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Bancos alimentares tiram a fome de milhares de canadianos

Bancos alimentares tiram a fome - capa-mileniostadium
Créditos: DR

No subsolo de um prédio residencial funciona o local para onde centenas de famílias daquela comunidade se dirigem toda a semana para garantir que tenham comida à mesa. E foi numa típica manhã gelada de inverno em Toronto que nossa equipe de reportagem visitou o Banco Alimentar Flemingdon, na região de East York. Perto das 11 horas da manhã, quando o local abre ao público, a fila já começa a se formar no corredor e enquanto os clientes aguardam, os funcionários recolhem algumas informações pessoais para cadastro. Alguns estão ali pela primeira vez, outros já recorrem a essa ajuda habitualmente. 

Conversar com essas pessoas, conhecer um pouco da realidade delas e o que as levou a precisarem desse serviço era uma de nossas missões, mas nem todos estavam abertos ao diálogo. A vergonha de precisar desse tipo de ajuda, a sensação de impotência por não ter dinheiro suficiente para o básico, comprar comida e um possível sentimento de exclusão da sociedade ainda são muitos os preconceitos que existem e rondam os que recorrem aos bancos alimentares. Para alguns o idioma é a primeira barreira para iniciar qualquer conversa, já que muitos são recém-chegados ao país ou imigrantes, e não falam inglês com fluência.   

Uma das pessoas que aceitou conversar conosco é uma mulher, de 40 anos, que veio com o marido para o Canadá há mais de uma década, ambos de um país do Oriente Médio. “Essa é a segunda vez que venho aqui. Descobri esse lugar semana passada. Para mim é muito importante porque garante a alimentação da minha família por pelo menos cinco dias”, conta. Ela e o marido têm dois filhos, um de sete e outro de 12 anos. “Há cinco anos o meu marido sofreu um acidente de trabalho, e desde então vivemos da pensão que ele recebe do governo por invalidez. Não é muito dinheiro”, diz ela, enquanto se dirige às mesas onde estão posicionadas as caixas com os itens alimentares disponibilizados. São diversos vegetais, enlatados, ovos, cereais, entre outros tantos. Pouco a pouco a dona de casa vai acomodando um saco de pães, batatas, algumas cebolas, metade de uma caixa de ovos, bolachas salgadas, um saco de arroz, um de leite, entre outros, e assim vai enchendo o carrinho de compras que trouxe. Se despede dos funcionários do local e sai, agradecida e aliviada. “Obrigada, na semana que vem eu volto”.   

Perto dali quem escolhe os vegetais é um homem de 62 anos, que assim como nossa primeira entrevistada prefere não divulgar o nome. Ele conta que mora sozinho e não tem ajuda familiar, diz que frequenta o banco alimentar há mais de um ano. Depois de ter sofrido um acidente de trabalho, era caminhoneiro, não pode retornar à ativa e passou a receber o Ontario Disability Support Program. “Vir aqui buscar comida me ajuda muito porque assim eu tenho dinheiro para pagar as outras contas, como aluguel, medicamentos” e acrescenta: “Para minha vida ter um lugar como esse faz toda a diferença”. 

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Sean Sherzady. Créditos: Luciano Paparella Jr.

E não apenas na vida dele, como na de centenas de pessoas dessa comunidade de Toronto. Assim como grande parte dos bancos alimentares do país, o de Flemingdon viu a procura por ajuda disparar nos últimos anos. Segundo o gerente, Chadi Abed, uma combinação de fatores impulsionados pela pandemia, como desemprego e aumento do custo de vida fez com que os atendimentos semanais passassem de 100 famílias para 300. “A maioria das pessoas que vêm aqui são do Paquistão, Índia e Afeganistão, mas recebemos clientes de todas as nacionalidades. E na maioria das vezes são recém-chegados ao Canadá e que dependem da ajuda do governo num primeiro momento e por isso também recorrem ao banco alimentar. Ainda mais agora, com os preços mais elevados”. Entre os itens mais procurados estão fraldas geriátricas, arroz, feijão e óleo de cozinha. “Quem quiser doar sempre é bem-vindo. Sem as doações e ajuda da comunidade estaríamos com as portas fechadas”, destaca Abed. 

O local abre duas vezes por semana para atendimento ao público, segundas e quartas-feiras, a partir das 11 horas até às 15h30. Os alimentos são enviados pela Daily Bread e Second Harvest, além de doações de parceiros do projeto e da própria comunidade. O diretor-geral é Sean Sherzady, um bem-sucedido empresário local, que sempre se envolveu em ações de caridade. “Há cerca de seis anos eu estava lendo um jornal quando vi uma reportagem sobre esse banco alimentar, que seria fechado porque não conseguiam pagar o aluguel. Eu pensei: “É isso que tenho que fazer”. No dia seguinte já entrei em contato com os antigos administradores, juntei um grupo de amigos, formamos um grupo administrativo, paguei a dívida e passei a comandar o serviço” e acrescenta: “Provavelmente somos um dos únicos bancos alimentares de Ontário que não é mantido pelo governo, não recebemos verba financeira. Nós administramos tudo de forma privada”. A história de Sherzady é de luta e superação. Ele chegou no Canadá junto com a família na década de 80, para fugir à guerra no Irã. “Minha família viveu por algum tempo com ajuda do auxílio financeiro do governo e de doações. Minha mãe buscava comida num banco alimentar. É um assunto que toca o meu coração, sem dúvida”.

Além da boa-vontade e trabalho dos administradores, para funcionar e atender a alta demanda de clientes, o banco alimentar depende e conta com a ajuda de dezenas de voluntários, que por diferentes motivos também estão ali, entregando seu tempo e dedicação à causa. São cerca de 30 que colaboram semanalmente. Entre eles encontramos um luso-canadiano, Frederico da Costa, de 71 anos.  Reformado, ele disse que conheceu o lugar por acaso há quatros anos. “Eu estava passando, vi uma movimentação e resolvi entrar para ver do que se tratava. O gerente veio perguntar se eu precisava de comida, agradeci e disse que não. Então ele me perguntou se eu queria ajudar. Aceitei e desde então duas vezes por semana cá estou. Faço de tudo um pouco, ajudo a descarregar os caminhões com os alimentos, os coloco nas prateleiras, o que for preciso”. Ele conta que o ambiente de trabalho é amigável e todos se ajudam e respeitam. Quando necessário, Fred, como é chamado, ajuda na tradução. “Um casal de brasileiros já veio aqui, um outro senhor português. Pessoas de diferentes raças, credos, recebemos todos os que precisem de ajuda”.  

Na fila de clientes quem coleta algumas informações é outro voluntário, Winston Battle. Hoje ele está desse lado, mas conta que há alguns anos foi ele quem precisou de ajuda. “Eu já vim nesse banco alimentar pegar comida. Conheço essa realidade e faço questão de ajudar. Minha alegria é ver que todos saem daqui com comida. Essa é a minha satisfação. Centenas de pessoas saindo com as sacolas e carrinhos de compras cheios. E se você pode contribuir, ajude”. 

Diferentes histórias de vida, motivações, necessidades que compõe esse, que é um dos tantos bancos alimentares de Toronto. Locais formados por pessoas que precisam receber, outras que fazem questão de retribuir a abundância que a vida lhes deu, outras tantas que buscam ajudar para sentir que fazem a diferença e a sua parte na comunidade. Como o diretor-geral faz questão de nos lembrar: “Eu sempre digo: As pessoas que estão nessa fila para receber as doações, muitas têm uma história surpreendente. Elas eram você, ontem. Doenças mentais, alguma morte inesperada na família, desemprego…são diversas situações de vida que as trazem para essa fila. Então, nunca olhe com superioridade para ninguém, porque de um dia para o outro, você pode estar nessa fila, precisando de ajuda”. 

Ontário tem 132 bancos alimentares. A pandemia e suas consequências fizeram com que a procura atingisse níveis recordes. O relatório “Who’s Hungry 2021”, do Daily Bread Food Bank, apontou que só em Toronto, em 2021, mais de 1,45 milhão de pessoas recorreram aos bancos alimentares, o maior número de visitas já registrado na cidade. Pela primeira vez, os novos clientes superaram os já existentes nesses locais, com um aumento de 61% em relação ao ano anterior.

Lizandra Ongaratto/MS

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