“As relações com diferença de idade superam tabus, quebram preconceitos e fortalecem o amor” – Elaine Oliveira

Elaine Oliveira é psicoterapeuta com uma sólida formação em Psicologia e Administração de Empresas (MBA). Combinando o seu conhecimento em Psicologia com uma visão estratégica, Elaine apoia os pacientes na busca por autoconhecimento e bem-estar. A sua abordagem é empática e focada nas necessidades individuais, criando um ambiente seguro para que os seus clientes possam alcançar os seus objetivos.
Na entrevista de hoje, exploramos a visão de Elaine Oliveira sobre a psicoterapia e os desafios enfrentados por casais, especialmente em relações com grande diferença de idade. Elaine reconhece que, embora o tabu sobre estas relações ainda exista, ele tem diminuído ao longo do tempo. A psicoterapeuta salienta que esta diferença de idade desafia normas culturais, gerando suposições sobre desequilíbrios de poder e interesses incompatíveis, além de refletir desigualdades de género. Para Elaine, a diferença de idade pode enriquecer a relação, trazendo equilíbrio entre vitalidade e sabedoria. Afirma, sem rodeios, que a satisfação sexual depende mais da intimidade, da comunicação e da adaptação, do que da idade.
Milénio Stadium: Ainda existe um tabu significativo na nossa sociedade relativamente a relacionamentos com grandes diferenças de idade? Se sim, o que está na origem desse preconceito?

Elaine Oliveira: Sim, ainda existe um certo tabu, embora em algumas sociedades ele esteja a diminuir. O preconceito geralmente tem raízes em normas culturais e sociais que ditam o que é considerado “normal” ou “aceitável” em termos de relacionamentos. A diferença de idade muitas vezes desafia essas normas e levanta suposições automáticas sobre desequilíbrios de poder, interesses incompatíveis ou intenções ocultas (como interesse financeiro ou insegurança emocional). Também há uma diferença de perceção quando a pessoa mais velha é o homem em comparação com quando é a mulher, refletindo desigualdades de género profundamente enraizadas.
MS: Quais são os principais desafios que os casais com grande diferença de idade costumam enfrentar, e como é que esses desafios podem ser superados?
EO: Os casais com grandes diferenças de idade costumam enfrentar alguns desafios específicos. Um dos mais comuns são as diferenças de fase de vida: enquanto um parceiro pode estar focado na carreira ou na educação dos filhos, o outro já está a pensar na aposentadoria e a dedicar mais atenção à saúde. Esta disparidade de objetivos e prioridades pode gerar tensões, mas pode ser ultrapassada com uma boa comunicação e alinhamento de expectativas.
Outro desafio relevante são as pressões externas. Críticas de familiares, amigos ou até da sociedade em geral podem causar insegurança no casal e gerar sentimentos de isolamento. A pressão social pode afetar a confiança e o bem-estar dos parceiros, mas com diálogo aberto e apoio mútuo, é possível enfrentar essas críticas de forma mais resiliente.
As diferenças de energia ou interesses também podem surgir, embora nem sempre. Pode haver uma discrepância no ritmo de vida, nas preferências sociais ou físicas, o que pode criar algum desconforto, especialmente se os parceiros tiverem necessidades e gostos muito distintos. Superar isso exige flexibilidade e vontade de se adaptar às mudanças.
Por fim, questões relacionadas com saúde e dependência podem ser um tema delicado. O parceiro mais jovem pode temer ter de assumir o papel de cuidador mais cedo do que o esperado, o que pode gerar receios sobre o futuro da relação. Contudo, este desafio pode ser mitigado com a preparação e a conscientização de que todos envelhecem e, juntos, podem enfrentar as dificuldades da vida com mais compreensão.
Esses desafios podem ser superados através de diálogo aberto, empatia e, quando necessário, acompanhamento terapêutico. É crucial que o casal compartilhe valores e objetivos de vida comuns, e que desenvolva estratégias para lidar com os julgamentos externos com maturidade e união. Quando há respeito mútuo e uma base sólida de compreensão, muitos obstáculos podem ser ultrapassados.
MS: Pode a diferença de idade enriquecer uma relação?
Sem dúvida. A diferença de idade pode trazer maturidade emocional, estabilidade e experiências de vida enriquecedoras. Muitos casais relatam que essa diferença proporciona equilíbrio — um traz vitalidade, o outro traz sabedoria. Quando há respeito mútuo, boa comunicação e afeto, a idade torna-se apenas um número, e não um obstáculos.
MS: Sexualmente: acha que este tipo de relação está condenada?
EO: Não necessariamente. A vida sexual de um casal depende muito mais de fatores como intimidade, comunicação, desejo mútuo e abertura à adaptação do que da idade. Com o passar do tempo, qualquer casal — independentemente da diferença etária — precisa ajustar-se às mudanças do corpo, da libido e das rotinas. Casais com boa conexão emocional tendem a manter uma vida sexual satisfatória, mesmo com adaptações.
MS: Que estratégias ou abordagens terapêuticas recomenda para casais que enfrentam críticas externas ou dúvidas internas por causa da diferença etária?
EO: Algumas abordagens terapêuticas eficazes para casais que enfrentam críticas externas ou dúvidas internas devido à diferença de idade incluem a terapia de casal centrada na comunicação, que visa fortalecer a escuta empática e a resolução de conflitos. Este tipo de terapia permite que ambos os parceiros se sintam ouvidos e compreendidos, criando um ambiente mais saudável para a relação.
A psicoeducação é igualmente fundamental, pois ajuda o casal a perceber que os preconceitos sociais não definem a validade da relação. Compreender que as críticas externas não afetam a base da relação pode aliviar inseguranças e proporcionar maior confiança.
Outra abordagem importante é a terapia cognitivo-comportamental (TCC) , que trabalha as crenças disfuncionais e inseguranças internas que podem surgir a partir de comparações sociais ou julgamentos externos. A TCC ajuda o casal a modificar padrões de pensamento negativos e a lidar com as pressões externas de forma mais saudável.
A construção de uma narrativa forte do casal também é essencial. Ajudar ambos a identificarem e valorizarem os pontos fortes da relação pode reforçar o vínculo e a compreensão mútua. Ao olhar para a relação de forma positiva, o casal fortalece o seu compromisso.
Por fim, o apoio social intencional pode ser uma estratégia poderosa. Encorajar o casal a cultivar círculos sociais que os aceitem e validem é crucial, pois um ambiente de apoio contribui para o fortalecimento da relação.
Mais do que simplesmente defender-se das críticas, é importante que o casal sinta que a sua relação tem alicerces internos sólidos, construídos sobre respeito, parceria e amor genuíno. Isso proporciona uma base sólida para enfrentar os desafios externos com confiança e união.
Rómulo Medeiros Ávila/MS







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