famílias e, ainda assim, não conseguem chegar ao fim do mês.
Os dados mais recentes do relatório Who’s Hungry, do Daily Bread Food Bank, mostram uma mudança preocupante no perfil de quem procura apoio: a maioria das visitas passa agora a ser feita por pessoas que já recorriam aos bancos alimentares anteriormente, sinal claro de que a dependência se está a tornar crónica. As crianças representam já um quarto de todos os utilizadores, e um número crescente de famílias admite que os filhos passam fome pelo menos uma vez por semana.
Neste contexto, os bancos alimentares operam sob enorme pressão, respondendo a uma procura que não pára de crescer, com orçamentos multiplicados por mais de dez desde a pandemia. Apesar do esforço incansável de voluntários, doadores e da comunidade, estas instituições sozinhas não conseguem resolver um problema que é, essencialmente, político, económico e social.
Nesta entrevista, um responsável do Daily Bread Food Bank explica como esta crise se manifesta no terreno, quem são hoje as pessoas que batem à porta dos bancos alimentares, quais os principais desafios enfrentados e que mudanças estruturais são urgentemente necessárias para quebrar este ciclo de pobreza e insegurança alimentar. Fica também o apelo claro à sociedade civil: cada gesto conta, mas a solução passa, sobretudo, por políticas públicas que garantam dignidade, trabalho justo, rendimentos adequados e habitação acessível.
Milénio Stadium: Como é que o vosso banco alimentar foi impactado pelo número recorde de visitas registado em 2025 e que desafios operacionais estão a enfrentar neste momento?
Daily Bread Food Bank: Mais de um em cada dez habitantes de Toronto continua a depender dos bancos alimentares para se alimentar e sustentar as suas famílias. O nosso orçamento alimentar passou de 1,5 milhões de dólares por ano antes da pandemia para 22 milhões de dólares atualmente.
MS: Que grupos de utilizadores estão a aumentar mais?
DBFB: As conclusões do nosso mais recente relatório Who’s Hungry mostram que a crise da fome se aprofundou, passando de uma emergência de curto prazo para uma realidade de longo prazo. Cada vez mais pessoas dependem dos bancos alimentares com maior frequência e por períodos mais prolongados, mesmo trabalhando a tempo inteiro, acumulando vários empregos ou tendo formação superior.
Pela primeira vez desde 2020, a maioria das visitas (59%, contra 47% no ano passado) foi feita por clientes que já utilizavam anteriormente os serviços, e não por novos utilizadores. As crianças representam agora um em cada quatro utilizadores (25%). Quase uma em cada cinco famílias com crianças (18%) relatou que os filhos passaram fome pelo menos uma vez por semana nos últimos três meses, um aumento face aos 13% do ano anterior.
Os adultos entre os 19 e os 44 anos continuam a representar a maior fatia dos utilizadores dos bancos alimentares. Desde 2019, este grupo etário registou o maior crescimento: 285%.
Mais de metade dos inquiridos (57%) concluiu o ensino pós-secundário. Quase metade (46%) refere que pelo menos um membro do agregado familiar tem emprego, e um terço dessas famílias (35%) trabalha em dois ou mais empregos.
MS: Que mudanças estruturais ou políticas considera necessárias para reduzir a dependência dos bancos alimentares a longo prazo?
DBFB: Cada visita a um banco alimentar representa uma falha das políticas públicas e exige soluções estruturais. Precisamos de uma ação coordenada entre todos os níveis de governo para melhorar os apoios ao rendimento, garantir habitação acessível e assegurar trabalho digno.
Ao nível federal, isso passa, por exemplo, por reforçar apoios como o Benefício Canadiano para Pessoas com Deficiência, aumentando o valor acima da linha da pobreza, alargando os critérios de acesso e protegendo esse apoio de cortes ou reduções.
As províncias devem melhorar os valores da assistência social e integrar os apoios à habitação e às necessidades básicas num único benefício, que não dependa da situação habitacional da pessoa.
Os municípios também têm um papel fundamental, através do reforço da Estratégia de Redução da Pobreza de Toronto e da melhoria do acesso à habitação, cuidados infantis, transportes, lazer e programas alimentares para famílias de baixo rendimento.
MS: Os bancos alimentares têm recebido maior apoio do governo e/ou da comunidade? De que forma esse apoio tem impactado os serviços e a procura?
DBFB: O Daily Bread não recebe financiamento governamental. À medida que a necessidade aumenta na cidade, também vemos mais membros da comunidade a mobilizarem-se para ajudar os vizinhos. Estudantes e famílias organizam campanhas de recolha de alimentos nos seus bairros. Empresas colocam os nossos contentores amarelos à porta e enchem-nos com alimentos. Voluntários surgem todos os dias para separar milhares de quilos de comida para distribuição. Os doadores financeiros permitem-nos comprar alimentos nutritivos e de elevada procura, enquanto os doadores de produtos ajudam a preencher lacunas.
Este esforço coletivo permite-nos continuar a apoiar mais de um em cada dez residentes de Toronto que precisam dos bancos alimentares para sobreviver. No último ano, distribuímos mais de 37 milhões de libras de alimentos e realizámos mais de 3,76 milhões de atendimentos.
Madalena Balça/MS







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